Esta semana, algumas pessoas gravaram áudios a afirmar que tinham a plena certeza e confirmação da morte do ex-Presidente da República, José Eduardo dos Santos (JES), e tivemos meio mundo alinhado como ovelhas para um matadouro a partilhar, a argumentar e a ter muitas certezas. Somos um povo especial, como um dia afirmou JES, e este povo especial agora também "se especializou" na promoção e na discussão de futilidades, na promoção dos extremos e na afirmação de um discurso radical. Esse povo especial que agora usa as redes sociais para fomentar a intolerância, para mostrar a sua insensibilidade pela opinião alheia e promoção do ódio. É também mesmo um povo muito especial por causa destas "especialidades" que adquiriu e espalha por aí aos quatro ventos.

Somos um povo de muitas certezas. O problema é que estas nossas certezas são quase sempre sobre a desgraça e dor alheia. Raramente temos certezas para aquilo que é bom e positivo para os outros. Para o mal, para a dor e desgraça alheia até há tempo e espaço para se gravarem vídeos e áudios, para se escreverem textos e criar "memes". Para exaltar aquilo que é bom, o mérito, a excelência e a competência alheia acabamos subitamente acometidos de uma "amnésia selectiva". O que vale é "bater no ceguinho", é ver dor e sangue. Tudo isso revela muito daquilo que nos estamos a tornar. Estamos a criar e a promover uma sociedade selvagem e perigosa. Uma sociedade apologista do assassínio de carácter e que vai acabar por se engolir. No escândalo sexual "Porta Potty Dubai", que envolveu milionários árabes e mulheres de alguns países africanos (não havia mulheres angolanas), vimos muitas pessoas forçarem narrativas que fossem capazes de incluir ou "colocar no pacote" figuras públicas angolanas. Não havia preocupação em condenar os abusos, a honra e a dignidade humana daquelas mulheres, praticados por tipos podres de ricos, mas também bastante pobres de espírito e de valores, que usam o seu poder, dinheiro e influência para abusar de mulheres desprotegidas e fragilizadas.

Na maior parte das publicações e discussões nas redes sociais, não se viu uma condenação ou mensagem de repúdio às acções dos milionários árabes, mas, sim, uma tentativa muito baixa de trazer "o mal" para o nosso terreno. "Amélia Kuvingua é a nova presidente do Conselho de Administração da ANAC e a primeira PCA de uma instituição pública a ser escolhida através de concurso" foi o título de uma notícia publicada no passado dia 05 de Maio, na edição on-line do Novo Jornal, assinada pela colega Sandra Bernardo. O que me chamou a atenção é que esta notícia até hoje não tem um único comentário na página do Facebook, mesmo destacando algo inédito, algo que revela transparência e promoção da competência. Somos, realmente, um povo bué especial.

Vivemos, hoje, numa sociedade com muita informação e, ao mesmo tempo, muito desinformada. Os cidadãos hoje andam muito mal informados e são facilmente manipulados. Antes fosse só falsa, é mesmo informação inventada para confundir e manipular os mais distraídos ou os menos atentos. As redes sociais tornaram-se no palco dos "tudólogos" e de afirmação de certas certezas. Um palco em que todos querem ser os primeiros a transmitir as más notícias. É também o novo palco dos idiotas, dos intolerantes que desfilam todo o seu fel e verborreia para impor as suas narrativas. Querem ser todos os primeiros a "matar" e a ver "morrer".

Temos todos culpa quando partilhamos informação falsa, porque não quisemos perder tempo a verificá-la, cruzar informações e confrontar factos. Temos todos culpa quando nos calamos, porque gostamos do que nos é dado a ler ou a ouvir, porque o conteúdo diz mal de alguém que não gostamos ou desprezamos; porque o conteúdo confirma os nossos preconceitos ou aversão a certas pessoas ou instituições. As pessoas hoje estão dispostas/focadas em acreditar apenas naquilo que lhes dá razão, aquilo que vai ao encontro das narrativas que construíram.

Temos uma tendência em afastar de nós a consciência da nossa própria finitude. O tema da finitude da vida a todos diz respeito e deve ser abordado com respeito, dignidade e elevação. Como disse Maria Julia Kovacs: "O que nos diferencia dos demais seres vivos, contudo, é a consciência de ser mortal, consciência da nossa própria finitude". É um estado que não se consegue mudar nem reverter. A morte chegará a todos, independentemente da escolha ou vontade dos humanos.