Requintes de covardia e de cinismo

Nok NogueiraPublicado 18/04/2017 12:13:00

Daqui a mais alguns anos - esperamos não serem assim tantos quanto os já vencidos com a queima de vidas humanas inocentes - havemos de nos questionar como foi possível suportar tudo isso.

Foto: Arquivo Novo Jornal


Como foi chegar a tanto, a este estado de coisas; com que coragem e com que meios foi possível manter toda uma geração em estado de silêncio e de inacção absoluta perante formas e gestos que atentaram e atentam ainda hoje contra a vida de um todo, de um projecto comum, no qual não deveriam a priori existir critérios selectivos de exclusão, ou que pelo menos não se ensinasse o ódio e a intolerância como únicos critérios para se ser "rei"!

Como reagiriam hoje os fundadores da nação, aqueles que num instante primeiro se ofereceram e doaram o bem mais precioso que tinham ao campo santo para que a geração a seguir pudesse despertar num país soberano, onde os propósitos que justificaram as suas lutas e mortes tivessem sido hoje atendidos e não tivéssemos a infeliz sina de ainda termos que redefinir o nosso posicionamento perante a arrogância daqueles que se acham donos e senhores do mundo, e que hoje nos querem indiferentes, diante de uma frustração que nos remete a olhar ao redor e constatar que países menos afortunados do que o nosso caminham sobretudo de cara lavada, sem intimidações nem traves nos olhos da crítica?

Dir-nos-ão que nada se constrói num só dia, que os anos em que andámos no deitar abaixo fizeram-nos animais insensíveis, seres com coração de pedra no lugar de vasos em flor, ricos e pobres sem causas justas, analfabetos e letrados funcionais, capitães, majores, coronéis, brigadeiros e generais; aliás, somos conhecidos como o país dos generais.

A esse respeito e já há algum tempo a esta parte, e quase em gesto de surdo ouvido, anunciava-se que "o país, dada as suas especificidades, tinha (mesmo) de ser "reconduzido" por uma alta patente militar". Em véspera de eleições, tudo isso é bastante revelador!

Ainda assim, a nossa resposta será inadiavelmente uma: "quantos anos precisaremos para dizer aos senhores de tudo isso que num país, mais do que toda a força das armas que acumulou e o critério dos bens materiais que servem de barómetro para que sejam devidamente separadas as águas em matéria de heróis e vencidos, há uma palavra que nos devia inúmeras vezes guiar? Ela chama-se decência.

Devíamos verdadeiramente procurar o significado dela em nossos actos, para que a nossa riqueza, parte significa oriunda de uma reinventada acumulação primitiva de capital, não se juntasse com o mar de miséria que essa mesma riqueza gerou a céu aberto perante a alegoria das mãos sempre vazias.

(Leia este artigo de opinião na íntegra na edição 478 do Novo Jornal, nas bancas e também disponível por assinatura digital, que pode pagar no Multicaixa)

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