O Presidente angolano começou o seu discurso na assembleia-geral das Nações Unidas com uma palavra para António Guterres, que está prestes a deixar o cargo de secretário-geral da ONU, elogiando o "homem de diálogo, defensor da Carta das Nações Unidas e do Direito Internacional, incansável defensor da necessidade de protecção do planeta dos efeitos nefastos das alterações climáticas e precursor do debate global sobre a governação mundial da Inteligência Artificial".
Depois de dizer que esta sessão tem "um importante significado" para Angola, por estar a decorrer uma altura em que se celebram 50 anos da aceitação de Angola como membro de pleno direito da Organização das Nações Unidas, João Lourenço, que se socorreu da experiência de Angola, que viveu anos de uma guerra civil fratricida, chamou a atenção para "a falta de sinais alentadores quanto à probabilidade de se chegar a algum entendimento de paz nos próximos tempos nas guerras entre a Rússia e a Ucrânia, no conflito Israelo-Palestiniano no Médio-Oriente e no Golfo Pérsico".
Condenando o genocídio "contra populações indefesas, velhos, mulheres, crianças, doentes acamados, profissionais de saúde, jornalistas e trabalhadores de organizações humanitárias internacionais, muitas vezes privados do acesso aos mais elementares direitos do ser humano, de bens essenciais à vida como água, alimentos e medicamentos", o Presidente angolano defendeu que a expulsão dos palestinos de suas casas e terras através da expansão dos colonatos judeus na Cisjordânia "deve merecer a mais viva repulsa e condenação internacional".
"A situação de segurança alimentar, energética e humanitária dos países e do mundo em geral piorou consideravelmente depois do eclodir das guerras contra a Ucrânia e mais recentemente contra o Irão", expôs, acrescentando que "o balanço das guerras é desastroso, a julgar pelas consequências que derivam do estrangulamento da liberdade de circulação marítima pelos estreitos de Ormuz e de Bab-Al-Mandeb, situação que criou um sério risco de disrupção das cadeias de abastecimento logístico em geral, alimentar e energético em particular, cujos efeitos, para os países mais vulneráveis, são devastadores".
O Chefe de Estado angolano considerou que "vivemos hoje num ambiente de anarquia mundial em que o uso da força impera sobre a força da razão e da Lei, em flagrante oposição às normas que regem as relações internacionais", para defender que "há toda a necessidade de se fazer uma profunda reflexão em sede das Nações Unidas, a única instituição do planeta com legitimidade e que alberga todas as nações do mundo, para se encontrarem as melhores soluções para o alcance da paz global".
A forma "injusta e reveladora de uma grande insensibilidade humana" como Cuba tem sido tratada ao longo de décadas, vítima de um embargo que se prolonga e agrava as condições de vida do povo cubano foi igualmente levada ao palanque, com o Presidente angolano a defender que "Cuba não é um Estado terrorista, não produz nem possui armamento nuclear, armas químicas ou bacteriológicas, que possam constituir uma ameaça iminente ou real para a segurança nacional de outros países, nem mesmo vizinhos".
João Lourenço apelou ao fim do embargo, "principal responsável pela situação calamitosa em que Cuba e os cubanos se encontram", e por ser desumano, injusto e atentar contra todos os princípios e normas do Direito Internacional".
O Presidente insistiu numa nova ordem mundial "mais democrática e justa, que não se baseie apenas no poder do restrito clube dos vencedores de uma guerra que teve lugar há oito décadas", defendendo uma "reforma profunda" do Conselho de Segurança das Nações Unidas, no qual a África, a América Latina e a Ásia "deverão estar adequadamente representados", na condição de membros permanentes com todos os poderes inerentes.
"A voz dos Africanos deve ser escutada em todas as circunstâncias, em todos os momentos nos processos de tomada de decisões estratégicas sobre as questões da paz, da segurança mundial, do financiamento ao desenvolvimento, assim como das questões climáticas e da governação mundial da Inteligência Artificial", reforçou.
João Lourenço chamou igualmente a atenção para a necessidade de pensar nas estratégias que podem ajudar a acelerar a implementação da Agenda 2030, defendendo que para alcançar resultados concretos, é fundamental que se garanta o financiamento acessível, o alívio da dívida, a transferência de tecnologias, a capacitação e uma maior participação nas instituições financeiras internacionais.
"Os países africanos gastam muito mais recursos com os valores exorbitantes do serviço da dívida, do que o que conseguem investir nos programas de saúde, educação e construção de infra-estruturas", declarou, acrescentando que esta situação limita o investimento produtivo, aprofunda as desigualdades e as assimetrias económicas e ameaça a estabilidade económica e social.
"Em face disso, impõe-se necessariamente a correcção destas distorções, pelo que reforço o apelo à reforma imediata da arquitectura financeira internacional, para torná-la mais justa, equitativa, democrática e orientada para o progresso e o bem-estar da Humanidade", desafios "agravados ainda mais em consequência das alterações climáticas que têm uma dura incidência em África, com as secas severas e prolongadas, inundações, desertificação, insegurança alimentar e deslocações populacionais".
Um quadro que, segundo João Lourenço, "ilustra bem a necessidade de se estabelecer um financiamento climático previsível, acessível e adicional, sem que isto agrave ainda mais a dívida dos países em desenvolvimento", considerando que "o Pacto Digital Global abre novas perspectivas de cooperação para reduzir o fosso digital, expandir as infra-estruturas públicas digitais, promover a formação e a inovação, fortalecer a cibersegurança e construir uma governação da Inteligência Artificial mais inclusiva, segura e centrada no ser humano".
