A base militar de Fairford, da Força Aérea do Reino Unido, na região de Gloucestershire, é uma das mais importantes das ilhas britânicas e é nela que os Estados Unidos da América têm o seu centro operacional para organizar operações militares no Médio Oriente.

Esta base de Fairford tem sido usada para ataques contra o Irão nos últimos sete meses, desde que EUA e Israel lançaram uma guerra contra o Irão a 28 de Fevereiro, e nela estão estacionados em permanência vários aviões de guerra norte-americanos.

Porém, nas várias declarações e comunicados da polícia britânica é notório o cuidado na escolha das palavras, ao contrário do que se observa nos media britânicos, onde a narrativa cresce em torno de suspeitas sobre ligações entre este episódio e forças estrangeiras, que só podem ser "coladas" ao Irão.

É que, apesar desse guião também ser observado nos media ocidentais, a origem russa dos "terroristas" não tem lastro porque Moscovo e Washington estão em processo de realinhamento diplomático e o Kremlin não iria colocar esse processo em causa.

Isso, devido à presença de aviões norte-americanos na base de Fairford, porque no que diz respeito ao Reino Unido, um dos campeões europeus do empenho na continuidade da guerra na Ucrânia para "castigar" a Rússia no campo de batalha, o Kremlin tem mostrado forte incómodo e até ameaçado retaliar contra Londres.

Mas, se se observar com minúcia a comunicação da polícia britânica sobre este episódio, embora não exclua essa possibilidade, um ataque terrorista com este enquadramento está longe de ser assumido como principal linha da investigação em curso, até pelas pontas soltas que ostenta.

Até porque, mesmo que a situação seja potencialmente catastrófica, a descrição dos factos até agora conhecidos, deixam mais dúvidas que certezas sobre o que realmente estava a acontecer na altura das detenções, como a ausência de uma explicação para o facto de as três carrinhas brancas (ver fotografia) terem sido encontradas a bloquear a passagem numa estrada que, apesar de rural, teria de, forçosasmente, gerar suspeitas.

Ou ainda o facto de, mais de 24 horas após as detenções e as viaturas terem sido escrutinadas por equipas de especialistas, nada ter sido avançado sobre a carga que transportavam, incluindo os explosivos que, nalguns media, são dados como certos apesar de a polícia mostrar cuidados redobrados sobre o que tem em mãos, o que está longe de confirmar tal possibilidade.

Segundo uma síntese dos relatos nos media britânicos, pouco depois da meia-noite de Sábado, 26, uma habitante da aldeia que dá o nome à base, quando se dirigia para casa, deparou-se com três carrinhas brancas, todas parecidas, a bloquear a estrada rural.

A mulher fez meia-volta e telefonou à polícia de Gloucestershire, que enviou meios para averiguar, detendo cinco indivíduos no local, que, como notava ainda no Domingo o analista Tiago André Lopes, na CNN Portugal, a partir das fotos deles divulgadas, são claramente de origem europeia e aparentemente britânicos.

Media como a BBC ou The Telegraph estão, desde que se soube destas detenções, a pressionar na tese de terrorismo de origem externa, mas a polícia insiste que essa não é a única linha de investigação aberta.

Entretanto, as autoridades britânicas enviaram para o local dezenas de meios, incluindo robôs para detonar explosivos à distância, o que ainda não aconteceu mais de 24 horas após o incidente, e quase 100 habitações foram evacuadas das localidades em redor da base, sendo que esta também observou alteração de funcionamento.

A ligação iraniana a este episódio não pode ser afastada totalmente porque a própria Guarda Revolucionária do Irão (IRGC), ao longo destes meses de guerra, fez declarações públicas admitindo poder estar a planear operações no estrangeiro para se proteger dos ataques norte-americanos em casa.

E o assunto ganhou tracção com o Presidente dos EUA, Donald Trump, numa declaração pouco consistente, onde disse que não sabia bem que polícias estiveram envolvidas nas investigações, mas garantiu que Washington estava a par de tudo e contribuiu para o desmantelamento deste "célula".

E também Londres, segundo The Guardian, estava a seguir com atenção estes indivíduos, no âmbito de um trabalho de intelligentsia visando impedir um ataque à base aérea da RAF em Fairford.

Mas, com a recorrência com que em território europeu se têm visto as famosas "operações de falsa bandeira", em que uma das partes em conflito monta acontecimentos para poder acusar o adversário, esta emerge igualmente como potencialmente ser um desses cenários.

O mais recente, e mais mediático, foi o que teve lugar no aeroporto de Leipzig, na Alemanha, a algumas semanas, antes das eleições regionais em duas regiões alemãs, quando o Governo do chanceler Friedrich Merz acusou a Rússia de ter tentado fazer explodir um drone contra um avião de carga ucraniano estacionado naquele aeroporto.

Essas imputações nunca foram provadas e, depois de páginas e ecrãs inundados por este assunto nos media ocidentais, passadas as eleições, onde a CDU de Merz foi historicamente derrotada e humilhada pelo partido fascista Alternativa para a Alemanha (AfD), a polícia não voltou a falar do assunto e este esfumou-se totalmente do espaço mediático.