A visão do Segunda - Opinião de Sousa Jamba

Sousa JambaPublicado 15/03/2017 16:28:00

Outro dia, aquí em São Tomé e Príncipe, vi um local onde uma senhora estava a vender gelados. Fui lá e pedi para lavar as mãos, ela dirigiu-me para um corredor que dava para uma sala que tinha sido transformada em restaurante. No meio do edifício havia um espaço aberto até ao tecto; várias escadas levavam aos três andares da estrutura. Perguntei qual era a história por trás daquele edifício. Um pouco envergonhada, a senhora disse "era casa di branco".

Sim, casa di branco! Eu tinha acabado de viajar para o Planalto Central e conhecia este sentimento. Há muita gente que parece estar à espera do retorno do branco. O que Angola - e o resto do continente - precisa é de líderes com visão, gente que pode convencer os cidadãos que o país e o seu destino está nas nossas mãos. O meu grande amigo e parente Segunda Amões, de quem vou falar mais adiante, é exactamente este tipo de líder de que precisamos.

Entre o Huambo e o Katchiungo há uma vila pequena chamada Boas Águas. Quando estive lá, em Maio, tive o que imagino ser a sensação dos antropólogos quando descobrem mais uma antiga cidade da civilização maia no meio da floresta; as Boas Águas estavam completamente cobertas por capim. Havia uma nova estação de comboio, construída por chineses. As antigas casas estavam intactas, mas ninguém habitava nelas. Havia uma loja, que só tinha vinho português, cujo dono, soube, vivia no Huambo. As Boas Águas estavam completamente paradas.

Este já não era o caso da Camela Amões, uma aldeia entre Chiumbo e Bailundo que o Segunda Amões transformou numa pequena vila. O Segunda construiu uma casa de qualidade e meteu lá o seu avô, o velho Muenekongo, que tem 105 anos. Aqui ninguém está à espera de um branco ou de uma outra pessoa. O Segunda, que operou por vários anos como empresário de bastante sucesso na África do Sul, sabe que a chave de tudo é o saber - o know-how. Numa tarde eu estava na Camela Amões quando comecei a conversar com um jovem que operava um daqueles gigantescos tractores que movem a terra. O jovem falava inglês perfeitamente, tinha feito os seus estudos na Zâmbia. Ele disse-me que já teria trabalhado com aquele tipo de máquinas na Zâmbia e que faria tudo para ensinar os outros.

O Segunda Amões opera com o princípio por trás do tanque israelita. Quando estava a fazer o mestrado na Nova Jersey, Estados Unidos, um dos meus colegas, antigo oficial do exército americano, falou de como o exército de Israel,sendo numericamente tão inferior em número em relação aos seus rivais árabes, ganhava. O antigo oficial falou do princípio da distribuição do saber. No tanque israelita, segundo ele, o homem que navega pode conduzir ou mesmo operar o canhão; a tripulação deste tanque conhece muitíssimo bem o manual do mesmo. Segundo o oficial, este já não é o caso do tanque árabe: o comandante sabe tudo e a sua ausência significa o início da derrota.

O Segunda Amões tem muito de comandante; ele está altamente consciente da possibilidade de que os que estão empenhados numa tarefa se desviem - aquela tendência humana. Porém, ele faz lembrar o mesmo da tarefa que tem à sua frente. Por exemplo, o Segunda tem vários programas para formar os jovens. Quando, por exemplo, vê uma criança na terça-feira de manhã que não estava na escola da aldeia da Camela Amões, ele pergunta logo por que razão é que a criança não estava na escola se todas as condições já tinham sido criadas.

Uma vez, na Camela Amões, vi o Segunda descrever como ele previa a construção de um edifício na aldeia. Alguém que estava perto pôs-se a rir; aquele tipo de sorrir que sugeria o sentimento de "isto aqui na Camela? Este kota está a sonhar muito alto, eh!". Lembro-me, nos anos 90, um concerto em Londres, organizado por um indivíduo chamado Mayele, de Rei Weba, na altura alguém muito procurado pela diáspora. Naquele salão no leste de Londres esperamos das 21h00 até 01h00 da manhã; foi quando o Rei Weba apareceu. Quando reclamámos a resposta foi "vocês pensam que somos suíços? Somos angolanos, operamos numa outra base". Na altura, lembro- -me de ter interrogado por que razão é que os angolanos não podiam ser tão eficientes como os suíços? Já vi, por várias vezes, o Segunda Amões a insistir que os que estavam envolvidos no trabalho na Camela Amões deveriam sonhar alto. Claro que o branco era muito bem- -vindo nestes projectos; mas a ideia do Segunda Amões é sempre obter o conhecimento para adaptar às condições locais. Embora o Segunda Amões se tenha formado em engenharia de petróleos, a construção é um ramo que ele entende muito bem. Suspeito que ninguém consiga fintá-lo; ele sabe o que necessita e o seu preço

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