Ao igualar o preço a que chegou em Maio deste ano, o barril de Brent serve para mostrar a profunda preocupação entre os analistas dos mercados com a situação de clara escalada na guerra intermitente na guerra no Golfo Pérsico, entre Irão e Estados Unidos.

Uma das razões para esse crescendo de inquietações é que Israel, o aliado de primeira hora de Washington, segundo vários analistas e especialistas em estratégia político-militar, pode, com elevado grau de probabilidades, voltar a entrar neste conflito nos próximos dias.

Isso mesmo antes de 27 de Outubro, data das eleições legislativas em Israel, onde o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu aposta as fichas todas, sabendo que uma derrota eleitoral significa regressar ao tribunal para responder sob suspeita severa de fraude, burla e abuso de poder.

Ao fim de 19 anos como primeiro-ministro, apenas com curtos intervalos, Natanyahu sabe que entre o risco de perder as eleições e lançar uma guerra, que lhe servirá de mote para adiar as eleições ou para manipular o eleitorado sob a ameaça "nuclear" iraniana, a opção por se juntar aos EUA contra Teerão é a que melhor serve os seus interesses pessoais.

Porém, embora o líder israelita não esconda que tem vindo a insistir com Donald Trump para que os EUA regressem aos ataques em força contra o Irão, o Presidente norte-americano, que acaba de lhe anunciar o seu apoio eleitoral, tem mostrado fortes reticências em fazer a vontade ao seu "melhor amigo" no plano internacional.

Todavia, como notam diversos analistas, Trump poderá não ser capaz de resistir aos "encantos" de Telavive, devido ao poderoso lobby israelita em Washingtin, mesmo que atacar o Irão seja eleitoralmente adverso para as suas aspirações nas eleições intercalares nos EUA, que ocorrem apenas uma semana após as legislativas em Israel, a 03 de Novembro.

É, todavia, neste xadrez de possibilidades que os mercados petrolíferos fazem as suas jogadas, considerando igualmente que o Irão tem vindo a avisar que não quer a guerra mas está, apontou Mohammad Bagher Ghalibaf, presidente do Parlamento e chefe da equipa negocial iraniana, "preparado para destruir toda a infra-estrutura energética" que resta no Golfo Pérsico, nomeadamente na Arábia Saudita, Kuwait, Emiratos, Catar, Bahrein...

Estes países são todos aliados dos EUA e as bases militares que o Pentagono ali possui, dezenas, embora quase todas destruídas, total ou parcialmente, nas semanas após 28 de Fevereiro (ver links em baixo), serviram e servem, nas onde é possível, como rampas de lançamento de ataques sobre o território iraniano.

É por isso que se ocorrer o mais que provável regresso à guerra, que analistas militares como Douglas MacGregor, antigo coronel norte-americano e conselheiro militar na primeira Administração Trump, admitem estar iminente, a destruição da infra-estrutura de gás e petróleo nos petroEstados do Golfo Pérsico pode ser um rotundo revés para Donald Trump.

É que as sondagens mais recentes não são unânimes apenas em apontar o actual ocupante das Casa Branca como estando com o mais baixo índice de popularidade de um Presidente dos EUA em muitas décadas, como notam que o seu Partido Republicano vai ser derrotado com estrondo nas intercalares de 03 de Novembro, perdendo assim a maioria no Congresso que lhe permite desenvolver a sua política externa sem entraves.

E o vector mais relevante para definir o voto apontado por 70% dos eleitores norte-americanos é o preço dos combustíveis nos postos de abastecimento, onde o gasóleo e a gasolina estão a bater recordes históricos e sem comparação.

Além do Golfo Pérsico, o regresso da guerra a esta vasta região levaria as chamas a engolir igualmente o Mar Vermelho e o Estreito de Bab al-Mandeb, por onde passa quase 15% do comércio geral global, devido ao conflito existente entre a Ansar Allah, do Iémen, e a Arábia Saudita.

O que faz desta passagem, Bab Al-Mandeb, entre o Índico e o Canal do Suez, tão ou mais estratégica para a economia mundial que o Estreito de Ormuz, por onde passa 20% do crude e do gás consumidos diariamente no mundo em tempo de paz.

O que, considerando este cenário globalmente, o frenesi dos mercados, o seu nervoso miudinho, advém da dúvida que existe sobre o que vai na cabeça de Donald Trump. Se vai para a guerra de forma a ajudar eleitoralmente o seu amigo Benjamin Netanyahu, ou se vai tirar o dedo do gatilho, de forma a proteger os seus interesses eleitorais.

Nos próximos dias, ou horas, saber-se-á, mas nos mercados de petróleo globais, a dúvida está a resultar numa escalada dos preços, tanto no Brent, de Londres, como no WTI, de Nova Iorque.

É por isso que perto das 11:00 desta terça-feira, 20, o barril de Brent, a referência principal para as ramas exportadas por Angola, estava a valer 11,5 USD, uma subida de quase 1,70%, consolidando a forte subida dos últimos dias, que tem permitido aproximar o valor da medida ao que se observava a 05 de Maio, dia em que atingiu o valor mais elevado desta crise, gerada pelo ataque israelo-americano de Fevereiro, chegando aos 114 USD.

Angola e o xadrez do Golfo...

O actual cenário internacional tende claramente a manter os preços acima do valor estimado pelo Governo angolano para o OGE 2026, 61 USD, que compara com os actuais 111 USD, no caso do Brent, cerca de 50 USD acima desse valor.

Angola é, por isso, um dos países mais atentos a estas oscilações devido à sua conhecida dependência das receitas petrolíferas, e a importância que estas têm para lidar com a grave crise económica que atravessa, especialmente nas dimensões inflacionista e cambial.

Isto, porque o crude ainda responde por cerca de 90% das exportações angolanas, 35% do PIB nacional e 60% das receitas fiscais do país, o que faz deste sector não apenas importante mas estratégico para o Executivo.

O Governo deposita esperança, no curto e médio prazo, de conseguir o objectivo de aumentar a produção nacional, uma das razões por que abandonou a OPEP em 2023, actualmente abaixo de 1 mbpd, gerando mais receita no sector de forma a, como, por exemplo, está a ser feito há anos em países como a Arábia Saudita ou os EAU, usar o dinheiro do petróleo para libertar a economia nacional da dependência do... petróleo.

O aumento da produção nacional, cujo potencial cresceu significativamente já este ano, não está a ser travada por falta de potencial, porque as reservas estimadas são de nove mil milhões de barris e já foi superior a 1,8 mbpd há pouco mais de uma década, o problema é claramente o desinvestimento das majors a operar no país.

Aliás, o Governo de João Lourenço tem ainda como motivo de preocupação uma continuada e prevista redução da produção de petróleo, que se estima que seja na ordem dos 20% na próxima década, estando actualmente â beira de 1 milhão de barris por dia (mbpd), muito longe do seu máximo histórico de 1,8 mbpd em 2008

Por detrás desta quebra, entre outros factores, o desinvestimento em toda a extensão do sector, deste a pesquisa à manutenção, quando se sabe que o offshore nacional, com os campos a funcionar, está em declínio há vários anos devido ao seu envelhecimento, ou seja, devido à sua perda de crude para extrair e as multinacionais não estão a demonstrar o interesse das últimas décadas em apostar no país.

A questão da urgente transição energética, devido às alterações climáticas, com os combustíveis fosseis a serem os maus da fita, é outro factor que está a esfumar a importância do sector petrolífero em Angola.