No Palanca, qualquer cubico serve para criar uma igreja

Gaspar FaustinoPublicado 18/01/2017 14:56:00

Em cada esquina do distrito do Palanca nasce uma "igreja", são já às centenas os locais ocupados por seitas de quem poucos ouviram falar. A administração distrital contou 201 templos, 65 destes são ilegais. A sua proliferação é de tal ordem que as autoridades locais admitem estar preocupadas com o fenómeno e dizem que vão apertar o cerco às seitas que ali se instalam à margem da lei.

O administrador distrital do Palanca, Pascoal Fortunato, disse ao Novo Jornal Online que as seitas ilegais que "todos os dias" se instalam no bairro já constitui uma preocupação para a sua administração.

Para lidar com o assunto do excesso de templos de seitas ilegais e igrejas no Palanca, com o seu número a crescer a um ritmo anormal, Pascoal Fortunato adiantou que a sua administração está em contacto com o Governo Provincial de Luanda (GPL) para definir a melhor actuação perante este cenário.

O administrador do distrito do Palanca conta com a colaboração da "plataforma" das seitas ilegais em Angola, denominada Igreja de Coligação Cristã, para que seja possível evitar que o distrito se transforme num aglomerado de pequenos templos sem o mínimo de organização.

Em Angola estima-se que existam cerca de 1300 seitas ilegais e este agrupamento ecuménico é uma via aberta para solucionar um problema que embate de frente com o ordenamento urbano de grande parte dos bairros de Luanda, sendo disso um bom exemplo o palanca que, com os seus 250 habitantes, conta com mais de duas centenas de templos de seitas e igrejas nas suas ruas.

Este fenómeno não é de difícil verificação, porque basta circular pela Estrada Nova, que liga a Av. Comandante Pedro de Castro Van Dunen Loy à Av. Machado Saldanha, para encontrar dezenas de "templos", muitos destes são meros cúbicos de chapa de zinco ou estruturas cobertas com lona, onde cabem meia dúzia de fiéis, aos mais luxuosos onde se acolhem centenas de crentes.

A ideia, admite Pascoal Fortunato, não é, no imediato, fechar estes templos, porque isso implica uma complexa burocracia que envolve diversos ministérios e organismos do Estado, mas sim procurar criar condições, através do GPL e da plataforma ecuménica, para que sejam as próprias seitas e igrejas a perceber que é necessário, e também urgente, organizar as coisas por forma a que os locais de culto não se amontoem uns em cima dos outros.

Para já, adiantou este responsável, também para responder a manifestações de desagrado com a situação feitas por habitantes do Palanca, está em curso o cadastramento dos templos existentes para que, de forma legal, se resolva este problema sem criar atritos desnecessários, até porque, admitiu, "algumas têm como aderentes figuras conhecidas e com ligações ao poder".

Um exemplo do que o Novo Jornal Online verificou no Palanca é a transformação de quintais de habitações, barracas de chapa de zinco ou estruturas debilmente edificadas em templos de seitas cuja designação é igual a tantas outras, umas delas mais conhecidas, outras menos conhecidas como, por exemplo, a "Igreja de Shacknah Vivo em Angola".

Recorde-se que em 2014 o Governo elaborou uma lista das seitas e igrejas ilegais para iniciar um processo de controlo do fenómeno, embora o conteúdo dessa lista nunca tenha sido divulgado.

Uma das situações que começam a ganhar foro de normalidade é a transformação de estabelecimentos comerciais, deste a simples barbearia, a espaços em "shoppings", em templos, o que, perante a crise que o país atravessa, serve todos os envolvidos.

Isto, porque, com a diminuição de clientes os proprietários destes espaços, sejam barbearias ou outras pequenas lojas, como, por exemplo, algumas cantinas usualmente conhecidas por "mamadus", por serem detidas por imigrantes oriundos da África Ocidental e do Norte, aproveitam para se livrarem de negócios que já não são tentáveis e as seitas conseguem locais de culto geralmente bem localizados e a relativamente baixos custos.

Quando questionados sobre as condições em que funcionam os seus pequenos e, quase sempre, sem condições mínimas, os seus responsáveis, por norma, parafraseando Jesus Cristo, que o que interessa é a "palavra de Deus" e não o local onde esta chega aos crentes.

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