Petróleo: EUA insistem em retirar o tapete à OPEP e preço do barril desce

Novo JornalPublicado 20/03/2017 15:08:00

Depois de um esforço quase inédito, protagonizado pela Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) e pela Rússia, materializado no acordo para cortar a produção assinado em Novembro de 2016, os objectivos de manter o preço do barril acima dos 55 USD podem ir por água-abaixo devido à crescente produção nos Estados Unidos da América (EUA).

No momento em que o acordo OPEP+Rússia foi assinado, o barril de petróleo estava na parte debaixo da casa dos 40 USD, mas, assim que o compromisso de cortar 1,8 milhões de barris por dia (bpd) foi divulgado, disparou até aos 57 USD, começando a curva descendente nos últimos dia de Fevereiro deste ano.

E a razão para essa descida é desvitalização do impacto do corte de 1,8 milhões bpd deixava a produção mundial (na casa dos 98 milhões bpd) com um défice de 300 mil bpd, fazendo com que, nas primeiras semanas, as reservas acumuladas pelos EUA e China começassem a descer, impulsionando os preços, tanto do Brent, que serve de referência às exportações angolanas, como do WTI, para valores considerados bons pelos países exportadores.

Só que, como era esperado, os EUA, cujo perfil da sua economia e sociedade exige combustíveis baratos, não alinharam nesta vontade de levar o barril a aumentar, aproveitando esta alta do preço do barril para retomar em força a sua produção de petróleo de xisto, ou fracking, que consiste numa técnica altamente poluente e devastadora para o ambiente de injecção de água a altas pressões e a grande profundidade de forma a retirar gás natural e petróleo do interior da rocha através da sua dissolução.

Isto, porque o barril do fracking só é economicamente viável a partir dos 60 USD, tendo o aproximar desta barreira levado as empresas do sector, quase todas paradas ou em falência devido aos baixos preços de 2016, a retomar sofregamente a actividade, fazendo aumentar a produção mundial, diluindo o défice forjado pelo acordo OPEP+Rússia.

O impacto desta realidade não se fez esperar e os 55 dólares/barril que, por exemplo, a Presidente do Conselho de Administração da Sonangol, Isabel dos Santos, considerou, na passada semana, razoável, está agora a dar lugar ao perigo de a barreira dos 50 USD ser furada em queda (está a pouco mais de 51), o que vem trazer novas dificuldades aos países mais dependentes economicamente das exportações de crude.

O lado positivo, para a OPEP, é que a queda do preço do barril volta a fazer com que a exploração do fracking norte-americano seja de novo deficitária, pelo menos enquanto a tecnologia não evoluir, tornando a exploração menos custosa, facto que está a acontecer e pode ser verificado pelo registo cronológico dos custos do sector, que ainda há cerca de ano e meio estavam acima dos 120 USD/barril extraído.

Entretanto, o problema que chega dos EUA para a OPEP e para a Rússia não consiste apenas no crescimento do fracking. Segundo um relatório recente divulgado pela Bloomberg, também o número de plataformas no offshore norte-americano tem vindo a aumentar há 10 meses consecutivos.

Resposta da OPEP

Face a este cenário, a OPEP pode optar por manter os cortes por mais tempo que o esperado, senão mesmo reforçá-los, por forma a garantir que a produção média mundial não sobe para valores que provoquem nova derrocada no preço do barril.

Para já, este cenário vai ser analisado pelos países que assinaram o acordo de Novembro de 2016, nas próximas semanas, tendo o ministro dos Petróleos russo apontado para Abril ou Maio, esperando-se desta reunião uma decisão sobre a manutenção dos cortes ou se será definida uma nova estratégia.

Os analistas internacionais, citados pela imprensa especializada, olham com cuidado para o cenário actual e, aparentemente, só têm uma certeza: se a OPEP e a Rússia não optarem por prolongar o calendário dos cortes, isso será "muito negativo" para os países exportadores que enfrentam dificuldades económicas mais acentuadas, como é o caso da Nigéria, da Venezuela, e também de Angola e da Arábia Saudita, sem esquecer a própria Rússia.

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