Não se sabe quantos dos 250 mil que totalizam a comunidade chinesa em Angola foram ao seu país para os festejos do Ano Novo - a 25 de Janeiro - a maior festa da China e a maior migração não forçada do mundo, mas, normalmente, muitos milhares fazem-no, começando a regressar até aos primeiros dias de Fevereiro.

Pelo menos no Aeroporto 4 de Fevereiro e nas principais fronteiras marítimas e terrestres, foram colocados medidores de temperatura corporal para detectar eventuais suspeitos de contaminação, como explicou ao NJOnline o director Nacional de Saúde Pública, Peliganga Luís Baião.

Porém, este responsável admite que existe um grau elevado de porosidade em algumas fronteiras do país que tornam estas medidas profilácticas mais difíceis de aplicar, nomeadamente nos pontos de entrada sem um efectivo controlo das autoridades nacionais, pedindo, por isso, Luís Baião um cuidado redobrado nesses pontos face ao actual cenário que se vive na China e já também noutros pontos do mundo, como na Austrália, onde foram confirmados pelo menos cinco casos.

O vírus de Wuhan, do tipo coronavírus, que ataca com maior incidência o sistema respiratório, foi descoberto em Dezembro na cidade com o mesmo nome, e já foi detectado em cerca de uma dezena de países, incluindo EUA, Japão, frança, Coreia do Sul, Tailândia...

Este género de vírus, apesar de se distinguer dos outros pela sua capacidade de contaminar na fase de incubação, foi ainda responsável pelas epidemias de 2002/2003 por Síndrome Respiratório Agudo Grave (SARS), que causou mais de 700 mortos e dezenas de milhares de contaminações, ou ainda o MERS, o mesmo síndrome mas no Médio Oriente, em 2012, com mais de 200 mortos registados, especialmente na Arábia Saudita.

E o pior é que este vírus se torna mais letal a cada dia que passa por causa da sua capacidade de mutação e porque tem capacidade de contaminar durante o período de incubação, sem existência de sintomas, o que faz deste um vírus muito diferente dos que geraram as pandemias anteriores, como a SARS ou MERS.

Face a este real perigo de pandemia com elevado grau de letalidade, com muito maior capacidade de dispersão do que o vírus do Ébola, por exemplo, e com uma grande mutabilidade genética, o Governo chinês já decretou o estado de quarentena em 3 cidades, incluindo Wuhan, com 11 milhões de pessoas, de onde não entra nem sai ninguém sem autorização oficial, e com restrições de maior ou menor grau noutras 12 cidades da província de Hubei, epicentro desta epidemia.

Alguns locais da China, como Hong Kong, já determinaram oficialmente que ninguém oriundo da província de Hubei entra no território, e mais de duas dezenas de províncias aplicaram os seus planos de contenção de epidemias, incluindo a colocação de milhares de polícias e militares nas estradas em seu redor, depois de o Politburo do Partido Comunista, presidido pelo Presidente Xi Jinping, ter tomado as rédeas da gestão desta crise de forma directa.

O primeiro-ministro Li Keqiang foi enviado para a cidade de Wuhan inspeccionar as medidas de prevenção, como, por exemplo, a construção de um mega-hospital com mais de mil camas em apenas 10 dias, e ainda as medidas restritivas à movimentação de pessoas, animais e bens.

E as autoridades chinesas já avisaram que a dispersão deste vírus, que pode evoluir para uma situação mais dramática que a de 2003 - SARS - vai evoluir nos próximos dias, o que exige dos países com maior exposição, como é o caso daqueles com maiores comunidades chinesas, o que inclui dezenas em África, uma resposta preventiva mais robusta para evitar a entrada do vírus, porque, por exemplo, nos grandes aglomerados urbanos de cidades como Lagos, na Nigéria, Dacar, no Senegal, ou Luanda, em Angola, estão claramente no mapa dos locais de maior exigência.

Em Angola, o director Nacional de Saúde Pública explicou ao NJOnline que, para além de no Aeroporto Internacional 4 de Fevereiro, que tem um fluxo migratório de 3.700 passageiros por dia, à entrada e saída de passageiros, estar colocado um aparelho que mede a temperatura e, caso o termómetro marque mais de 40 graus, o indivíduo torna-se suspeito de ser portador do vírus, foram ainda emitidos alertas para todas as unidades de saúde do país.

"Todas as unidades hospitalares do País estão preparadas porque a forma de lidar com esta pandemia é semelhante à da Gripe A", avançou ainda Peliganga Luís Baião, que salientou que o Ministério da Saúde, no trabalho que tem realizado com a Organização Mundial da Saúde (OMS), tem recebido informações de forma pontual.

As autoridades mundiais de saúde, como a OMS e o Centro de Controlo de Doenças dos EUA, (CDC), definiram como sintomas a que se deve estar atento os seguintes: Febre, dificuldades respiratórias e tosse, desde que se tenha estado em contacto com pessaos oriundas recentemente de zonas "vermelhas" ou que se tenha estado nestas zonas na China, como a província de Hubei.

Para já, ainda se desconhece de facto o berço deste vírus, mas as autoridades admitem que tenha sido um animal selvagem a estar na origem da passagem para os humanos, eventualmente através da culinária chinesa.

Mas já está confirmado que as contaminações já estão a correr na forma mais grabde de humano para humano, aumentando exponencialmente o perigo de pandemia.

Entretanto, o Governo de Pequim já disse estarem em curso esforços gigantescos para encontrar uma vacina eficaz contra este vírus, que já está a ser responsável por um impacto pesadamente negativo na economia do país e, por exemplo, no desempenho do petróleo nos mercados internacionais, que registam uma acentuada queda há já vários dias, estando hoje a cair em Londres - Brent - quase 3 por cento, para 58,20 USD por barril.

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