Foi a primeira vez que Angola viu um desfile militar durante a tomada de posse de um Presidente eleito e logo numa cerimónia de reeleição. Obviamente que faria mais sentido ter sido logo a primeira vez que João Lourenço assumiu o cargo após quase quatro décadas de governação do seu antecessor. Mas, nesta cerimónia, João Lourenço mostrou, dentro e fora, que não é um líder enfraquecido ou fragilizado em função dos resultados eleitorais e das divisões internas no MPLA, apesar da vitória agridoce e de ter perdido Luanda para os principais adversários, bem como apesar das manobras de bloqueio e embates dos marimbondos, a quem o eleito procurou fazer passar a mensagem de que ainda tem força política, diplomática e militar.


O desfile militar foi uma afirmação de força e poderio, bem como para provar a lealdade da tropa ao seu Comandante-em-Chefe. A presença de Chefes de Estado e de delegações com representantes de diferentes nações estrangeiras foi importante para passar um sinal de apoio e força política/diplomática. A referência a Putin e ao conflito Rússia-Ucrânia foi subtil e diplomática, longe da reprovação ou da condenação.


"A sociedade angolana e os competentes órgãos de Justiça vão prosseguir com o seu trabalho de prevenção e combate contra a corrupção e a impunidade que ainda prevalece". O combate contra a corrupção está presente no discurso, mas muda de metodologia. João Lourenço fá-lo-á na vertente da pedagogia e da inclusão, pedindo a todos para se "trabalhar na educação das pessoas para a necessidade de mudança de paradigma, de vícios, más praticas e maus comportamentos instalados e enraizados há anos". Ele pede o escrutínio de todos neste combate contra a corrupção. Há como que uma ruptura de método, deixando de parte o lado mais populista, mais eufórico e emocional do discurso, realçando a necessidade de formação de consciência, alertando para os maus comportamentos enraizados há anos e a impunidade.


Declara o povo angolano como o verdadeiro e real vencedor das eleições de 24 de Agosto, assumiu que os jovens estão no centro da atenção da sua governação. Felicitou as forças políticas concorrentes a estas eleições, fazendo depois uma importante e respeitosa referência aos seus antecessores, José Eduardo dos Santos e Agostinho Neto. Um discurso muito virado para as promessas, reflexões e pedagogias, mas que não expõe estratégias como tal. Mas não é porque João Lourenço não tenha uma estratégia. Não! Ele tem, mas não a revelou. Esse também é um sinal de que, nos próximos cinco anos, poderemos vir a ter um João Lourenço mais reservado, mais pragmático e mais selectivo. A escolha do próximo Executivo é um exemplo de como mantém o País em suspense com um dos segredos mais bem guardados e em que nada "transpira" até ao momento para fora da sua esfera de controlo. Portanto, este não foi apenas um acto de investidura, foi também um acto de afirmação de força e poder. Foi João Lourenço a dizer: "Estou presente! Foi Sua Excelência de posse presente.