Morreu Antero Abreu, homem atento à vida política, cultural e cívica

Carlos FerreiraPublicado 19/03/2017 10:31:00

Um dos mais atentos participantes da vida política, cultural e cívica de Angola nos últimos 60 anos faleceu no dia 15 deste mês, em Viana do Castelo, Portugal. Antero Abreu, advogado, poeta, crítico de cinema, procurador-geral da República e embaixador.

Pouco menos de um mês depois de ter festejado os seus 90 anos, faleceu na madrugada de 15 de Março em Viana do Castelo, Antero Alberto Ervedosa de Abreu, mais conhecido por Antero Abreu, advogado de profissão, poeta, o 2.º Procurador- -Geral da República de Angola independente, sucedendo a Ernesto Teixeira da Silva, que, entretanto, abandonou o país. Antero Abreu nasceu em Luanda, a 22 de Fevereiro de 1927.

Fez os seus estudos primários e secundários em Luanda, tendo aqui concluído o liceu. Partiu em seguida para Portugal para estudar Direito, primeiro em Coimbra e posteriormente em Lisboa, onde terminou o curso.

Enquanto estudante em Lisboa foi dirigente da Casa dos Estudantes do Império (CEI), tornando-se um dos principais companheiros de Agostinho Neto.

Após a sua formação regressou ao país e exerceu advocacia em Luanda, tendo sido, durante o tempo colonial, um profuso activista no incremento associativo e cultural de Luanda, destacando-se particularmente a sua actividade no Departamento Cultural da Associação dos Naturais de Angola (ANANGOLA) e posteriormente na Sociedade Cultural de Angola, onde colaborou quer literariamente quer como crítico de cinema, área na qual se tornou também um observador atento e lúcido. Foi, aliás, um dos principais animadores do Cine-Clube de Luanda.

Publicou os seus primeiros poemas no Meridiano, boletim da Casa dos Estudantes do Império em Coimbra. Possui poemas e contos publicados em diversas revistas e páginas literárias, nomeadamente: Mensagem (CEI), Via Latina, Mensagem (ANANGOLA), Cultura II, ABC, A Província de Angola, Itinerário, Vértice, e outras mais.

Possui igualmente textos publicados em antologias, nomeadamente: Antologia Poética Angolana (1950), Poetas Angolanos (1959), Antologia Poética Angola na (1963), Mákua, III (1963), No Reino de Caliban, Antologia Panorâmica da Poesia Africana de Expressão Portuguesa, Poesia de Angola (1976) e Entre a Lua o Caos e o Silêncio, a Flor (2014).

Francisco Soares, que recorre a Manuel Ferreira na primeira referência que faz a Antero Abreu na obra Notícia da Literatura Angolana, define-o como "poeta da Permanência" num referencial ao mesmo tempo de intenção africanizante e sustentado numa imagética bíblica e indo-europeia", considerando-o depois um dos escritores mais ligados à mentalidade formadora dos autores da revista Mensagem. A sua lírica "revela um sentido do ritmo (rima) diferente do dos seus companheiros, bem como uma intensificação e uma variedade maiores no uso dos recursos retóricos e nas relações intertextuais que constrói".

Sobre os poemas escritos na época do liceu, este crítico diz que "eram os únicos a revelar uma amadurecida absorção do verso e da estrofe modernistas." Membro fundador da União dos Escritores Angolanos, onde exerceu as funções de presidente da Assembleia-Geral e da Direcção e também co-fundador da Academia Angolana de Letras.

A história de uma expulsão abortada

Um dos episódios singulares que marcou Antero Abreu foi uma proposta de expulsão do território de Angola por parte de Silvino Silvério Marques, sanção que o então governador-geral da colónia quis aplicar a três conhecidos integrantes da Sociedade Cultural de Angola. O próprio Antero Abreu, o jornalista Bobella-Mota e outro advogado, Eugénio Ferreira.

Em entrevista dada em 2006, uma das poucas que ficaram registadas, Antero Abreu conta este episódio inaudito: "[...] Depois de o Luandino Vieira ter sido premiado pela Associação Portuguesa de Escritores, e que deu em Portugal o "sururu" que se conhece, houve um jornalista angolano residente em Portugal que alertou para o facto de o livro do Luandino ter sido igualmente premiado em Luanda, mais propriamente com o Prémio Motta Veiga. A PIDE de Angola pôs-se imediatamente em campo, interrogou os membros do júri, a quem nada sucedeu, pois eram pessoas politicamente neutrais ou até bem vistas pelo regime, e veio a descobrir que o Luandino também fora premiado pela (Sociedade) Cultural. Do júri tinham feito parte o Dr. Eugénio Ferreira e eu.

A PIDE interrogou-nos

Interrogou também outras pessoas de outros júris que haviam premiado pessoas desafectas ao regime. E acabou por organizar um processo de expulsão de Angola contra Eugénio Ferreira, contra mim e contra o Bobella-Mota. Eu era acusado, segundo me foi dito, de ser contra Portugal, não sei com base em que factos.

A decisão de nos expulsar cabia ao governador-geral, ouvido o Conselho Económico e Social... Porém...

Chegado o dia da deliberação, o Dr. Aníbal de Oliveira, conhecido advogado que era, ou foi mais tarde, não me lembro, Presidente da União Nacional, o partido de Salazar/Caetano, levantou-se e fez um verdadeiro (e empolgante, como disse ao Dr. Eugénio o Dr. Penha Gonçalves, outro advogado e anterior Presidente da União Nacional) discurso contra a medida proposta, acabando o governador-geral, o Tenente-Coronel Silvino Silvério Marques, por determinar o que todos os vogais ansiavam, isto é, o voto secreto.

E a proposta da PIDE acabou chumbada. Em todo o caso, a PIDE notificou-me de que, caso continuasse nas minhas actividades, seria mesmo expulso [...]."

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