Os Papéis de Marcelino dos Santos: A nossa História

Editorial Novo JornalPublicado 21/04/2017 12:51:00

Mão amiga e confiável trouxe-nos, acompanhada de imagens, uma notícia demasiado surrealista e inacreditável para a aceitarmos de ânimo leve e à primeira leitura. Meia dúzia de fotografias acompanhavam a situação do espólio de um dos mais importantes dirigentes de toda a História da luta de libertação dos actuais PALOP, Marcelino dos Santos: no lixo. Fonte próxima deste co-fundador da FRELIMO, membro proeminente do Movimento Anticolonial e companheiro de Agostinho Neto, Eduardo Mondlane, Lúcio Lara e Amílcar Cabral, entre outros, em comentário privado a propósito deste acto de uma gravidade sem limites, afirma: "Não foi ignorância. É maldade, pura e simples...".

Foto: DR

Sabemos que não é o primeiro caso em que alguns dos herdeiros de figuras desta dimensão política e moral que devem ser protegidas, apoiadas e acarinhadas, sobretudo na fase outonal da vida, das duas uma: ou tiram proveito dos feitos de seus Pais e de suas Mães e passam viver à custa do heroísmo destes, ou votam o mais profundo desprezo a uma obra cujo legado ultrapassa as fronteiras do seu próprio país.

Sabemos que a República irmã de Moçambique vive problemas graves, que não permitem a possibilidade de dar resposta ao imenso manancial de problemas que enfrenta. Mas também temos conhecimento de que, para além de estarem em vida alguns dos mais importantes dirigentes da FRELIMO, a maioria já do período pós-independência, pelo menos aqueles cuja posição política, ética, moral e cívica não mudou, uma figura da importância de Marcelino dos Santos é uma questão nacional. Nem sequer pode ser reduzida a uma gestão meramente partidária.

Não é crível que não se saiba em Moçambique o que, pela segunda vez, segundo a fonte que nos fez chegar esta notícia dramática, é feito com o património de Kalungano, um dos primeiros poetas a reivindicar a sua condição de moçambicano. Da primeira vez foram caixas com documentos, livros, etc. Desta segunda, vê-se claramente que estão deitados ao lixo, no meio da rua.

Esta atitude, condenável ainda que se tratasse de um cidadão comum, é tanto mais grave quando diz respeito a uma figura que merece da parte de todos os que participaram nas lutas de libertação e dos que delas beneficiaram o mais vivo protesto, o mais sério repúdio e uma chamada de atenção pública.

Na tentativa de ajudar a impedir a destruição de um património que, com orgulho o escrevemos, não pertence apenas a Moçambique, mas também à Guiné-Bissau, a Cabo Verde, a São Tomé e Príncipe e a Angola.

Ainda nos passou pela cabeça que se pudesse tratar de mais um daqueles sensacionalismos inventados doentiamente, por gente que se diverte a fazer mal aos outros e a prejudicar os que estão à sua volta. Nada disso. A confirmação veio, dura e sentida, triste e lamentável.

Queremos crer que os companheiros do Camarada Marcelino dos Santos, alguns dos seus herdeiros e a própria Presidência da República de Moçambique, para não falar da FRELIMO, podem agir com a urgência possível, forçando o termo imediato de uma atitude que não tem outra qualificação que não seja a de criminosa.

Independentemente de quem esteja na sua origem, deve ser, tem de ser responsabilizado criminalmente; e, em simultâneo, deve-se procurar salvar até ao limite do possível este acervo que é fundamental, repetimos, não apenas para Moçambique, mas também para todos os antigos integrantes da CONCP.

Acreditamos que, pondo de imediato termo a um crime desta natureza, de lesa-pátria, mas também e muito provavelmente de lesa-família, ainda será possível salvar-se algum do património do Mais-Velho Marcelino dos Santos, não deixando que desapareça uma parte essencial da História dos nossos irmãos moçambicanos. Que é também parte essencial da nossa História.

Fundamentado por razões da mais absurda maldade, se calhar, quem sabe, de algum desequilíbrio que só o domínio psiquiátrico poderá explicar, é preciso espalhar a notícia e ajudar a que seja de imediato impedido o prosseguimento desta acção. Acreditamos, em último caso, que Angola estará na disposição de se oferecer, através de algumas das associações já existentes entre nós, para tomar conta desse património e dar-lhe o tratamento e o destino devidos: a salvaguarda da memória individual e colectiva de todos quantos deram as suas vidas para que hoje pudéssemos ser independentes. Sem esta memória, não seremos nunca países nem livres nem soberanos.

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