Num tom de advertência, António Guterres, deu esta terça-feira início ao debate anual da Assembleia-Geral das Nações Unidas (UNGA), o seu último enquanto secretário-geral, no qual frisou que as fraturas no mundo atual estão a alargar-se e as "fissuras tornaram-se abismos".

Guterres recordou que, na última década, guerras irromperam com consequências devastadoras e arrastaram-se com uma "crueldade desprezível", em que civis tornaram-se alvos, os direitos humanos foram "pisoteados", a fome foi usada como arma e vários trabalhadores humanitários acabaram mortos.

"O direito internacional foi descartado. As divisões geopolíticas aprofundaram-se. As desigualdades intensificaram-se. A confiança desgastou-se. A crise climática passou de um alerta longínquo para uma realidade diária. E a inteligência artificial avançou a uma velocidade que apanhou de surpresa até mesmo aqueles que a criaram", apontou.

"Não são crises isoladas. São capítulos da mesma história. A história do poder. Quem o detém. A quem é negado. Como é utilizado. E como está a mudar", acrescentou o líder da ONU.

A cerca de três meses de deixar a liderança das Nações Unidas, Guterres apontou críticas à forma como o poder está a ser remodelado, em que novos centros de influência económica, política e tecnológica emergiram entre Estados, mas em que se registou também uma extraordinária transferência de poder dos Governos para um pequeno grupo de empresas privadas e particulares.

"O seu alcance estende-se agora pela política, economia, fluxos de informação, desenvolvimento tecnológico e o espaço cívico de que as sociedades dependem", afirmou, sobre o poder detidos por empresários.

Observou ainda que os humanos estão cada vez mais a entregar poder às máquinas, "com agentes de inteligência artificial descontrolados" e "armas autónomas letais que passaram da ficção científica para a realidade militar".

No entanto, apesar das drásticas mudanças, considerou que as instituições e sistemas de governação global continuam a refletir as realidades de poder e os interesses de uma época "em grande parte passada".

"Este é o desafio crucial que enfrentamos. No preciso momento em que a humanidade enfrenta uma convergência de ameaças sem precedentes, os nossos mecanismos de ação coletiva estão sob crescente pressão", declarou.

Na sede da ONU, em Nova Iorque, o antigo primeiro-ministro de Portugal indicou que caminhar para um mundo multipolar é um movimento irreversível, mas apelou a que seja uma multipolaridade em rede, com um mundo construído sobre a interdependência "e sustentado por uma densa teia de ligações económicas, políticas, sociais e tecnológicas".

Um mundo assim, na visão do líder da ONU, pode ajudar a evitar tendências hegemónicas e aquilo a que chamou de "a Grande Fratura", ou seja, a divisão do mundo em dois blocos rivais com sistemas económicos, tecnológicos e de segurança separados.

"A construção deste futuro começa com o reconhecimento, especialmente por parte das superpotências, de que o seu poder não é tão super. O seu poder tem limites", observou.

Para isso, sustentou que os países não terão de começar do zero, uma vez que têm a Carta das Nações Unidas como uma base sólida.

"Decisões de vida ou morte não podem ser entregues à IA"

António Guterres também que decisões de vida ou morte não devem ser entregues à inteligência artificial, apelando a que esta tecnologia seja governada antes que passe a governar a Humanidade.

Num segmento do seu discurso totalmente dedicado à inteligência artificial (IA), perante dezenas de chefes de Estado e de Governo em Nova Iorque, Guterres sublinhou que os executivos com maiores capacidades nesta área têm uma responsabilidade acrescida perante a humanidade.

O líder da ONU advertiu para os perigos da tecnologia sem responsabilidade, da capacidade sem supervisão e da tomada de decisões sem transparência.

"Este perigo não pode ser minimizado. Os próprios programadores que constroem estes sistemas estão agora a fazer soar o alarme", disse, ao recordar os alertas recentes deixados pela indústria de IA, que defendeu limites ao desenvolvimento de ponta e advertiu para os perigos do ritmo acelerado a que esta tecnologia se está a desenvolver.

No debate anual da Assembleia-Geral da ONU, Guterres frisou que o primeiro dever de um Governo é proteger o seu povo e, nesse sentido, os executivos devem assumir responsabilidades face aos perigos resultantes da IA.

"Os Governos com as maiores capacidades em IA têm as maiores responsabilidades para com a humanidade. (...) Os países que lideram esta revolução tecnológica devem partilhar informação sobre os riscos emergentes para a segurança. Cooperar nos testes e avaliações. E trabalhar em prol de salvaguardas comuns que nos protejam a todos", apelou.

"Governar a inteligência artificial antes que ela nos governe", sublinhou.

O antigo primeiro-ministro português recordou que, num momento crucial da Guerra Fria, os rivais estratégicos reconheceram a necessidade de gerir riscos existenciais partilhados e construíram mecanismos para reduzir mal-entendidos, gerir a escalada e prevenir catástrofes.

"A inteligência artificial exige a mesma clareza de propósito e sentido de urgência", insistiu, instando ao estabelecimento de canais de diálogo, transparência, confiança e cooperação.

