RDC: As eleições por fazer, os refugiados em Angola e a fortuna de Kabila

RBPublicado 15/06/2017 11:23:00

A família Kabila governa a RD Congo há duas décadas, de 1997 até hoje, primeiro pela mão de Laurent-Désiré e depois com as duas mãos de Joseph, erguendo no meio um império empresarial de centenas de milhões de dólares que pode desmoronar-se após as eleições que vão ditar o fim da linhagem familiar no poder e estão marcadas para este ano. Até onde está disposto a ir o ainda Presidente para manter as rédeas do Estado congolês?

A mortífera crise eleitoral na República Democrática do Congo (RDC) começou em Janeiro de 2015, prolongou-se para finais de 2016 e alastrou para Angola através dos milhares de refugiados que buscam na Lunda Norte um porto seguro para a incompreensível tempestade de fogo e morte que varre o vizinho Kasai, ao mesmo tempo que surgem rajadas de suspeitas de que por detrás de tudo, pode estar a vontade do Presidente Kabila em manter o poder custe o que custar.

Em meados de 2016, quando ainda estava longe a vaga de refugiados da província congolesa do Kasai em direcção à Lunda Norte, a agência de notícias Bloomberg publicou um texto onde traça o mapa dos negócios e da graúda fortuna amealhada pela família Kabila na RDC nas últimas duas décadas, primeiro através de Laurent-Désire Kabila, entre 1997 - quando afastou Mobutu Sese Seko - e 2000, e depois, já com o seu filho, Joseph Kabila no poder, entre 2001 e 2017.

A agência, numa síntese da sua exaustiva investigação, escrevia que a família Kabila, "construiu uma intensa e extensa rede de negócios que chega a todos os cantos da economia do país" que proporcionou à família "arrecadar centenas de milhões de dólares", apontando este império, e o perigo de se desmoronar caso Joseph saia do poder, como uma razão de primeira linha para todas as manobras que visam adiar e impedir a realização de eleições na RDC.

Este cenário e as suspeitas entretanto divulgadas, como já fizeram organizações internacionais, da ONU à União Europeia, ou figuras públicas, como o empresário com interesses em Angola Sindika Dokolo, têm alicerces bastante sólidos, a começar, desde logo quando em Janeiro de 2015, a Maioria Presidencial (MP) de Kabila tornou público que estava a preparar uma revisão constitucional para permitir a Joseph uma terceira candidatura em Novembro de 2016.

Esta pretensão foi violentamente derrubada nas ruas, com manifestações que resultaram em confrontos com as forças de segurança nos quais se somaram várias dezenas de mortos; depois, em Setembro de 2016, quando Kabila, justificando com atrasos no registo eleitoral, anunciou a intenção de adiar as eleições, com novo saldo de mais de meia centena de mortos e, por fim, em Dezembro, quando Kabila não saiu do poder no último dia do seu último mandato constitucionalmente permitido, com mais de 50 mortos nas ruas de Kinshasa.

Um acordo de última hora, envolvendo os bispos católicos, assinado a 31 de Dezembro em Kinshasa, permitiu acalmar as coisas, tendo, para isso, contribuído igualmente a morte em Bruxelas do líder histórico da oposição congolesa, Etienne Tshisekedi, mas com a paz pendurada numa única condição: a realização de eleições ainda em 2017 e a garantia de Kabila de que deixa a Presidência até 31 de Dezembro deste ano.

Com as estruturas da oposição normalizadas, com a chegada de Felix Tshisekedi, filho de Etienne, à liderança da oposição e a chamada de Bruno Tshibala, antigo membro da oposição, para Primeiro-Ministro, parecia que estava tudo encaminhado para a realização de eleições pacíficas na RDC até Dezembro próximo. Parecia, mas não estava...

