Só que essa não é a realidade em Moçambique, como não é em Angola, onde, na última década, a população cresceu mais do que a economia, o que resultou numa quebra do rendimento e do poder de compra per capita, sendo a discrepância de 3,5% na população e 2,5% na economia, em média, segundo dados até 2025.

O mesmo acontece na quase generalidades dos países subsaarianos, onde a população cresce a um ritmo muito superior ao da economia, sendo que naquele país lusófono do Índico a realidade é inversa, levando mesmo o Presidente Daniel Chapo a assumir que tem um problema sério nas mãos.

Em Moçambique a economia deverá crescer este ano 0,5%, segundo dados do FMI, quando a população superará os 2,5%, o que não permite um desenvolvimento sustentável e em harmonia com a melhoria da qualidade de vida da população, muito semelhante ao que sucede em Angola, embora com, actualmente, números mais equilibrados que Moçambique, com 3% de crescimento populacional para 4,5% na economia.

Sendo mais preocupante este desequilíbrio em Moçambique, o Presidente Daniel Chapo veio agora avisar que o crescimento da população acima do ritmo de expansão da economia arrisca transformar o potencial dividendo demográfico do país num "desastre social e económico", defendendo mais investimento na educação, saúde e emprego.

Na abertura da Conferência sobre População e Desenvolvimento em Moçambique, que decorre desta quarta-feira, 04, e quinta-feira, 05, em Maputo, Daniel Chapo, citado pela Lusa, afirmou que o país enfrenta uma "responsabilidade histórica" perante o rápido crescimento demográfico registado nas últimas décadas.

"Uma população jovem por si só não garante desenvolvimento. O dividendo demográfico não é uma riqueza que se recebe automaticamente, é uma oportunidade que se conquista com trabalho, educação, saúde, formação, emprego e políticas públicas acertadas", afirmou, no evento promovido pelo Ministério da Planificação e Desenvolvimento em parceria com o Fundo das Nações Unidas para a População (UNFPA).

Segundo o chefe de Estado, ainda citado pela Lusa, Moçambique passou de cerca de 10 milhões de habitantes em 1975 para aproximadamente 35 milhões em 2026, podendo atingir os 60 milhões até 2050.

"Estes números contam a história de um povo que cresceu, que resistiu às adversidades e continua a acreditar no futuro. Mas, ao mesmo tempo, colocam-nos perante uma responsabilidade histórica", disse.

Para Chapo, o principal desafio consiste em assegurar que o crescimento populacional seja acompanhado por um ritmo superior de crescimento económico.

"A nossa população tem crescido a um ritmo anual próximo de 2,5%. Isto significa que se a economia crescer abaixo deste ritmo, a riqueza produzida pelo país não acompanhará o aumento do número de habitantes", referiu.

O Presidente advertiu que o país corre riscos caso não consiga transformar o crescimento demográfico em produtividade e criação de riqueza.

"Se não investirmos hoje nas nossas crianças, nos nossos jovens e adolescentes, corremos o risco de transformar esta oportunidade histórica num problema, se não mesmo num desastre social e económico ainda maior", afirmou.

Na sua intervenção, Chapo defendeu que Moçambique deve concentrar esforços na educação, saúde, criação de empregos e industrialização para aproveitar o potencial da sua população jovem.

"As estimativas apontam para mais de 500 mil jovens que procuram anualmente integrar-se no mercado de trabalho. Esta realidade exige de nós uma economia mais dinâmica, produtiva e diversificada", afirmou, defendendo o crescimento económico inclusivo como condição para melhorar o rendimento das famílias.

Por sua vez, a vice-diretora regional do UNFPA para a África Oriental e Austral, Young Won, considerou, também citada pela Lusa, que Moçambique enfrenta uma "escolha histórica" sobre a forma de transformar o crescimento da sua população jovem numa vantagem económica.

Segundo a responsável, uma população jovem "não garante prosperidade" por si só e exige decisões políticas e investimentos consistentes.

Alertou ainda que, segundo projeções demográficas, a população moçambicana poderá ultrapassar os 115 milhões de habitantes nas próximas cinco décadas, aumentando a pressão sobre escolas, serviços de saúde, emprego e infraestruturas

"Moçambique enfrenta agora uma escolha histórica. Permitir que a crescente população jovem aumente a pressão sobre os recursos públicos ou transformá-la numa geração qualificada", afirmou.

Won defendeu que o aproveitamento do dividendo demográfico passa, em primeiro lugar, por investir nas raparigas e na sua permanência na escola.

A responsável apontou ainda como prioridades a ligação entre educação e emprego, o financiamento sustentável das políticas públicas e a canalização de investimentos para as populações e regiões mais vulneráveis aos impactos das alterações climáticas.

"O futuro de Moçambique depende das decisões que tomamos hoje. Investir nos jovens agora é garantir a prosperidade das próximas gerações", concluiu.