Como já sucedeu noutras disputas eleitorais, Netanyahu sabe que em Israel tem a vitória eleitoral mais próxima com uma guerra a decorrer, e desta feita procurou insistentemente que o seu amigo, e apoiante declarado, Donald Trump, lhe fizesse a vontade com uma nova vaga de mísseis atirados contra o Irão.

O problema do israelita é que, numa coincidência histórica rara, que as suas hostes não conseguiram evitar, as eleições em Israel vão ter lugar a apenas uma semana das eleições intercalares nos EUA, onde os interesses de ambos sobre a guerra no Golfo Pérsico estão em lados opostos.

O que pode ser o golpe fatal nas aspirações de Benjamin Netanyahu, porque, apesar de Trump ter anunciado o seu apoio "oficial" ao primeiro-ministro israelita para as eleições desta semana, um ataque ao Irão seria, ao mesmo tempo, o melhor presente eleitoral ao "amigo" de Telavive, que não deverá acontecer porque seria um pesadelo interno para o seu Partido Republicano.

É que, como nunca aconteceu antes, a coincidência temporal das eleições nos EUA e em Israel colocou Trump e Netanyahu com interesses eleitorais literalmente opostos quando se trata de decidir um ataque ao Irão, mas, com o histórico das mudanças de ideias do norte-americano à "velocidade da luz", e com as suspeitas, publicamente discutidas em Washington, que existe algum tipo de "pressão anormal", de que pode estar a ser sujeito pelo lobby israelita, este cenário pode sofrer mudanças a qualquer momento.

E o israelita anda a implorar ao norte-americano há semanas, tanto em privado como em declarações públicas, para lançar um ataque, ao qual se juntaria de imediato Israel, alegando que Teerão - o que se sabe comprovadamente não ser verdade - está prestes a obter uma arma nuclear, como ele insiste há duas décadas sem o conseguir provar.

É que um ataque norte-americano daria a Netanyahu o lastro eleitoral que perdeu e as sondagens demonstram-no apontando-lhe uma derrota clamorosa, que não significa apenas perder o cargo, levará, igualmente, à perda da sua liberdade devido aos processos em tribunal, que tem adiado devido ao cargo, onde responde por crimes graves de corrupção, fraude e abuso de poder.

Mas, ao mesmo tempo, o reatar da guerra, seria a "sentença de morte" para as aspirações eleitorais de Trump, devido aos seus efeitos na economia, através da inflação e do preço dos combustíveis - os dois factores mais relevantes no momento de decidir o voto entre os eleitores dos EUA.

É que, se perder, como todas as sondagens apontam, a maioria nas duas cãmaras do Congresso, à sua espera estarão sucessivos processos de destituição (impeachment), como a oposição democrata já anunciou.

E a sua única hipótese de conseguir sair ileso dessa "guerra" é não perder as duas câmaras, mantendo o Senado, onde poderá travar qualquer impeachment, mesmo perdendo a Câmara dos Representantes, o que só se vê poder acontecer se não aceitar o "convite" de Benjamin Netanyahu para ordenar o ataque ao Irão.

E os mercados parecem estar alinhados com Trump, porque este Domingo, 25, o Presidente norte-americano deu a entender que não haverá um ataque contra o Irão até às eleições em Israel, embora com esta frase susceptível de dupla interpretação: "Hoje não haverá ataque!", Haverá esta segunda-feira, 26?

Provavelmente, não, porque seria catastrófico para as suas aspirações eleitorais devido ao impacto de uma tal decisão nos mercados energéticos globais, que, ao contrário, estão hoje a mostrar sinais de alívio da pressão gerada pela iminência de um ataque, com o barril a cair quase 2% perto das 09:50, hora de Luanda.

Além disso, o que está a provocar eventos de fúria em Benjamin Netanyahu, que alguns analistas admitem poder levá-lo a avançar sozinho contra Teerão, como fez em Junho de 2025, o Irão anunciou que vai receber delegações da Arábia Saudita, Turquia e Paquistão na capital para "discutir questões de segurança regionais", incluindo também a guerra entre sauditas e a Ansar Allah, do Iémen, aliados dos iranianos. (ver links em baixo)

Quase em simultâneo, mostrando que não se trata de coincidência, o ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Abbas Araghchi, veio dizer publicamente que o Irão está totalmente disponível para discutir com todos os países da região questões de segurança que reflictam os seus interesses.

"Acreditamos numa evolução positiva para a região que todos os países considerem a criação de mecanismos de segurança baseados nos seus interesses e preocupações", acrescentou Esmaeil Baghaei, presidente do Parlamento e chefe da equipa negocial do Irão, que acrescentou estar Teerão ciente de que a segurança regional "só pode ser alcançada garantindo os interesses e respondendo às preocupações de todos".

Esta movimentação diplomática regional, que escapa claramente a Telavive e, provavelmente, não é controlada a partir de Washington, tem como protagonistas o Irão e a coligação criada recentemente sob a designação "Pacto de Meca", com sauditas, turcos e paquistaneses, o que dá forte lastro diplomático a Teerão.

E é de tal modo assim que, depois de Netanyahu, e dos seus ministros mais radicais, como Bezalel Smotrich (Finanças) ou Bem Gvir (Segurança Interna), terem vindo defender acerrimamente um ataque contra o Irão alegando falsamente que este país corre os últimos metros para obter uma arma nuclear, o seu ministro da Defesa já teve de vir colocar água na fervura.

Israel Katz, em declarações citadas pela imprensa israelita, veio garantir que não existem planos para qualquer ataque ao Irão antes das eleições e também garantiu, contrariando uma explosiva notícia do Canal 12, de uma "confrontação escaldante" entre o primeiro-ministro e o seu CEMGFA, com o comandante militar a, alegadamente, recusar uma ordem para atacar o Irão.

Mas é visto como claramente mais verosímil que Netanyhau, porque o afirmou publicamente, defendia um ataque a Teerão, apesar de os iranianos, como já mostram serem capazes, terem avisado que desta vez Israel sofreria uma resposta histórica e nunca vista.

Além disso, sabe-se, por ser igualmente público, que Netanyahu tem guerras abertas internamente com as chefias das secretas israelitas, nomeadamente o Shin Bet (interna), a propósito dos ataques de 07 de Outubro de 2023, que se sabe agora também que o primeiro-ministro foi avisado para ele com semanas de antecipação e optou por nada fazer.

Isso, para ter uma justificação para lançar a ofensiva sobre Gaza que lhe era exigida por Bem Gvir e Smotrich, sob chantagem de fazerem cair o Governo, que depende dos seus deputados no Parlamento para o Likud, o partido de Netanyahu, poder formar e manter o Governo.