Um mar de violência entrou pelas províncias vizinhas de Angola, com fronteira na Lunda Norte, do Kasai e Kasai Central adentro, apanhando o mundo de surpresa por não haver nada que o fizesse prever, pelas mãos de milícias lideradas por Pierre Mpandi, um desconhecido, até então, chefe tradicional local, Kamwina Nsapu (designação local do chefe), que, mesmo depois de morto pela polícia em Julho de 2016, viu o seu nome continuar a ser utilizado até agora para justificar a mortandade e a destruição provocada pelas suas hordas... que levou mais de 1,3 milhões de pessoas a fugirem de suas casas, mais de 40 mil procuraram refúgio na angolana Lunda Norte, e deixou um rasto de mais de 400 mortos.

Somando esta nova guerra civil regional aos conflitos cíclicos nos Kivu, Norte e Sul, a instabilidade em Beni, tudo junto às problemáticas fronteiras com o Uganda e o Ruanda, dominadas por guerrilhas como a ADF e a FDLR, ainda o famigerado movimento M23, ou às recentes epidemias de Ebola, no Bas-Uéle, de gripe das aves e cólera pelo país... começaram a surgir justificações para mais um protelamento das eleições e a consequente manutenção de Kabila no poder.

A ONU, que claramente suspeita da mão invisível do poder político de Kinshasa por detrás dos conflitos étnicos no Kasai, já pediu um rigoroso inquérito internacional, sendo um indício dessa perversa forma de adiar a ida às urnas as gravações encontradas no computador de uma funcionária sueca da ONU, morta no Kasai, onde um conhecido político de Kinshasa, com origens no Sul do país, falava com um dos lideres das milícias de Kamwina Nsapu incentivando-o a "queimar tudo" à sua volta nas investidas dos milicianos sobre as populações indefesas.

Um mapa de decifração difícil

A pergunta que se coloca é: pode o império dos negócios da família Kabila levar a este cenário de violência como instrumento para forjar a sua continuação no poder, apesar da pressão de países como os EUA, a França, a União Europeia... ou a ONU? Uma resposta possível foi dada pelo próprio Kabila, que, no Parlamento, afirmou que não se pode dar ao luxo de "permitir que a República seja feita refém por uma facção da classe política".

Provavelmente referia-se ao clã de Tshisekedi, inimigo antigo e liderante da oposição, que dificilmente lhe deixaria pedra sobre pedra do império de negócios se chegasse (quando chegar) ao poder.

Sendo certo, por um lado, que sob a sua Presidência, Kabila conseguiu fazer crescer a economia, com reformas consideráveis nas telecomunicações, no sector mineiro, na energia e na banca, como descrevem alguns analistas, a verdade, como lembra a Bloomberg, é que são familiares seus que estão no topo da lista dos beneficiários destes investimentos.

Se isso acontecer, se Kabila conseguir encontrar forma de não deixar o poder até finais de 2017, uma maioria de analistas da cena política na RDC não tem dúvidas de que o caos que fez do gigante Congo um território de tragédia e morte nas últimas décadas pode estar mesmo ao virar da esquina.

E o Kasai, com as suas inexplicáveis milícias "justificadas" pela sujeição à vontade de um quase insignificante chefe tribal morto há um ano, pode ser essa esquina onde o gigante africano virará em direcção à tragédia...

Se isso acontecer, mesmo que o impacto seja continental, como o próprio Kabila já avisou de forma clara que o caos militar na RDC atingirá toda a África, há um país, Angola, que está na linha da frente desse potencial cenário.

E isso é plausível quer pela sua geografia - com 2 000 km"s de fronteira comum - socialmente - devido aos laços sanguíneos que unem os dois países -, pela projecção da crise para a Lunda Norte através dos refugiados, que podem chegar nos próximos meses aos 50 mil ou mais - com a capacidade de acolhimento a rebentar pelas costuras -, ou ainda pela forma como as Forças Armadas Angolanas já se começaram a envolver em escaramuças com as milícias na linha de fronteira.

Seja o quer for que vier a acontecer, as FAA já estão preparadas para todos os cenários, com milhares de homens nas fronteiras com a RDC e com equipamento pesado com capacidade para fazer face ao vasto leque de ameaças. E quando os militares se preparam com tal afinco, o mais certo é que não o façam sem uma razão fundamentada...

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