A verruga...a confusão instalada nas pessoas sobre o passado recente de Angola

Fernando Pereira*Publicado 02/05/2017 17:13:00

Confesso que fico perplexo quando vejo que no Município do Cazenga continua a existir um bairro com o nome de Adriano Moreira, e por exemplo que o nome do insigne botânico Luís Carriço tenha sido suprimido da toponímia luandense, entre outros casos.

Foto: Ampe Rogério/Foto de Arquivo

Este é apenas um dos exemplos da confusão instalada nas pessoas sobre o passado recente do território de Angola, e a sua transição para a independência naquele sempre lembrado 11 de Novembro de 1975.

Luís Carriço fez parte da 1.ª missão botânica enviada a Angola. Era professor na faculdade de ciências da Universidade de Coimbra e diretor do Jardim Botânico da cidade. Deixou uma vasta obra no seu ramo, fruto de uma recolha feita em todo o território de Angola, abruptamente interrompida pela sua morte ocorrida em 1937 no deserto do Namibe, onde foi sepultado.

Se alguém quiser explicar quem foi Adriano Moreira a um morador do bairro, teremos que dizer que foi Ministro do Ultramar de Salazar de 1961 a 1963, depois de ter sido subsecretário de estado da administração ultramarina em 1959.

Neste percurso "ultramarino" de Adriano Moreira avulta ter sido o diretor do ISCPU (Instituto de Ciências Sociais e Política Ultramarina) uma das duas escolas de formação de pessoal administrativo da administração colonial portuguesa (a outra era a escola colonial em Goa).

Formava, entre outros, administradores, chefes de posto, secretários, intendentes, etc. Foi um dos responsáveis diretos pela introdução institucional, nos anos 1950, da denominada "Lusotropicalogia", conhecida depois como "luso-tropicalismo", que teve no brasileiro Gilberto Freire o seu patrono.

A "Casa grande e senzala", "O Mundo que o Português Criou", "O Luso e o Trópico" são as cartilhas de uma defesa de Portugal como "primeira civilização moderna nos trópicos". Toda a estrutura ideológica do jovem Adriano Moreira assentava na premissa de um Portugal portador da civilização e da ordem em todo o território, defendendo que os "indígenas" teriam que trabalhar segundo regras evolutivas de um "ato colonial" reformista.

Foi este senhor que reabriu o Campo do Tarrafal em Abril de 1961, inicialmente como campo de detenção dos angolanos condenados no "processo 50" e depois alargado a nacionalista de todas as colónias, tendo fechado com a revolução do 25 de Abril de 1974 em Portugal.

Apesar de refutar essa acusação, Adriano Moreira não se consegue livrar do labéu de ter promovido a organização da PIDE em Angola. Reconheço ao Dr.º Adriano Moreira uma grande sagacidade política e uma rara inteligência, mas não deixa de ser intrigante o seu tortuoso trajeto político que lhe tem permitido guindar-se a uma figura "reverente" na democracia portuguesa, depois de ter sido um dos putativos delfins do ditador Salazar. Assume-se como o criador dos "Estudos Gerais Universitários" em Angola e Moçambique, embrião das universidades de Angola e Moçambique. Provavelmente a criação destas escolas superiores terão criado uma das situações mais rocambolescas dos anos do estertor do salazarismo em Portugal. Por ironia do destino, Salazar ordena a Adriano Moreira, no âmbito da sua competência enquanto ministro do Ultramar, que nomeie o general Venâncio Deslandes como 117.º governador-geral de Angola (Junho de 1961), cargo que ocupa em simultâneo com o de Comandante-Chefe das Forças Armadas na "província".

*O autor escreve segundo o Novo Acordo Ortográfico

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