Algures no século XVI, o filósofo francês Michel de Montaigne escreveu no ensaio "Da solidão" que "a fama e a tranquilidade nunca podem ser companheiras". Ao longo da história, várias figuras procuraram a reclusão para fugir ao peso da vertigem.

Para quem levava até então uma vida normal, entre a baliza e a rotina discreta em Chaves, a gestão pode pesar demasiado. O caso do guardião dos Tubarões Azuis assemelha-se a mais um desses estágios a que os padres do deserto chamavam de kenodoxia ou "a armadilha da vanglória", na qual diziam que o demónio oferecia fama para nos roubar a paz.

Vozinha, nomeado para o Troféu Yashin da prestigiada revista France Football, confessou ao The Observer como tem sido difícil esta nova realidade em que não consegue estar em lugar nenhum sem ser fotografado ou sem que lhe peçam um autógrafo.

"Muita gente quer ser famosa e ter um perfil público, mas só vê o lado positivo dessa realidade. Para ser honesto, se me oferecessem a vida que tenho hoje ou a vida que tinha antes, escolheria a que tinha antes."

"Perdi a minha paz e tranquilidade. Já não tenho privacidade, ou pelo menos muito menos do que tinha. Agora saio, vou a um restaurante, e há sempre alguém que quer tirar uma foto comigo ou pede um autógrafo. Ou, pior, alguém está a filmar-me. É o que mais mudou na minha vida e não acho que haja nada que possa fazer quanto a isso", expressou.

Fiel aos seus princípios, a voz que defende as redes dos Tubarões Azuis declarou que só fez uma colaboração promocional durante a competição com a UFL Mobile e que não quer trabalhar para já com "marcas de tabaco, álcool ou apostas".

Este aparato mediático tem ido além de Vozinha, é que em Cabo Verde há cada vez mais curiosos a aparecer nas ruas do Mindelo e quem tem de lidar com eles é a sua família. "Eu não estou lá, por isso não os posso ajudar. Eles têm de aprender a viver com a situação e impor limites", afirmou.

No entanto, conta que há há um lado positivo.

"É bom sentir-me uma espécie de embaixador, mas quero deixar claro que o que alcançámos foi um esforço colectivo. Fizemos história e a melhor notícia seria se conseguíssemos aproveitar esse momento para desenvolver o nosso país e melhorar as condições de vida do nosso povo."

Apesar de ter pensado em retirar-se da selecção após o Mundial, não resistiu. "Ainda me sinto bem", disse, a partir de Lisboa, onde está em estágio a preparar o arranque da qualificação para o CAN 2027.

A um mês da cerimónia da Bola de Ouro, que este ano decorrerá em Londres, a última surpresa foi ver o seu nome entre os nomeados para melhor guarda-redes do mundo. "Nunca imaginei que pudesse acontecer. Era impensável, mas estou grato a quem se lembrou de mim. Só estar nessa lista já é uma grande honra."