Políticas falhadas: O nosso desporto anda pelas ruas da amargura

Silva CandemboPublicado 14/03/2017 13:55:00

O nosso desporto anda pelas ruas da amargura, com resultados nada famosos, com excepção do andebol feminino. Nas restantes modalidades, pelo menos nas mais populares, o quadro é preocupante.

Foto: Arquivo Novo Jornal

O futebol não vai a uma fase final do CAN há duas edições, o basquetebol perdeu o último "Afrobasket" para a Nigéria e a Taça dos Campeões Africanos em masculinos.

Do jeito que as coisas têm andado, nada indica que nos próximos tempos haverá mudanças substanciais. Nas modalidades individuais, a situação parece ser pior ainda, havendo uma ou outra excepção como a ginástica e o xadrez. Tudo o resto é um Deus nos acuda, muito por culpa das políticas desportivas falhas, traçadas pelas entidades que superintendem o sector.

Do correspondente ministério às federações, passando por associações provinciais, clubes e até o COA todos são, de um modo ou de outro, responsáveis pelo lamentável estado em que se encontra o desporto angolano.

Uns porque não tiveram ciência na hora de idear políticas, outros porque mesmo sabendo que havia entes cometendo asneiras grossas preferiram calar, com receio de melindrar.

Angola é um dos poucos países do Mundo que jamais conheceram a glória olímpica. Outros, como Moçambique e Togo, por exemplo, que gastam muito menos do que nós, já o conseguiram. Se no primeiro desses dois casos foi a Natureza a proporcionar as medalhas por via de uma "fenómeno" chamado Lourdes Mutola, no segundo a história foi bem diferente.

As autoridades desportivas togolesas perceberam que tinham um atleta com alto potencial, pediram ajuda à França, onde se treinou nos mais sofisticados centros de canoagem e a medalha acabou por chegar, nos Jogos de Pequim"2008.

No caso de Angola, seguramente, haverá jovens não atletas com potencial para se imporem ao nível mundial e, consequentemente, olímpico. O problema é que a prospecção inexiste, sendo que na mais das vezes clubes e federações esperam que lhes batam a porta em vez de procurarem os talentos. Não fosse assim, provavelmente o portentado que foi José Sayovo teria sido descoberto antes mesmo de ser vítima da mina que o deixou invisual.

Dizem especialistas que, se fosse visual e com condições excelentes de preparação, o ex-militar nascido em Catabola possivelmente faria parte da elite mundial de velocistas normais.

Tão grave como ignorar a prospecção é o desaproveitamento das relações singulares com países desportivamente fortes. Atentemos ao caso do boxe. Há uns anos, Angola teve um pugilista de nome Gregório Capita, com um potencial enorme. Mas esse potencial nunca foi desenvolvido até ao limite, apesar das relações privilegiadíssimas com Cuba.

Se ele beneficiasse de uma preparação mais cuidada e intensa em Cuba, as possibilidades de ir longe seriam maiores. Curiosamente, o Botsuana, cujos laços com Cuba não são nem de longe tão fortes como os de Angola, investiu na contratação de técnicos cubanos e em estágios na Ilha e hoje é potência continental da modalidade.

Tanto que, em 2002, se a memória não nos atraiçoa, quando esteve a Luanda a disputar um Zonal ficou muito à frente de Angolano quadro de medalhas.

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