Uma oposição em ideias - Opinião de Ismael Mateus

Ismael MateusPublicado 15/05/2017 16:42:00

A abertura antecipada da pré-campanha representou, todos percebemos naquela altura, um desafio à criatividade e ao nível de combatividade dos partidos da oposição, sobretudo à UNITA. Uma campanha tão longa exigiria dos partidos políticos capacidade de realização. Iniciativas e uma estratégia muito bem definida, que fosse capaz de encurralar o MPLA nos seus próprios problemas de gestão. Aliás, o mote da campanha do MPLA "Corrigir o que está mal e melhorar o que está bem" é revelador daquilo que qualquer analista básico esperaria que fosse a linha discursiva da pré-campanha e campanha.

À excepção da jogada de antecipação, tudo o que está a acontecer nesta pré-campanha (favorecimento da comunicação social pública e privada, envolvimento da administração pública, maioria parlamentar na CNE) é um déjà vu de 2012 e anteriores, e portanto, por mais que as coisas sejam criticáveis, os partidos da oposição não podem fazer-se de inocentes quando deveriam ter encontrado antídotos para os problemas. Esta desatenção pode ser reveladora do nível de impreparação dos nossos partidos políticos para o combate eleitoral com o MPLA ou do grande equívoco estratégico em que estão envolvidos. Ao invés de uma rigorosa preparação, estudo dos processos anteriores e identificação dos pontos de estrangulamento como a cobertura jornalística, instrumentalização das autoridades tradicionais, empresários e do investimento público, os partidos políticos embeveceram-se com as vozes que gritavam por mudança e desataram a cantar vitória antes do tempo. Ao invés de um combate político sério atacando as fragilidades da governação, optaram por cantar vitória antes do tempo e usar a fraude como argumento.

O discurso da fraude tem sempre essencialmente duas componentes: por um lado, a visão desculpabilizante que procura explicar uma eventual derrota eleitoral com a existência de forças do mal e acção do inimigo político comum, o MPLA; e, por outro lado, a componente da ameaça e da intimidação em que antes era usada a força das armas e agora a pressão internacional como elementos de negociação.

Dada a composição e o estilo de diálogo praticado no nosso parlamento, o caminho da pressão internacional é absolutamente legítimo, sendo, por isso, compreensível que a UNITA e a oposição no geral usem a bandeira da fraude e a pressão política e diplomática daí decorrente para conseguir posições negociais vantajosas, visto que a maioria sempre resistiu a buscar consensos. É o lado mais positivo, por ventura mesmo o único, já que "força" a negociação e a busca de consensos, em detrimento da "ditadura da maioria" que aprofunda as desconfianças.

Na vertente desculpabilizante, o discurso da fraude serve de factor aglutinador. Permite divisar e cerrar fileiras à volta de um inimigo comum e, ao mesmo tempo, preparar os militantes para a eventualidade da derrota. "Vamos ganhar e só a fraude já em marcha nos impedirá de ganhar". Esta é a essência da mensagem política que se transmite. (...)

(Pode encontrar a crónica de Ismael Mateus "Democracia e Cidadania" em versão integral na edição semanal nº 482, ou em digital, cuja assinatura pode pagar no Multicaixa)

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