Entre inundações e seca, a "maldição" de um distrito "esquecido" no sul de Moçambique

Estêvão Azarias Chavisso (Lusa)Publicado 05/03/2017 11:45:00

Em Guijá, sul de Moçambique, "as coisas continuam complicadas" e, meses após uma seca severa, o pesadelo hoje são as inundações, com a subida do rio Limpopo a afectar centenas de agricultores, ameaçando a campanha agrícola que se inicia.

A pouco mais de quatro quilómetros de Caniçado, sede distrital de Guijá, Rosita Muchanga, uma camponesa de 43 anos de idade, avalia o impacto das inundações na sua horta, um espaço de cerca 50 metros numa das margens do rio Nkolawane, uma extensão do Limpopo.

A camponesa explica à Lusa que perdeu quase tudo com a subida do rio e, hoje, ameaçada pelo "inimigo constante" das mais de 92 mil pessoas deste pequeno distrito esquecido no interior da província de Gaza, teme pelo futuro dos seus seis filhos, porque, desde que o "papá Marcos [o seu falecido marido] morreu", este campo tem sido a base para alimentação da sua família.

Os charcos de água nos extensos campos agrícolas estrategicamente encostados à margem do rio Nkolawane denunciam a frustração de quem, como Rosita Muchanga, acreditava em "melhores dias" para o novo ano, e agora, entre lama e areia molhada, colhe o pouco que sobrou para evitar um "velho e bem conhecido inimigo" das terras de Gaza: a fome.

"Eu não tenho problemas, dormi com fome nesta terra quase por toda a minha infância. Mas não consigo ver os meus filhos sofrerem. Isso mata-me", confessa a camponesa, enquanto limpa a sua enxada suja de lama, acrescentando que "isto parece uma maldição, quando o pesadelo não é a seca, a água leva tudo".

É que até finais do ano passado, Guijá, limitado a sudoeste pelo rio Limpopo, segundo maior da África Austral, debatia-se com uma seca severa que deixou cerca de 13 mil famílias em situação de insegurança alimentar, comprometendo as duas últimas campanhas agrícolas, para tristeza da população de um distrito que vive na base da agricultura de subsistência.

Com a chuva tímida que caiu no final de Fevereiro, depois de quase dois anos sem esperança, os agricultores das áridas terras de Guijá apostaram na plantação de culturas como milho e tomate, cuja produção, além do consumo interno, tem abastecido os distritos vizinhos, bem como a capital moçambicana, Maputo.

No entanto, com a chuva que cai fortemente na África do Sul e no Zimbabué, o nível do rio Limpopo subiu, inundando parte significativa dos campos agrícolas, situados, na sua maioria, na extensão do rio para aproveitar as águas que atravessam a província de Gaza para desaguarem no oceano Índico.

"É um paradoxo e um problema cíclico, pensávamos que os tempos fossem melhorar com a chuva, mas isso não aconteceu", lamenta à Lusa o director das Actividades Económicas de Guijá, Acácio João, dando conta de que mais de 900 hectares são dados como perdidos só nesta primeira fase e, segundo informações do Instituto Nacional de Gestão de Calamidades, "as coisas vão piorar".

Apesar de o problema da subida do rio Limpopo "não ser novo", tendo em 2013 sitiado totalmente o posto administrativo de Caniçado e também Chokwé, distrito vizinho, até ao momento pouco foi feito para evitar a situação, que exige uma "intervenção séria e cheia de vontade".

Para o director das Actividades Económicas do distrito, a construção de uma infraestrutura hidráulica na região de Mapai, a 400 quilómetros do posto administrativo de Caniçado, poderia facilitar o controlo das águas, garantindo que os agricultores usassem o recurso em seu benefício.

Mas o sonho de uma infraestrutura que facilite o aproveitamento das águas parece longínquo, a julgar pelos desafios básicos que o distrito ainda enfrenta, nomeadamente a construção de estradas e uma ponte sobre o rio Nkolawane, bem como a melhoria dos sistemas de saúde e de educação.

"Seria uma bênção divina ter uma infraestrutura com essa função. Sabemos que não é fácil, mas seria um alívio da nossa população", comenta Reginaldo Matavel, chefe do posto administrativo de Chivoguene, um dos mais afetadas e onde mais de 87 hectares de culturas diversas foram dadas como perdidas.

Reginaldo Matavel diz que a alternativa tem sido incentivar as populações a venderem o seu gado para garantirem que haja alimentação, um processo por ele classificado como complicado, na medida em que boa parte das pessoas perdeu os animais com a seca que abalou distritos nos últimos tempos.

"As coisas não estão fáceis", sublinhou o chefe da localidade de Chivoguene, adiantando que a ajuda de parceiros e do Instituto Nacional de Gestão de Calamidades é que, em muitos casos, tem garantido que o governo distrital assista os agricultores em épocas de calamidades e agora, com estas perdas, de certeza, faltará sementes.

"Só mesmo um milagre para resolver definitivamente esta situação. Já não dá mais para as pessoas viverem assim", observa Reginaldo Matavel.

Entretanto, enquanto o milagre não chega, Rosita Muchanga, à semelhança dos mais de 600 camponeses que perderam suas culturas, está cansada de "toda esta miséria" e, acossada uma vez mais pela "maldição" de Guijá, pensa em largar tudo e partir para a capital.

"Estou farta da miséria que nos persegue. Estou cansada de olhar para os meus filhos sem nada. E a pergunta que não me sai da mente é o que fizemos nós para merecer tanta fome", lamenta a viúva.

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