Cinco gémeos angolanos nascidos há 15 anos foram caso único no Hospital de São João, em Portugal

LusaPublicado 16/04/2017 12:30:00

O nascimento de cinco gémeos de um casal angolano no Hospital de São João, no Porto, Portugal, há 15 anos, foi "caso único" naquela unidade e ainda hoje é recordado pelos profissionais com "todos os detalhes", revelou o director do serviço de Obstetrícia.

Em declarações à Lusa, Nuno Montenegro assegura que o hospital "ficou completamente mobilizado" com o parto de Chimene, a jovem angolana de 24 anos que ali entrou com 23 semanas de gravidez e a perspectiva de um parto pré-termo de quatro filhos, acabando por dar à luz cinco crianças, "seis semanas depois".

Montenegro, que em 2002 já era o responsável do serviço de Ginecologia e Obstetrícia do hospital de São João, lembra que, mesmo antes de se descobrir a quinta criança, sempre "escondida" nas ecografias, foi preciso mobilizar uma equipa de cerca de 15 pessoas para a cesariana de urgência realizada a 17 de Abril, quando o parto se "precipitou" devido à ruptura de membranas da grávida.

"No momento do nascimento de bebés prematuros, é preciso de tratar de toda a logística de apoio imediato. Foi preciso recrutar quatro neonatologistas pediátricos, quatro enfermeiras para os apoiar e todo o equipamento necessário para suporte de vida imediato", descreve o profissional.

De acordo com Nuno Montenegro, foram ainda destacados três obstetras e dois anestesistas, para além de vários "assistentes operacionais".

O surgimento de um quinto gémeo, inesperado tanto para a família como para a equipa médica, não se revelou complicado.

"Resolveu-se. A logística foi montada para receber quatro bebés pré-termo. São precisos equipamentos e pessoal proporcional ao número de gémeos. Mas não foi por haver um quinto que teve menos assistência", afiança o director do serviço.

Garantir cinco vagas nos cuidados intensivos neonatais do "São João" para os cinco gémeos, com pesos entre 990 e 1.500 gramas, é que foi impossível, pelo que uma das crianças foi transferida para Santa Maria da Feira e outra para Vila Nova de Gaia.

"Mesmo em circunstâncias planeadas, seria impensável ter cinco vagas disponíveis nos cuidados intensivos neonatais", afirma Montenegro.

Para o director, o sucesso deste caso deveu-se ao facto de ter chegado às 29 semanas (cerca de sete meses) a gravidez de Chimene, de nacionalidade angolana, casada com Márcio Oliveira, luso-angolano, ambos actualmente estabelecidos em Luanda e com seis filhos (o casal teve outro filho há quatro anos).

"Ainda hoje, às 23 semanas de gravidez, a viabilidade de cinco gémeos estaria muito comprometida. A sobrevida sem sequelas, sem danos, seria quase impossível às 23 semanas. Com 29 semanas, as coisas, mesmo à época, seriam uma garantia mínima para que as coisas corressem de melhor maneira", explica.

Segundo Montenegro, este foi o "segundo caso de cinco gémeos" a nascer em território nacional num período de 35 anos.

Entretanto, não voltou a acontecer em território nacional um parto com tantos nascimentos.

O médico explica que, não sendo impossíveis, as gravidezes com tão elevado número de gémeos são "mais comuns" nos casos em que existem "tratamentos de fertilidade, designadamente a indução da ovulação", que há 15 anos "era pouco controlada".

"Era muito mais provável que uma gravidez com este número de gémeos acontecesse devido a uma indução de ovulação, designadamente", observa, alertando que a família angolana sempre assegurou não ter recorrido a qualquer tratamento de fertilidade.

"Há que prever a possibilidade de uma gravidez com tão elevado número de gémeos ocorrer de modo espontâneo", destaca.

Quanto à indução da ovulação, o médico diz que actualmente existe "uma regulação muito estrita", pelo que "não é esperado que se volte a viver uma situação idêntica".

Nuno Montenegro não assistiu ao parto mas recebeu Chimene quando ela deu entrada no "S. João", às 23 semanas de gravidez, transferida do hospital de Braga.

"Recebi-os, com outro colega que já cá não está e lembro-me de confirmar na ecografia que eram quatro. Não se via o quinto. Ver quatro, no segundo trimestre da gravidez, já é um sucesso. Lembro-me de ver 12 embriões, mas num início de gravidez. Mais tarde ficam maiores e escondem-se uns atrás dos outros", relata.

Nuno Montenegro recorda que a família visitou o hospital de São João "há sete anos, quando os gémeos tinham nove anos".

"Agora fazem 15 anos. Para cinco gémeos numa mesma gravidez é um sucesso absoluto", conclui.

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