Só após duas longas horas, embora este dado seja difícil de garantir, visto que as autoridades penitenciárias do Tenessee se viram obrigadas a retirar da sala os jornalistas que assistiam à execução, é que Gail Pike foi levada para um hospital em profunda e excruciante agonia tendo sobrevivido a duas doses de pentabarbital, um poderoso fármaco de efeito letal.
Como se pode verificar ao ler a imprensa nos EUA mais liberal, este momento, raro, apenas inédito ao envolver uma mulher no estado do Tennessee, está a provocar uma nova discussão sobre a pena de morte, até porque, além deste momento de puro terror, o caso de Christa Gail Pike tem outros condimentos que ferem a sensibilidade das pessoas normais.
É que a condenação à morte ocorreu há 30 anos, quando tinha 18 anos, e, com um namorado, de 17, então condenado a prisão perpétua, matou um amigo de ambos, menor, aconteceu, soube-se depois, quando Gail sofria de uma doença mental séria.
A própria viria a confessar depois que só anos passados começou a perceber a dimensão do que tinha feito e lhe estava a acontecer, sendo que isso não demoveu os juízes locais e até do Supremo Tribunal para reduzir a gravidade da sentença, mantendo-a no corredor da morte ao longo de três décadas.
Mas este momento, o da execução, perante dezenas de pessoas, entre estas sete jornalistas, poderá agora mudar a sensibilidade no país perante a pena de morte, porque o homicídio foi conduzido sob uma doença mental medicamente provada e porque a execução redundou numa demonstração de desumanidade nunca antes vista.
Após a primeira injecção de pentobarbital, um poderoso sedativo comum em vários estados para este fim, Gail Pike mante-se a respirar por algum tempo, sendo-lhe, como relataram depois os jornalistas presentes, uma segunda injecção, que deveria ser mais que suficiente para lhe provocar a morte.
Não foi assim e, ao fim de duas longas horas de excruciante agonia, Christa Gail Pike ainda dava sinais de vida, quando os jornalistas foram expulsos da sala, sabendo-se depois que as autoridades locais optaram por enviar a condenada para um hospital fora do sistema penitenciário.
Para já, Christa não voltará a ser sujeita a este procedimento nos próximos meses, porque o governador do Tennessee, Bill Lee, suspendeu todas as execuções até 2027, depois deste episódio que teve lugar na quarta-feira, 30 de Setembro, estando agora a enfrentar uma nova e reforçada ofensiva dos grupos que combatem a pena de morte nos EUA.
"Executar uma sentença legal é uma responsabilidade das mais sérias do Estado e tem de ser cumprida de forma legal, constitucional e eficaz", afirmou Bill Lee, citado pelos media norte-americanos.
E, segundo foi avançado horas depois, os procedimentos legais para a execução de Christa foram todos cumpridos, o que, apontam alguns defensores do fim da pena de morte nos EUA, prova que se trata de um sistema desumano, brutal e inaceitável em pleno século XXI.
Esse protocolo admite uma segunda injecção mas não acrescenta nada se ainda assim o condenado se mantiver vivo, o que deixa em aberto agora uma nova janela de oportunidade para a defesa de Gail Pike, que pode tentar anular a sentença por ter sido... já cumprida.
Já com Christa no hospital, os seus advogados de Pike apresentaram um pedido de emergência ao Supremo Tribunal para suspender a execução, apontando que estava a ser sujeita a uma "agonia desnecessária" cruel e invulgar.
Desde que saiu para ser vista num hospital fora do sistema penitenciário, o caso de Gail Pike gerou uma acesa e renovada luta entre a defesa e a acusação, com ambos os lados a procurarem fazer sobressair os seus argumentos em defesa da execução e da sua anulação.
Como relatam os media, Gail Pike não nega ter cometido o homicídio, mas os seus apoiantes defendem que o Estado deveria ter em consideração a sua idade na altura, a doença mental e as alegações de abusos sexuais graves.
"É inconcebível que, no século XXI, o sistema de justiça criminal esteja prestes a executar uma sobrevivente de violação e abuso sexual infantil cujo júri nunca teve a oportunidade de considerar esses factos ao avaliar a culpabilidade moral da arguida", escreveram os seus advogados num documento apresentado em tribunal.
Uma coisa é agora certa, não está apenas relançada a discussão sobre as leis selvagens nos EUA que ainda permitem a pena de morte, como este caso já ganhou notoriedade histórica e vai obrigar o Supremo Tribunal a pronunciar-se agora com o foco mediático apontado para as penas dos nove juízes que integram o órgão máximo da justiça nos EUA.
Em todo o mundo ainda existem 54 países com pena de morte legalmente permitida e 30 destes em África, sendo que o Egipto, o Sudão e o Sudão do Sul são aqueles onde esta pena é executada com maior regularidade.
