Há pouco mais de uma semana, a notícia, de dois jornalistas do jornal Haaretz, o mais prestigiado media em Israel, tinha caído como uma bomba em Telavive, onde Benjamin Netanyahu se prepara para enfrentar eleições que o podem derrubar do poder e atirar para as malhas da justiça.

Se, até aqui, o líder do Likud, cujo Governo está na corda bamba devido à dependência parlamentar de dois pequenos e extremistas partidos sionistas, que pugnam pela limpeza étnica na Palestina abertamente, agora, com esta denúncia, o seu destino político começa a parecer que está desastrosamente escrito nas estrelas.

Esta ida a Abu Dhabi pedir ao Presidente dos Emiratos Árabes Unidos (EUA), Mohamed bin Zayed, para negar tê-lo informado da iminência do ataque do Hamas e outros grupos de resistência palestiniana, é uma tentativa aflita para reduzir os danos que essa informação vai, inevitavelmente, gerar na sua corrida eleitoral de 27 de Outubro.

Além disso, se se confirmar a denúncia do Haaretz há duas semanas, e agora esta notícia da Associated Press, de que Netanyahu foi a Abu Dhabi falar de urgência, neste Domingo, 27, com bin Zayed, então o seu problema cresce perante a justiça, onde já sabe que, no dia em que deixar o cargo, terá de responder por crimes graves de corrupção e branqueamento de capitais.

Ao que agora pode acrescer outros em resultado desta denúncia, de que soube do ataque de 07 de Outubro mas não avisou as forças de segurança, preferindo que este tivesse lugar de forma a poder justificar uma intervenção profunda em Gaza, como lhe estava a ser exigido há muito pelos líderes dos partidos radicais que estão em coligação no poder a partir de um entendimento no Parlamento israelita.

Este esforço de Benjamin Netanyahu justifica-se agora pela proximidade do período eleitoral, não pelo facto de estar perante esta exposição do seu "crime", se provado, de deixar acontecer o ataque de 2023 (ver links em baixo), porque logo após o 07 de Outubro a secreta egípcia divulgou que o tinha avisado para o que estava a ser preparado em Gaza.

Além disso, como o Novo Jornal também noticiava em Junho de 2024, o chefe do Shin Bet, a secreta interna israelita, anunciou a sua demissão devido aos apertos dos media para explicar tal acontecimento, ao mesmo tempo que The Times of Israel e o Haaretz noticiavam que a secção das Forças de Segurança de Israel (IDF) de Gaza tinha avisado o Gabinete do Primeiro-ministro para os preparativos do ataque em curso entre a resistência palestiniana.

Benjamin Netanyhau já mandou o seu Gabinete desmentir que tenha ido a Abu Dhabi com este propósito, o de pedir a Mohammed bin Zayed para desmentir a notícia do Haaretz de que o tinha avisado 10 dias antes dos ataques.

Mas as evidências amontoam-se e dificilmente Netanyahu passará incólume a este episódio de que tinha sido avisado daquele que foi, até hoje, um dos mais sangrentos ataques da resistência palestiniana em territórios ocupados ao longo dos mais de 80 anos.

Desde a criação do Estado de Israel em 1948, as suas fronteiras expandiram-se e multiplicaram-se várias vezes sobre territórios historicamente palestinianos e ainda hoje acontece na Cisjordânia, onde nos últimos meses a actividade dos colonos cresce à frente dos olhos do mundo.

Apesar de negar o motivo da visita a Abu Dhabi, Netanyahu confirma ter estado na capital dos EAU, embora com o objectivo de "fomentar as relações bilaterais" numa visita que demorou quatro horas e, segundo as fontes, o primeiro-ministro israelita não chegou a sair do aeroporto.

Mas se também os EAU confirmam esta deslocação apressada de Netanyahu a Abu Dhabi, o Governo de Mohammed bin Zayed não foi tão claro sobre a notícia do aviso prévio a Telavive.

O ministro dos Negócios Estrangeiros emirati, Abdullah al-Nahyan, segundo os media internacionais, confrontado com a questão de ser ou não verdade que o seu Presidente avisou Netanyahu, respondeu apenas que não é prática sua comentar conversas entre líderes governamentais.

Recorde-se que após o ataque das Brigadas al Aqsa, o braço armado do Hamas, e mais cerca de 10 grupos de resistência à ocupação israelita, a 07 de Outubro de 2023, onde foram mortas 1200 pessoas, quase todos civis, Benjamin Netanyhau assumiu o comando da resposta e montou uma poderosa máquina militar com mais de 350 mil soldados.

Ao longo de dias, próximo da fronteira com Gaza, milhares de carros de combate foram-se alinhando, e centenas de aviões de guerra, com mísseis e bombas pesadas, foram preparados para uma gigantesca invasão do território.

Desde então, Gaza, com 365 kms2, 2,3 milhões de habitantes e uma das maiores densidades populacionais do mundo, foi arrasada, com mais de 80% dos seus edifícios reduzidos a pó, mais de 75 mil mortos e 200 mil feridos, com um bloqueio férreo a alimentos, medicamentos, combustíveis, água e energia.

Esta situação configurou motivos suficientes para um grupo de países, com a África do Sul à frente, avançar com um processo de genocídio no Tribunal de Justiça Internacional (TIJ), que viu razões para apontar fortes indícios de crimes contra a Humanidade e genocídio.

Face a essa conclusão, Benjamin Netanyhau é uma das figuras do Governo israelita que tem hoje um mandado de captura internacional emitido pelo Tribunal Penal Internacional (TPI), que, com o TIJ, tem processos de averiguação e investigação em curso para concluir uma acusação de genocídio contra o Estado de Israel.

Tudo isto é negado por Telavive e já na semana passada, o primeiro-ministro israelita, na 81ª Assembleia-Geral da ONU, em Nova Iorque, acusou todos aqueles que falam de genocídio em Gaza de "cobardes morais" porque não percebem que é povo judeu de Israel que está a ser perseguido e atacado pelos palestinianos há décadas na "terra prometida" ao povo eleito.