Dois angolanos no primeiro leilão de arte contemporânea africana da Sotheby"s em Londres

LusaPublicado 15/05/2017 11:32:00

Dois artistas angolanos, António Ole (na foto) e Francisco Vidal, têm obras incluídas no primeiro leilão dedicado exclusivamente a Arte Moderna e Contemporânea Africana a realizar na Sotheby's, em Londres, na terça-feira.

Ao todo, vão a leilão 115 obras de arte de mais de 60 artistas de 14 países, incluindo, além de Angola, Argélia, Benin, Gana, Costa do Marfim, Mali, Nigéria, Senegal, Etiópia, Uganda, Camarões, República Democrática do Congo, África do Sul e Zimbabué.

"A Sotheby's tem observado este mercado crescer há vários anos e decidiu que esta era a altura certa para entrar no mercado. Temos registado um aumento enorme de clientes do continente [Africano], bem como de coleccionadores do resto do mundo, que estão muito interessados em coleccionar arte africana", afirmou a directora de Departamento da Sotehby's, Hannah O'Leary, à agência Lusa.

Francisco Vidal tem duas obras no catálogo, "Icarus Chocolate", de 2013, com um preço estimado entre 15.000 e 20.000 libras (de 17.300 a 23.100 euros), e "Bye bye NYC, Hello LD; Bye bye LD, Hello NYC", de 2014, estimado entre 15.000 e 20.000 libras (11.600/17.300 euros).

O leilão inclui três lotes com obras de António Ole: "Memória", de 2016, com um preço estimado entre 16.000 e 20.000 libras (18.500 a 23.100 euros), "Sem título", de 1996, avaliado entre 4.000 e 6.000 libras (4.650 e 7.000 euros), e "Espírito Caluanda", de 2015, com estimativa entre 12.000 e 18.000 libras (13.900 e 20.800 euros).

"Tem existido um interesse enorme em arte angolana de fora de Angola e isso reflecte a força do panorama artístico e do talento fenomenal em Angola", justificou a especialista.

António Ole, nascido em Luanda em 1951, tem um repertório de trabalho constituído por fotografia, pintura, instalações de larga escala e documentários, tendo estudado nos Estados Unidos, antes de se instalar de novo na capital angolana.

"É provavelmente o mais conhecido dos artistas angolanos e está no topo da carreira. Ele tem muitos admiradores internacionais. Nós tivemos três trabalhos dele no leilão da colecção de David Bowie antes do Natal, que bateram recordes e que tiveram licitações muito boas", disse Hannah O'Leary.

No ano passado, a Fundação Calouste Gulbenkian - Colecção Moderna dedicou-lhe uma retrospectiva, "Luanda, Los Angeles, Lisboa", que esteve patente de Setembro a Janeiro deste ano.

Francisco Vidal, nascido em Lisboa, em 1978, de ascendência cabo-verdiana e angolana, vive e trabalha entre o Porto e Luanda, e é conhecido por criar instalações de pinturas ou serigrafias de larga escala, em cores ousadas, e por usar catanas como suporte nas suas pinturas, em vez de telas.

A responsável da Sotheby's afirma que este artista ganhou admiradores na Europa, nos últimos anos, através das exposições que fez em Londres.

"Penso que [os quadros em leilão] vão chamar a atenção dos coleccionadores de arte contemporânea, têm uma estética muito contemporânea. Ele passou tempo em Portugal, mas também em Nova Iorque, por isso imagino que vamos receber interesse de coleccionadores norte-americanos no seu trabalho", adiantou.

Francisco Vidal formou-se pela Columbia University School of the Arts em Nova Iorque, onde também fez o mestrado em arte.

Vidal esteve na representação angolana da Bienal de Arte de Veneza de 2015, e foi um dos finalistas dos Prémios EDP - Novos Artistas, em 2005. Expôs na Galeria 111, em Lisboa (2006), e participou nas mostras colectivas "Republic", na Fundação Calouste Gulbenkian, em 2011, e "Povo", Fundação EDP, em 2010. É um dos dez artistas incluídos na serie "Geração 25 de Abril", de Abílio Leitão e Alexandre Melo.

Segundo a Sotheby's, apesar de um grande progresso nos últimos anos, os artistas africanos representam apenas 0,01% do mercado internacional de arte.

A leiloeira britânica, porém, garante que houve um aumento exponencial de coleccionadores em África e da diáspora africana, assim como de coleccionadores de arte internacionais interessados em arte africana, e que esta tendência tem potencial para continuar a crescer nos próximos anos.

Além de obras de arte de artistas já reconhecidos, como o ganês El Anatsui ou a sul-africana Irma Stern, cujas peças já alcançaram preços superiores a um milhão de dólares, estão presentes, neste leilão, trabalhos de outros menos conhecidos ou que nunca foram licitados.

"Todos os artistas que estão representados aqui já têm renome internacional. Alguns já tiveram obras em leilão e isso é algo que as leiloeiros normalmente procuram - um historial de venda por preços elevados. Mas mais de metade dos artistas nunca teve trabalhos em leilões, por isso olhámos para outros factores, como exposições em museus internacionais, bienais ou uma grande reputação nos seus próprios países", explicou Hannah O'Leary.

O leilão realiza-se no dia 16 de Maio e, no total, a Sotheby's espera alcançar entre 2,8 milhões e 04 milhões de libras (entre 3.2 milhões e 4,6 milhões de euros) de receita.

As estimativas de valor para as obras variam entre as mil libras (cerca de 1.152 euros) e 850 mil libras (980 mil euros).

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