Ponto de Partida

Editorial Novo JornalPublicado 06/01/2017 16:35:00

Há muito tempo que o velho aforismo "Ano Novo, Vida Nova" desapareceu no nosso léxico, como muitos dos dizeres populares que nos ajudaram no nosso crescimento educacional e cívico. Porque era possível e anda acreditamos que seja, apesar de tudo, que o início de um novo ano marque, quando assim o entendemos, um separar de águas, de atitudes e práticas de vida, individual e/ou colectivamente falando.

Foto: DR

Uma nova onda, perigosa e colectivamente tresloucada, tomou conta de um número preocupante de cidadãos um pouco por todo o mundo. Infelizmente para nós, mas muito pior para as gerações subsequentes, para quem o recurso ao estudo, à investigação, à aprendizagem, enquanto processo contínuo que deve percorrer toda a nossa vida, é substituído pelo facilitismo do acesso à Internet, pelos motores de busca que dão, aparentemente, e só aparentemente, respostas prontas e imediatas, pelo escape das redes sociais que servem para ler e escrever toda a sorte de dislates, de mentiras, de enganos.

Trata-se de um fenómeno cujo alastramento pode ser entendido numa perspectiva positiva, enquanto parte integrante de alguma democratização da liberdade de opinião. Todavia, facilmente resvala para um igualitarismo aterrador, e quem as frequenta é obrigado a conviver com as mais pérfidas e odiosas campanhas, as mais idiotas e ignorantes opiniões sobre tudo e mais alguma coisa.

Há um processo de transferência das relações interpessoais de proximidade física para uma realidade virtual, em que não sabemos se quem se corresponde connosco é exactamente quem diz ser. E onde, com facilidade, há um caminho aberto para o insulto rasteiro, a verdade que é absolutamente falsa mas na qual todos acreditam, a explosão incontrolada de frustrações e raivas pessoais, que rapidamente põem a arder qualquer arbustozinho como se de uma floresta se tratasse.

Outro aspecto perigoso deste jogo de aparências - que a par de outras transformações culturais são tão sérias e profundas como esta - é a vulgarização da palavra, do diálogo, da conversa, ainda que entre contendores de opiniões diferentes. Fruto de uma realidade que afastou geograficamente as pessoas - e a convivência que era em outros tempos quase diária hoje se tornou uma raridade -, as redes sociais acabam por ser muitas vezes o último reduto de quem, habituado ao diálogo, ao debate, à discussão, se encontra muitas vezes sozinho(a) e longe das pessoas mais chegadas.

Outros aspectos a ter em conta são realidades nuas e cruas como a "proletarização" da música, já que qualquer "iluminado" entende que é cantor ou compositor e descarrega o produto da sua mediocridade para milhões de pessoas que o consomem, porque não conhecem outras músicas, porque não são educados nem preparados para mais nada a não ser o que é fácil e de imediato consumo; a massificação de escritores, já que qualquer que, desconhecendo quase por completo a língua que utiliza, se pode autodenominar escritor e encontra rapidamente uma dúzia de seguidores; a afirmação de uma mentira que viralmente se torna verdade absoluta e indiscutível, ideia muito próxima dos conceitos do nazi Joseph Goebbels quanto à imposição da mentira enquanto verdade; a falsificação permanente de um quotidiano que é feito de grandes dificuldades e sacrifícios para a maior parte das pessoas, mas que divulgam e publicitam os diários das suas vidas como se se tratassem de contos cor-de-rosa.

O recurso aos pais, aos amigos, aos professores, aos livros, ao estudo, à investigação e à fuga da iliteracia - muito mais abrangente do que pode parecer - vêm sendo ultrapassados perigosamente por uma onda gigantesca que semeia, um pouco por toda a parte, a ignorância, a incultura, a propaganda fácil e barata que põe em causa alguns dos mais sagrados valores humanos e conduz a um retardamento da civilização. Impondo, ao invés, a barbárie como forma de vida.

Se a tudo isto juntarmos, para o ano que agora começa, o facto de o Presidente eleito da maior potência mundial, os Estados Unidos da América, utilizar uma das redes sociais para dar opiniões, para responder à Rússia, à China e para dar pistas de como vai (des)governar o país que o elegeu, está mais do que visto que o caldo, embora ainda não totalmente pronto, já está entornado; e que só um trabalho paciente, de formiga, sem fronteiras geopolíticas, que una profissionais da comunicação social, escritores, artistas, desportistas, intelectuais, políticos sérios e coerentes e uma sociedade civil forte, consciente, educada e bem preparada, pode ajudar a contrabalançar os tempos difíceis que se avizinham.

PS: Por imperativos que os leitores certamente entenderão, somos obrigados a alterar o nosso preço de capa a partir da próxima edição para os 500.00 kwanzas.

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