O auxílio surgiu na sequência de uma petição expressa enviada pela Direcção da FAF à Presidência da República que, por seu turno, a encaminhou ao Ministério dos Recursos Naturais e Petróleo (MINREPET) para dar o devido tratamento. Afinal, sendo o futebol algo que mexe com o "povão", seria desavisado simplesmente ignorar o pedido de socorro de Artur Almeida e Silva, muito menos num período sensível como o presente, que é pré-eleitoral.

O MINREPET não pode financiar directamente a Selecção Nacional de futebol, sob pena de incorrer em práticas que depois mereceriam o "puxão de orelhas" do Ministério das Finanças. Mas encontrou mecanismos de o fazer por via do Ministério da Juventude e Desportos (MINJUD), que tem uma entidade especializada em assuntos do género, no caso o FAJUD.
Já o dissemos em várias ocasiões nesta tribuna que, nas actuais condições económicas do País, não pode haver desporto de rendimento sem o auxílio governamental. Por isso, nada mais sensato que o Executivo tenha aberto os cordões à bolsa e apoiado a Selecção Nacional na empreitada que iniciou à rasquinha com vitória (2-1) sofrida em casa diante da RCA e empate (1-1) fora de portas com o Madagáscar, equipas sem grande expressão no plano competitivo africano.

É, pois, mais do que justo o aporte dado à FAF para fazer face às despesas relacionadas com o CAN"23. Independentemente dos inúmeros problemas de gestão que a entidade máxima tem demonstrado, é consensual que a Selecção Nacional precisa de dispor de condições que lhe permitam disputar a prova sem sobressaltos de qualquer tipo. Lá mais à frente, se as coisas derem para o torto, não pode haver desculpa de que faltou isto ou aquilo. À partida, no grupo em que estão inseridas as "Palancas Negras" e porque se qualificam duas equipas para a fase final, na qual participarão 24 selecções, é quase líquido que voltem ao convívio das grandes selecções africanas no próximo ano. Se não acontecer, será um fracasso rotundo.

Até aqui, estamos conversados, até porque cuidar das Selecções Nacionais é uma obrigação do Executivo. Mas o apoio prestado pelo Governo à Selecção Nacional de futebol configura, sob um determinado ponto de vista, discriminação de outras modalidades, pois o futebol é a única das principais praticadas no País cuja gestão é consabidamente desastrada e os resultados são pífios. Um olhar de relance ao retrovisor permitem-nos ver o amontoado de asneiras coleccionadas por Artur Almeida e Silva e pares de direcção. Isto leva, naturalmente, à inquietação de qualquer contribuinte quanto à forma como o dinheiro que é de todos nós será gasto. Mas este é outro assunto.

O apoio agora dado apenas ao futebol por via do FAJUD lavra num tremendo equívoco. No mesmo que faz do desporto nacional um ente colocado na periferia do núcleo continental das grandes potências desportivas, porque privilegia um punhado de clubes, com o que enfraquece a competição interna. Já o dissemos várias vezes, o sistema de financiamento do desporto angolano ao nível de clubes estupra a verdade desportiva. É que os poucos que são suportados pelo OGE, de forma directa ou indirecta, só podem efectivamente competir entre si. Os outros, sem condições financeiras, são pouco mais que figurantes de uma comédia que depaupera cada vez mais a competitividade interna. O resultado disso é o que todos sabem: no futebol Angola é um "anão" em África, no basquetebol a hegemonia foi perdida há uma década - nem já ao nível de clubes tem havido títulos continentais - e no andebol as dificuldades de conquistas de títulos têm sido cada vez mais evidentes. E não nos espantemos se no próximo CAN as "Pérolas" não reconquistarem a taça que em Novembro será disputada no Senegal, cuja selecção é uma séria candidata ao primeiro lugar.

O futebol, dado adquirido, fará pouco mais do que chegar à fase final do CAN"23 - isto é, se conseguir - para a qual se apuram 24 selecções, número que representa quase metade da totalidade dos países inscritos para as qualificativas. Na fase final, como acontece quase sempre, deverá ficar na fase de grupos. Se passar para os oitavos de final será um verdadeiro milagre. Sabendo todos nós, inclusive os decisores, que o futebol é um caso perdido, há ainda assim uma aposta séria para que se possa reerguê-lo e o fazer regressar aos tempos áureos em que, não sendo propriamente uma selecção de topo continental, pelo menos inspirava respeito a todos os adversários e inclusive oponentes como Nigéria, Argélia ou Egipto ficavam de sentido. Foi nos tempos em que as "Palancas Negras" estavam sob comando de Oliveira Gonçalves e a FAF sob direcção de Justino Fernandes.
Estranhamente, porém, outras modalidades não beneficiaram de tamanha magnanimidade governamental. Nem o andebol, a única que ainda vai ganhando, quer ao nível de selecções, quer ao nível de clubes. Além de não ter qualquer consórcio que sustente os seus campeonatos, não tem a "sorte" de beneficiar da "taluda" que é o contrato-programa com o FAJUD para os compromissos ingentes que se avizinham. E são obrigações importantes, sobrelevando-se entre estas o CAN, cuja conquista representará a 15.ª, um número simbolicamente redondo. Nessas circunstâncias, quem se refere ao andebol, refere-se também ao basquetebol ou ao judo, modalidade com um tremendo potencial para chegar a um pódio olímpico, o que, a acontecer, seria a suprema glória do desporto angolano.
Não sabemos quais os critérios que presidiram a escolha do futebol para apoio em detrimento de outras modalidades. O que sabemos é que se trata de um erro tremendo, decorrente do facto de a governação não ligar a mínima ao desporto - que não é apenas futebol. Porque, se ligasse, muito provavelmente o Conselho da República teria pelo menos um representante do desporto. Uma olhada à lista de conselheiros de João Lourenço diz que entre os membros da "sociedade civil" nenhum é do sector desportivo. O que pode, de certo modo, ter algum peso desfavorável quando o tema em pauta é o desporto.

Ao dar "tudo" ao futebol e "nada" a modalidades cuja taxa de sucesso é incomparavelmente maior, o Governo está a agir como um pai que vai dando brinquedos novos à medida que um dos filhos os estraga, enquanto o filho que conserva bem os seus brinquedos nada recebe de novo. Isto é perigoso. Isto é compensar o "crime". Agindo dessa forma, não tarda, o Presidente da República deixará de receber campeões africanos no palácio da colina de São José para vitoriá-los. Tudo porque se está a apostar no "cavalo" errado, mesmo sabendo-se de antemão que os "cavalos" vitoriosos são o andebol e o basquetebol!