Comida estragada e telemóveis desligados com 'apagões' nos musseques de Luanda

LusaPublicado 13/12/2016 14:52:00

Comida estragada nos frigoríficos, telemóveis que não tocam porque não têm carga e velas sempre à mão tornaram-se numa rotina nos musseques à volta de Luanda, devido aos prolongados cortes no fornecimento de electricidade da rede pública.

Em causa estão cortes que se arrastam há várias semanas, que o Governo angolano justifica com o aumento do consumo de electricidade e o défice de produção, mas também as obras de reforço de potência na barragem de Cambambe, no Cuanza Norte, que estão a desesperar sobretudo os bairros mais pobres de Luanda, onde não há dinheiro para geradores a gasóleo ou gasolina.

Os musseques, bairros com casas de construção frágil onde vivem milhares de famílias, aparentam ser a situação mais complicada, com queixas de dias consecutivos sem electricidade da rede pública.

Os transtornos vão desde a conservação de alimentos ao simples carregamento dos telemóveis ou poder ver televisão, como relataram à Lusa moradores do bairro Kalawenda, município do Cazenga, um dos mais populosos de Luanda.

Nzinda Miguel dá conta que apenas depende da energia da rede eléctrica para a conservação da comida no congelador e que com os cortes constantes e prolongados das últimas semanas já perdeu muita comida.

"A energia aqui é mesmo assim, podemos passar dois ou três dias nas escuras, os que têm gerador sofrem menos e nós que não temos gerador, as coisas apodrecem na 'arca'. Nesses momentos a vela de cera é o nosso recurso para clarear a casa", conta a moradora.

Para manter os telemóveis carregados e funcionais, Nzinda Miguel tem recorrido à casa de vizinhos com geradores eléctricos. Os restantes, assume, "ficam desligadas do mundo" até ao regresso da electricidade, por algumas horas.

Situação semelhante passa Cristina Lourenço, que lembra os períodos em que ficaram mais de uma semana sem electricidade naquele bairro.

Apesar de possuir em sua casa um gerador, relata que nem sempre tem dinheiro para comprar combustível e as consequências nessa fase, principalmente para com os produtos frescos, "são inevitáveis".

"São mais gastos, o meu gerador é abastecido com 20 litros de gasolina e trabalhando três a quatro dias consecutivos é prejuízo para mim, porque quando não há dinheiro para abastecê-lo é já uma certeza que toda a comida vai para o lixo porque apodrece no congelador", desabafou.

Ver a telenovela ou ouvir música são momentos de lazer que também não se dispensam nos musseques, numa altura de noites que chegam a ser de 30 graus centígrados. Sem electricidade, para os moradores do Kalawenda como de outros bairros de Luanda, faltam alternativas: "A solução é mesmo dormir mais cedo e debaixo de um intenso calor", acrescentou Cristina Lourença.

Catarina Adelino, de 37 anos, explica que para a conservação dos frescos recorre a compra de gelo e para carregar o telemóvel a solução passa por levar o carregador para a empresa.

"Compramos gelo para conservar o peixe, a carne e outros alimentos de forma a não estragar. No meu caso carrego o telemóvel na cidade onde trabalho para me precaver das falhas de energia aqui no bairro", conta à Lusa.

Sem electricidade e sem iluminação pública, estes moradores afirmam que a situação tem contribuído para "o aumento da criminalidade" no bairro.

O ministro da Energia e Águas angolano, João Baptista Borges, esclareceu este mês, em conferência de imprensa, que os ensaios finais na barragem de Cambambe deverão continuar a provocar, até final de Dezembro, apagões no abastecimento eléctrico aos grandes centros urbanos de Luanda, situação que se arrasta há semanas, agravada pelo aumento do consumo.

Anualmente, só em Luanda, segundo o governante, o consumo de electricidade cresce 23%, mas até agora a potência instalada não aumentou e ronda os 1.500 MegaWatts (MW).

Com as novas barragens e uma central a gás, estima-se que a potência instalada chegue aos 5.000 MW no final de 2017.

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