A vida também se escreve nas traseiras de um candongueiro

Ricardo BordaloPublicado 18/03/2017 13:50:00

Na parte de trás dos táxis enviam mensagens escritas, por vezes bem-humoradas, "aqui vocês perdem rede", outras menos simpáticas, "ignoro todos os inchidores". São "dicas" que expõem a personalidade do taxista, mas podem esconder uma vida dura de 15 horas por dia a furar o caótico trânsito de Luanda porque sabem que, por cada quilómetro corrido, estão um quilómetro mais perto do sonho de serem donos do carro que conduzem.

Foto: Osmar Edgar

Que o diga Emerson José, que, ao fim de 11 anos passados quase ininterruptamente dentro de um táxi, primeiro como cobrador, depois como motorista, conseguiu comprar o seu carro e hoje, aos 29 anos, é patrão de si próprio e di-lo com o orgulho de quem deu corpo a um sonho antigo: "As horas de trabalho são as mesmas, mas agora passo a minha vida dentro do meu carro e não a trabalhar para outros".

Um dia, Kila 90, de 32 anos, os últimos seis passados a conduzir um táxi 12 horas por dia e quase sem descanso, também quer dizer o mesmo que Emerson José, quando puder sentar-se ao volante do seu táxi, porque é esse momento que vai justificar aguentar as permanentes dores nas costas, o stresse constante e as poeiras que a estrada lhe atira à cara no corre-corre com que vai desenhando o mapa que o conduzirá à condição de proprietário do seu táxi.

Pois será então o dia em que a frase, ou a "dica" que carrega nas traseiras do seu táxi, o famoso candongueiro, para os menos familiarizados com Luanda, fará sentido inteiro: "Aqui vocês perdem rede".

Frase que o próprio explica como sendo um aviso à navegação de que ali segue um motorista de táxi determinado a conseguir os seus objectivos, deixando quem vai atrás sem rede, sem rumo, sem saberem para que lado fica o Norte...

Kila 90, nome de guerra de Cláudio Raimundo, como quase todos os taxistas de Luanda, faz parte de uma "staff". A dele é a "De Pasta", onde estão também Voy Voado, Jack, Fumo no Ar, Pedro Tubeiro ou, entre outros, André Fumo, com quem o novo Jornal falou durante a hora do almoço, na rua G, no Bairro do Palanca, onde os membros usufruem de hora e meia para retemperar forças antes de regressarem aos asfalto... e por vezes aos atalhos poeirentos.

Como um "refrão" está para as canções, a afirmação das dificuldades ou o desejo de ver cumprido o seu objectivo de serem donos do seu próprio táxi, está para a vida destes homens, cuja profissão é tão dura que "só faz sentido se for para cumprir um sonho que se deseje muito", vinca Kila 90 em palavras bem medidas.

O fiel Hiace

O sonho de quase todos os taxistas que ainda não são patrões de si próprios tem um nome, chama-se Toyota Hiace, o carro preferido de quem passa a vida ao volante. Mas nem sempre é possível cumprir os sonhos por inteiro, como bem sabe Emerson José, que optou pelo que era possível... comprar um Foton, de fabrico chinês, muito mais em conta, muito menos fiável, garantindo muito menos tempo sobre a estrada.

Por dia, estes homens fazem entre 12 a 15 horas de trabalho e muitos admitem, como conta KIla?90, com consequências graves, sejam as dores de costas, "por vezes insuportáveis", os problemas nos pulmões "por causa da poluição e das poeiras" ou o risco de acidentes, lembra Jack, ou com consequências ainda mais graves "quando a isto tudo se junta a má alimentação", como sublinhou Voy Voado, todos do "Staff" De Pasta, que é como quem diz a equipa do kumbu, do dinheiro...

Muito trabalho, pouco kumbu

Para aqueles que ainda não conseguiram amealhar o suficiente para a compra de um carro, as 12 horas de trabalho, em média, diárias, permitem ao fim do dia contar como seu entre seis a oito mil kwanzas, porque o dinheiro do patrão tem de ser feito, cerca de 15 mil kwanzas, depois é preciso encher o depósito e só o que sobra é dividido pelo motorista e pelo cobrador.

É perante esta realidade que Kila 90, em tom de lamento, lembra que " todos desejam essa conquista, cumprir o sonho de ter carro próprio, mas poucos são aqueles que lá chegam".

Jack nota que nem sempre foi tão difícil, porque, até 2010, conseguir "essa conquista" era "menos custoso", tendo em conta que se podia importar carros com alguns anos, e não, como impõe a actual legislação, perante a qual as importações de veículos só são possíveis se estes tiverem até três anos, o que veio transformar quase numa impossibilidade "fazer verdade o sonho"?de conduzir um táxi próprio.

Por detrás da aventura diária e tumultuosa de conduzir um "candongueiro" pelas estradas de Luanda, quase sempre, como bem sabem Kila 90 e os seus "compagnons de route", perante a incompreensão dos restantes condutores, alheios à condição daqueles homens que furam o trânsito para, literalmente, furarem o caminho que os pode levar ao sonho de conduzirem o seu próprio carro, estão outras tantas vidas desfeitas pela doença e pelo stresse, bem como famílias, filhos e mulheres, que reclamam a sua "presença tantas vezes adiada".

As "dicas" nas palas explicam quase tudo

E é por isso, ou também por isso, que há quem deixe bem visível a "dica" na pala do carro que conduz onde avisa que "ignora todos os inchidores", que tanto podem ser aqueles colegas de profissão que têm a mania que são melhores que Bebo, um motorista da "staff" Red Cola, mas também aqueles que, dentro dos seus "carrões" se acham superiores a quem "bumba" 12 horas por dia sobre o escaldante asfalta da cidade de Luanda.

Nas traseiras dos candongueiros podem-se ler verdadeiras pérolas de humor, tiradas sarcásticas, avisos às outras "staff"s" apenas traduzidas por quem está no meio, ou afirmações com grande significado para quem segue ao volante.

Kila 90 optou por escrever na parte de trás da sua viatura "Aqui vocês perdem rede", que é como quem diz, face ao carro que conduz, "a concorrência fica à toa, sem rede, sem saber para que lado é o Norte".

"Tou a te confundir", outra das dicas mais comuns, nas suas múltiplas variações, encontradas nos candongueiros de Luanda, o sarcasmo sobressai e têm um destinatário mais óbvio, porque se dirige a quem se surpreende com o sucesso ou as conquistas de quem vai ao volante daquele táxi.

Mas há aqueles que optam por dar conselhos, como Adriano, que pergunta se "alguém duvida que faz mal beber sem comer", e di-lo nas traseiras do seu táxi: "tá bebe, tá come", com a pergunta em letras garrafais no pára-brisas "Tens Dúvida?".

Outras, porém, são manifestos do triunfo pessoal do taxista, manifestações de fé com agradecimentos a Deus ou a Cristo pelo que conseguiu alcançar, garantindo outros que "a inveja fica na paragem" ou ainda manifestações simples de alegria como esta, "Hoje estou feliz!".

"Nestas frases comunicamos o que sentimos ou consideramos importante. Há quem só escreva coisas para se divertir, quem envie recados às outras staff"s, ou que deixe avisos aos vizinhos. Os nossos táxis somos nós...", resume Jack, da "staff" De Pasta.

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