O teste final só deverá acontecer a 25, mas o primeiro embate é já a 04 de Outubro, nas eleições gerais brasileiras, onde Flávio Bolsonaro assume as dores do pai, Jair, no combate com Lula, o eterno inimigo da família que representa a direita radical brasileira.

O Brasil é hoje o último grande país da América do Sul com um Presidente de esquerda e governado sob a matriz trabalhista, depois de Colômbia e Peru terem mergulhado na onda de direita que varre aquela continente.

Se Lula cair, cairá o Brasil nas malhas do radicalismo de extrema-direita, e com ele uma região de extrema relevância para o xadrez global, desde logo porque dificilmente o gigante latino-americano se manterá nos BRICS com Rússia e China se a família Bolsonaro regressar ao poder.

E com essa mudança, Brasília ganhará uma ainda mais forte inclinação para os lados de Washington onde reina o igualmente radical de direita Donald Trump, com consequências que são impossíveis de imaginar para já.

Face a este contexto, vários analistas ouvidos pela Lusa consideram que se está perante um teste para a esquerda na América do Sul.

Oliver Stuenkel, professor de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas e investigador do Carnegie Endowment, é um dos ouvidos pela agência portuguesa de notícias, a quem lembrou que "com Colômbia e Peru mudando de campo em junho, o Brasil passou a ser o último grande país sul-americano governado pela esquerda".

Para Stuenkel, contudo, o atual avanço conservador no continente não representa necessariamente uma mudança permanente no posicionamento ideológico dos eleitores latino-americanos, uma vez que a região "se move como pêndulo" entre governos de esquerda e direita.

A mesma ressalva é feita, ainda à Lusa, pelo cientista político André Luiz Coelho, vice-diretor da Escola de Ciência Política da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), que considera prematuro falar numa verdadeira "onda azul" na América Latina.

Segundo Coelho, o que se observa é uma sucessão de vitórias da direita e centro-direita, mas também uma alternância crescente entre governos e oposição, com dificuldades para os Presidentes elegerem sucessores.

Stuenkel atribui parte desse movimento ao descontentamento provocado pelo custo de governar no período posterior à pandemia da covid-19, marcado por inflação, crescimento fraco e, sobretudo, pela criminalidade organizada.

"Onde a direita venceu, venceu falando de segurança", afirmou o investigador, para quem o atual movimento poderá voltar a inverter-se caso os novos governos não consigam responder aos problemas que herdaram.

Nesse cenário, o Presidente brasileiro, Lula da Silva, que concorre à reeleição, ocupa uma posição particular, por ser atualmente a principal referência da esquerda sul-americana, segundo os dois especialistas.

"Não há na esquerda da região outra figura com trânsito comparável", afirmou Stuenkel, acrescentando que o Partido dos Trabalhadores (PT) não produziu um sucessor com dimensão semelhante à de Lula.

Coelho considera o Presidente brasileiro "o principal líder de esquerda na América Latina" e um dos principais líderes da esquerda no mundo, destacando o peso histórico de uma trajetória política iniciada no movimento sindical e ligada à construção do PT.

A direita brasileira, por outro lado, chega à disputa presidencial fragmentada entre diferentes candidaturas, embora os especialistas identifiquem convergências em temas como segurança pública e a reprodução de propostas desenvolvidas por governos conservadores da região.

"São ideias propagadas pela extrema-direita latino-americana que tiveram sucesso eleitoral, e os candidatos de direita e extrema-direita buscaram reproduzir essas ideias em seus países", afirmou Coelho, que coordena o Grupo de Relações Internacionais e Sul Global da Unirio.

El Salvador e Argentina aparecem, nesse contexto, como referências distintas, com o primeiro associado ao modelo de segurança e encarceramento defendido pelo Presidente Nayib Bukele e o segundo ao programa económico ultraliberal de Javier Milei.

Essa plataforma eleitoral é incorporada por Flávio Bolsonaro, principal adversário de Lula na disputa ao Palácio do Planalto, que tem grande simpatia pelas ideias de Milei e Bukele.

Para Stuenkel, a disputa brasileira não deve, contudo, ser lida apenas como uma guinada à direita, uma vez que o país continua profundamente dividido no plano presidencial, apesar do avanço conservador verificado no legislativo.

Além da dinâmica interna, avaliam os especialistas, a eleição brasileira terá uma dimensão internacional, num momento de crescente disputa entre diferentes projetos políticos e de maior envolvimento dos Estados Unidos na política latino-americana.

Nas eleições de 04 de outubro, além do Presidente do Brasil, numa luta que se avizinha ser Lula da Silva contra Flávio Bolsonaro, os brasileiros vão eleger os 513 membros da Câmara dos Deputados e renovar dois terços dos 81 lugares do Senado.

Com as sondagens a mostrarem uma luta acirrada entre o atual Presidente brasileiro, Lula da Silva, e o filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro, o senador Flávio Bolsonaro, caso nenhum candidato consiga alcançar pelo menos 50% dos votos, os eleitores serão chamados novamente às urnas para uma segunda volta, agendada para 25 de outubro.