"Não apesar da rivalidade geopolítica, mas precisamente por causa dela", disse.

A coordenação global é indispensável, avaliou Guterres, frisando que só há um lugar onde cada país tem voz na construção do futuro comum: As Nações Unidas.

Com base nos esforços que estão a ser desenvolvidos pela ONU no domínio da IA, o secretário-geral pediu que se avance, nomeadamente na promoção de salvaguardas adicionais para lidar com os riscos.

Defendeu igualmente uma "Estrutura Multilateral de Gestão de Riscos de IA", apoiada por uma supervisão fiável e independente.

"A inteligência artificial deve ser moldada pela humanidade, com a humanidade e para toda a humanidade. E, ao enfrentarmos os desafios que temos pela frente, não devemos recuar em dois princípios fundamentais", disse.

"Digamos em uníssono: As crianças nunca se devem tornar cobaias para sistemas não regulamentados. E que nos comprometamos a nunca entregar as decisões de vida ou de morte às máquinas. Os robôs assassinos não devem ter lugar no nosso futuro", acrescentou.

Os alertas de Guterres surgem num momento de crescente debate internacional sobre a necessidade de estabelecer mecanismos de supervisão para uma tecnologia cujo rápido desenvolvimento, segundo os seus defensores, pode oferecer benefícios económicos e científicos significativos, mas que também acarreta riscos de segurança se não for devidamente gerida.

"Desigualdades e crise climática são entraves ao desenvolvimento"

Noutra área do seu discurso, António Guterres, pontou o agravamento das desigualdades e da crise climática como fortes obstáculos ao desenvolvimento, defendendo reformas e uma resposta internacional coletiva capaz de enfrentar estes desafios.

Guterres considerou que as desigualdades não devem ser encaradas apenas como um problema económico, mas como uma questão de poder, relacionada com o acesso às oportunidades, aos recursos e à participação nas decisões.

O chefe da ONU sublinhou ainda que a humanidade nunca teve tanta riqueza, conhecimento e capacidade tecnológica, mas que, para milhões de pessoas, o progresso continua fora do alcance.

Segundo o secretário-geral, enquanto algumas populações beneficiam da prosperidade e da globalização, outras enfrentam exclusão e receiam que o avanço tecnológico ameace os seus meios de subsistência.

O antigo primeiro-ministro português alertou ainda para o facto de milhares de milhões de pessoas continuarem privadas de necessidades básicas.

Destacou particularmente as desigualdades do sistema financeiro internacional, defendendo que nenhum país deve ficar privado de um futuro sustentável por se encontrar no lado mais desfavorecido.

Nesse contexto, defendeu uma reforma da arquitetura financeira internacional, incluindo um alívio da dívida mais rápido, eficaz e justo, bancos multilaterais de desenvolvimento com maior capacidade de financiamento e uma utilização dos direitos de saque especiais em benefício dos países que mais necessitam.

Guterres destacou também a desigualdade entre homens e mulheres como "a mais universal" das formas de desigualdade, alertando que mulheres e raparigas continuam a enfrentar discriminação, violência, exclusão e abusos.

Segundo o secretário-geral, os direitos das mulheres estão a recuar em várias partes do mundo, enquanto as suas vozes são silenciadas, os seus corpos são usados como campos de batalha e as suas liberdades são transformadas em moeda de troca.

Guterres associou a igualdade de género a sociedades mais estáveis e a instituições mais eficazes, destacando, neste contexto, o percurso das Nações Unidas.

"Tenho o orgulho de vos informar hoje que as Nações Unidas alcançaram a paridade de género pela primeira vez na história a todos os níveis da alta direção, em todas as sedes e entre o pessoal profissional", anunciou.

"A igualdade não é um sonho. É uma decisão", acrescentou, defendendo que essa mudança também deve abranger Governos, parlamentos, empresas, processos de paz e a própria Assembleia-Geral.

Numa outra frente, Guterres apresentou a crise climática como "o desequilíbrio de poder intergeracional mais profundo de todos", argumentando que uma geração está a consumir o futuro da seguinte.

O secretário-geral, que teve a crise climática como uma das prioridades do seu mandato, alertou que os impactos da crise climática estão a chegar mais cedo, com maior intensidade e a atingir áreas mais vastas do que muitos antecipavam.

Guterres defendeu que as energias renováveis são atualmente a fonte mais barata de nova eletricidade em grande parte do mundo e constituem o caminho mais viável para garantir segurança e independência energética e um crescimento sustentável.

Nesse sentido, apelou aos Governos para que adotem planos nacionais de transição para abandonar os combustíveis fósseis, alinhados com o objetivo de limitar o aquecimento a 1,5 graus, com calendários claros e proteção para os trabalhadores e comunidades afetados.

Criticou ainda a influência da indústria dos combustíveis fósseis, defendendo que os poluidores devem pagar mais pelos danos provocados e apelou a Governos, cidades, sociedade civil e cidadãos para continuarem a exigir responsabilidades.