Rússia sugere "guerra convencional" com EUA como tira-teimas na Síria

Novo JornalPublicado 10/04/2017 11:41:00

A embaixada russa em Londres admite, numa mensagem emitida via rede social Twitter, a deflagração de uma "guerra convencional" entre a Rússia e o eixo EUA/Reino Unido, tendo como palco a Síria.

Este tweet da representação diplomática de Moscovo em Londres não surge fora de contexto, porque, horas antes, o Kremlin já tinha avisado de que iria responder com a força militar que tem na região se os EUA voltassem a atacar os seus interesses na Síria.

Essa possibilidade surge, depois de o Presidente norte-americano ter ordenado um ataque aéreo a uma base militar síria, alegadamente como punição pelo ataque com armas químicas da semana passada, que matou dezenas de civis, realizado, segundo os EUA, pela força aérea síria.

A este aviso de Moscovo juntou-se de imediato o Irão, que atirou, para a fogueira em que o Médio Oriente se está a transformar, a sua própria determinação em punir as forças militares norte-americanas que voltarem a atacar na Síria.

Tudo porque Teerão e Moscovo não têm a mais pequena dúvida de que o ataque norte-americano com mísseis Tomahawk a uma base aérea síria constituiu um ataque a um Estado soberano e uma violação da lei internacional, mesmo que Trump tenha alegado tratar-se de uma legítima punição, imediatamente defendida pela Inglaterra, França, Alemanha e a generalidade dos aliados tradicionais dos EUA, do ataque com armas químicas, ainda por provar, ordenado pelo Presidente sírio, contra civis.

Em cima da mesa está uma espécie de guerra a lápis vermelho em cima do mapa da Síria, já ele muito rasurado por um guerra civil que dura há mais de seis anos, com a Rússia a dizer que os EUA passaram um perigosa linha vermelha, ao mesmo tempo que os EUA garantem que a sua reacção militar foi consequência do desrespeito da linha vermelha traçada pelo Direito internacional, devido ao uso de armas químicas, proibidas por todas as convenções internacionais.

Também escrito a vermelho está a garantia dos aliados do Presidente da Síria, a Rússia, o Irão e a milícia xiita Hezbollah, de que contra-atacam imediatamente se Washington voltar a trespassar a linha vermelha com outro ataque em solo sírio.

Para já, a Rússia e o Irão estão a reforçar de forma muito significativa o arsenal bélico de Damasco, especialmente com os famosos e modernos S-400, uns mísseis terra-ar que os russos garantem que podem repelir quaisquer ataques norte-americanos, mas que ainda não tiveram um teste decisivo em cenário de guerra, que seja conhecido, embora seja conhecida a sua capacidade de dissuasão.

Perante isto, os EUA, através da sua embaixadora na ONU, Nikki Haley, já deixaram claro que podem voltar a atacar se se revelar necessário, e deu início a um processo concertado com os seus aliados europeus, de acusação à Rússia de ser responsável pela manutenção do ditador Bashar Al-Assad no poder, reafirmando que a sua saída é a única forma de resolver o problema da Síria.

"Não vemos que seja possível uma Síria em paz com Assad no poder", sublinhou Haley, ao mesmo tempo que o ministro da Defesa britânico, Michael Fallon, defendeu que o ataque com armas químicas - embora ainda não tenham sido concluídos os inquéritos para apurar as circunstâncias em que ocorreram e a Rússia e Assad a desmentem categoricamente - foi "culpa" dos russos.

"A Rússia é responsável, por procuração, por todas as mortes civis da semana passada", disse Fallon, num artigo publicado no The Guardian.

Neste crescendo de ameaças, como se pode perceber pela imprensa internacional de hoje, o risco de uma guerra directa entre Moscovo e Washington, mesmo que circunscrita a armas convencionais, nunca foi tão evidente desde o fim da guerra fria, com o colapso da União Soviética, no início da década de 1990.

Dado como certo é que, do ponto de vista geoestratégico, a Rússia não pode abrir mão da Síria, porque tem neste país algumas das suas bases, marítimas, especialmente, mais importantes de todo o Médio Oriente, porque é o único caminho aberto das suas frotas para o Mediterrâneo.

E o Irão, a grande potência militar da região, tem na Síria uma importante extensão da sua influência, tendo em conta a origem xiita da população do país, essencial para o equilíbrio regional onde o universo sunita, liderado pela Arábia Saudita, tem mostrado interesse em derrubar Assad e fragilizar Teerão.

Pelo meio, todos ralham mas ninguém sabe quem tem razão no que diz respeito à guerra que o mundo trava com o jihadista estado islâmico, ou Daesh, que encontrou no conflito sírio a sua maior bonança, tendo mesmo criado em Rakka, cidade no norte do país, a capital para o seu Califado.

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