Itália deixou morrer centenas de pessoas em naufrágio no Mediterrâneo

Novo JornalPublicado 10/05/2017 15:59:00

No dia 11 de Outubro de 2013, a partir de um barco algures no Mar Mediterrâneo, com 300 pessoas a bordo, todos sírios que procuravam chegar à Europa para fugirem da guerra, um médico ligou a pedir ajuda às autoridades italianas porque a embarcação estava prestes a afundar... esse auxílio foi negado e morreram 268 pessoas porque em Itália alguém achou que não era importante socorrê-los.

Este naufrágio foi noticiado em todo o mundo, como tantos outros que nos últimos anos ceifaram milhares de vidas no Mediterrâneo, incluindo 60 crianças entre os 268 mortos dos 300 que seguiam a bordo deste barco, mas só agora, com a divulgação de conversas telefónicas, foi possível saber que aquelas mortes podiam ter sido evitadas se o socorro fosse prestado, como impõem as convenções internacionais e manda a decência.

Só que, quando a operadora do centro de operações da guarda-costeira recebeu a chamada feita a partir do barco que se estava a afundar, por um médico, audivelmente aflito mas a informar de forma clara que as pessoas iriam morrer se não fossem socorridas, a resposta que deu foi para que fossem contactadas as autoridades de Malta, apesar de um navio da marinha italiana estar a escassas 20 milhas do local e a ilha italiana de Lampedusa estar muito mais próxima que a costa de Malta.

As gravações foram agora divulgadas pelo jornal italiano L"Espresso, revelando a forma como as autoridades italianas, de forma deliberada, deixaram morrer centenas de pessoas no Mediterrâneo, depois de terem sido alertadas pelo médico sírio Mohamad Jammo, que, quase a ficar sem saldo no seu telefone, pediu à operadora do centro de socorro italiano para lhe ligar de volta, o que não foi feito...

Estas gravações mostram ainda que o médico foi impelido a contactar Malta, alegadamente porque estava mais perto, quando, na verdade, Itália estava bastante mais próxima, a costa de Malta estava a 118 milhas (218 km"s) e a Italiana a apenas 61 milhas náuticas (112 km"s).

O que a operadora do centro de socorro da guarda-costeira italiana ouviu pelo telefone foi um lancinante pedido de ajuda, onde o médico Mohamad Jammo, com a calma possível, dizia que o barco estava a meter água, que a ajuda era muito urgente e que as mais de 300 pessoas, soube-se depois que eram quase 500, iriam morrer se nada fosse feito, fazendo juras atrás de juras de que dizia a verdade, ao mesmo tempo que perguntava à mulher que com ele falava se estava a entender, respondendo esta que sim, mas que devia contactar Malta.

A operadora chegou ainda a pedir as coordenadas da localização do barco pesqueiro sobrelotado e a naufragar mas, denotando que a ausência de socorro foi deliberada, nada foi feito.

Este barco era proveniente da Líbia e dirigia-se à ilha italiana de Lampedusa, trajecto feito já por muitas dezenas de milhares de pessoas e onde, nos últimos anos, morreram milhares afogadas.

Apesar de as normas internacionais terem marcada a zona onde estava a embarcação como estando sob responsabilidade de Malta, a Lei Marítima Internacional determina que a obrigação de prestação de auxílio recai sobre o país que tiver meios mais próximos do local o que, sabendo-se hoje que estava um navio italiano a menos de 20 milhas, essa mesma responsabilidade transitava para as autoridades italianas, facto que era do conhecimento da operadora do centro de socorro da guarda-costeira.

O caso está entregue à justiça italiana, que investiga desde 2014 esta situação, depois de a Amnistia Internacional ter levantado dúvidas sobre a forma como a Itália lidou com este naufrágio, que foi um dos mais graves ocorridos em últimos anos no Mediterrâneo-

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