O Ocaso dos Pirilampos foi a obra vencedora da edição 2013 do prémio Sagrada Esperança. Como reagiu à noticia e qual foi o sentimento?
Quando soube da notícia deu-me uma enorme alegria. Ainda estou a assimilar a responsabilidade que é ser o vencedor da edição 2013, uma vez que o reputado escritor Manuel Rui Monteiro foi o vencedor da primeira edição, em 1980. Além do mais, ao menos, cinco dos vencedores das edições seguintes marcaram a história da literatura angolana dos últimos vinte e cinco anos.
O que quer com isso dizer?
Alegria, responsabilidade, humildade são os sentimentos que tomaram, definitivamente, conta de mim e espero que me acompanhem sempre. Tenho muito mais vontade de terminar o livro que estou, neste momento, a escrever.
A obra ainda não está disponível para o grande público; em linhas gerais, pode-nos abrir um pouco as páginas do livro premiado…?
O Ocaso dos Pirilampos é a confissão para redimir-se de um Ser fantástico e surrealista inspirado no Uakodilô Môxi, essa expressão kimbundu que se refere à capacidade que as pessoas têm de crescer por dentro. A dada altura das suas confissões, ele diz: ... Um ser humano poderia ter tanto poder assim como para decidir o que era o mar? Talvez sim, talvez não, mas décadas após décadas, eu decidi o que queria ver, decidi o que era ou não era infinito.
Como assim?
O livro poderá surpreender aos leitores: não é qualquer coisa que esperam ler, é algo que vai atraí- -los, causar-lhes nojo, provocar- -lhes inquietação, também um pouco de pena, mas, finalmente, permitir-lhes-à uma certa elevação de espirito. As experiências pessoais dos leitores enriquecerão o livro com novas leituras, mas é sempre num registo universal e numa perspectiva transcendental que os factos são narrados.
Os membros do júri do consideram- no como representando uma reviravolta temática no âmbito da literatura angolana. Tem também essa opinião?
Ainda é muito cedo para saber o que o romance O Ocaso dos Pirilampos representará para a literatura angolana. É o meu terceiro livro, sei que os leitores terão uma experiência transformadora e só espero que gostem dela. Isto é o que qualquer contador de histórias desejaria. Eu agradeço as considerações dos membros do júri, mas só a história é que terá a última palavra.
Como caracteriza a literatura angolana hoje?
Actualmente, há uma mão cheia de escritores da geração da independência (hoje já clássicos entre nós) que ainda continua a produzir muito. É evidente a consolidação da geração dos escritores dos anos 80 como uma das mais sólidas da história da literatura angolana mais recente, já que eles cultivam de maneira excelente todos os géneros literários. Nas últimas décadas surgiram vários escritores angolanos bons. Mas, de um modo geral, a literatura angolana precisa, por um lado, de um maior dinamismo que lhe permita recuperar o seu lado mais vanguardista, inconformista e experimental e, por outro, que a liberte dos seus nexos muito básicos tanto com as histórias partidárias do nosso país como das escolhas arbitrárias de um mercado externo, que parece estar sómente interessado numa meia-dúzia de escritores. Temos, vou utilizar a expressão de Gramsci, uns intelectuais orgánicos e não só, que produzem obras literárias de elevada qualidade e que poderiam ser mais divulgadas.
Já agora como é conciliar a actividade literária com a de historiador e critico de arte a par da sua actividade profissional?
Desde os meus dezoito anos de idade, que, para mim, a arte e a vida são a mesma coisa. Vivo e trabalho exclusiva e permanentemente com questões da Arte e da Cultura, portanto, concilio tudo isto com um misto de muito esforço e, claro, com muito gosto, também.
Saiu muito cedo do país e depois da formação tem assumido responsabilidades que o levam outra vez a estar mais fora do que dentro. Do que é que lhe dá mais saudades?
A angolanidade é, também, como diria Alejo Carpentier essa Terra Prometida ou esse particularismo transcendental que somos capazes de levar sempre, em nós mesmos. Nunca estamos emocionalmente fora e a distinção entre os que estão dentro e os que andam fora é uma distinção pouco útil. Angola será um país mais forte, quanto mais harmonia existir entre todos angolanos, onde quer que eles estejam. É este o sentimento que tenho, estando a trabalhar em embaixadas de Angola e para os angolanos. A nossa é, então, uma saudade imensa e multiforme de tudo.
Projectos para os próximos tempos
Estou completamente dedicado a terminar os meus próximos dois livros, um ensaio sobre a iconografia em Angola e outro romance sobre a força dos individuos e a sua capacidade para transformar o seu próprio entorno. Por outro lado, estamos a consolidar a Mixinge Arts Consulting como uma empresa de referência no âmbito das indústrias culturais e criativas, em Angola e no mundo.
