Com duas pistolas apontadas à cabeça, pastor evangélico recebe um pedido muito estranho

Ricardo BordaloPublicado 25/04/2017 9:16:00

Mal sabia o pastor António Godinho Ducado que naquele dia iria receber o mais estranho pedido em 17 anos de vida religiosa. Mas podiam ser 50, porque dificilmente um pastor ouve um pedido destes. Estava a ser assaltado e tinha duas pistolas apontadas à cabeça quando ouviu o que jamais ousou admitir ser possível ouvir.

Foto: Adjali Paulo

"Seja o que Deus quiser!", pensou, mas não disse nada... receava claramente pela vida. Três indivíduos estavam-lhe a roubar o carro e, crê, prontos para o matar à mais pequena resistência... Ficou em silêncio e à espera que a sorte ou um milagre o viesse livrar daquele mal.

Mas não foi preciso esperar muito. Os gatunos viram a sua Bíblia, e um deles perguntou: "És pastor?" Respondeu que "sim", e foi então que ouviu "o mais estranho dos pedidos em 17 anos a pregar a palavra do Senhor".

Ao contrário de muitas histórias de assaltos que diariamente ocorrem em Luanda, esta tem um final quase feliz, porque, no fim de contas e de preces, o pastor Toni, como é conhecido na sua igreja, a Assembleia dos Santos, saiu ileso daquela situação.

O carro, um pequeno utilitário, é que nunca chegou a ser recuperado, embora os gatunos tivessem jurado que o iria encontrar, mais cedo ou mais tarde, abandonado num dos bairros da cidade.

"A verdade é que estou vivo e poderia estar morto!", exclama o pastor Toni, de 46 anos, também militar - é sargento do Exército - enquanto narra ao Novo Jornal online o momento que parece tirado de um conto fantástico, cujo enredo passa por um misto de religiosidade e fé", mas "também pela maldade que corrói os homens".

Quando já estava convencido que o seu momento tinha chegado, que poderia morrer ali, o pastor Toni, mesmo com a condição de militar a ajudá-lo a manter algum sangue frio, foi surpreendido quando um dos três assaltantes, depois destes já terem a informação de que se tratava de um religioso lhe disse: "Vamos-te deixar viver... mas tens de rezar por nós, para que o que estamos a fazer corra bem!".

Instintivamente disse que sim, que rezaria por eles, mas, conta, "nunca lhes disse que iria rezar para que tivessem sucesso nos assaltos que andavam a fazer".

"Disse-lhes que oraria por eles, porque - justifica - a misericórdia de Deus também é para os pecadores e estes estão sempre a tempo de atalhar o caminho... e sim, orei para que eles mudassem de vida", relata, sublinhando que não poderia nunca interceder junto do Criador para que quem anda a roubar, e, se calhar, a matar, tenha sucesso nessa tarefa "que ofende tanto a palavra de Cristo".

Com isto, diz satisfeito, "apesar do susto", que, mesmo sendo também militar, não deixa de estar presente quando se tem duas armas apontadas: "Mantive a vida!". O final só não é completamente feliz porque o carro e os seus bens, passadas quase duas semanas, se esfumaram sabe-se lá para onde.

O princípio

Tudo começou na tarde do dia 13 deste mês, quando saia da escola - frequenta um curso de Tecnologia e Electricidade no Instituto Médio Técnico 17 de Dezembro - e se preparava para ir à sua igreja e deu com três indivíduos, no Rocha Pinto, zona da Cabine, que lhe pediram ajuda porque tinham alguém para levar ao hospital.

Foi já dentro do carro que, sob ameaça de duas pistolas, o obrigaram a ir para uma área menos frequentada de Talatona, onde se preparavam para, disso está convencido o pastor António Ducado, o matar e levar o carro.

Até que um dos assaltantes reparou na Bíblia, que reforçou a sua condição de pastor indiciada pelos cânticos religiosos que tinha no leitor de CD"s, e lhe fez a tal pergunta que o pode ter salvo: "És pastor?". Respondeu: "Sim".

É, provavelmente, por ter dito a verdade, que o Novo Jornal online pode contar agora esta história, onde um pastor ouve gatunos a pedirem que reze por eles, para que os seus assaltos corram bem, a troco da sua vida...

O religioso, confessa, não estava preparado para ouvir um pedido deste teor, "mesmo estranho", mas dá "graças a Deus" pelo desfecho que teve, e lembra os sete filhos que tem, para acrescentar o contentamento por "esta graça" de ainda estar vivo.

Como cidadão, dirigiu-se à polícia para fazer queixa do roubo do seu carro e outros bens, sabe que com muita frequência há pessoas que, em situação semelhante à sua, são mortas, admite que tem receio de lhe poder voltar a acontecer, "porque, por vezes, Luanda parece um combate diário", mas garante que vai manter a sua rotina, porque é um profissional, sabe que precisa do curso que frequenta e, "sem dúvida", que na sua igreja há muita gente que precisa de si para serem guiados nas orações.

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