Históricos da música estão a desaparecer e a empobrecer a cultura angolana por falta de "palco"

Ernesto GouveiaPublicado 25/09/2016 13:12:00

Faltam palcos para alguns dos músicos históricos de Angola. Estrelas outrora, muitos são hoje apenas vagas memórias numa sociedade que se habituou à música de ouvir hoje e esquecer amanhã. A reforma forçada, ou a opção por outro ganha pão, a que muitos foram obrigados, retira alicerces à cultura angolana. E nada é sólido sem alicerces.

A situação em que se encontram os músicos "desaparecidos", qual história de final aberto cujos protagonistas reaparecem momentos depois, faz com que muitos mantenham viva a esperança de regresso, mas alguns acabaram definitivamente por optar pela reforma forçada.

E, apesar de se desconhecer o paradeiro de muitos deles, só voltam a ser relembrados quando as suas músicas são tocadas, com alguma raridade e sem um padrão regular, ou quando são interpretadas por artistas da nova geração.

Outros eventos relegaram músicos angolanos ao esquecimento. Por exemplo, logo após o desaparecimento, entre 1975 e 1976, da Fábrica de Discos de Angola (FA-DIANG) e da Companhia de Discos de Angola (CDA), verificou-se um declínio na produção discográfica nacional, cenário que viria a ser alterado quase 20 anos depois, em 1997. Para trás ficaram, então, vários nomes, sem biografia nem discografia que servissem de registos históricos dos factos culturais que marcaram o país.

A revitalização da indústria fonográfica e a dinâmica dos novos tempos impuseram também um conflito de gerações. Por um lado, acabaram por trazer vários músicos da nova geração à inevitável popularidade, já que esses vinham beneficiando das ferramentas que os artistas da primeira linha da música angolana não tinham ao seu dispor; e, por outro, fizeram "desaparecer" do cenário artístico muitos nomes antigos. Estes são vistos apenas em eventos isolados, por trás das cortinas, sem dar nas vistas, seja porque a velocidade dessas mudanças os impede, seja por não terem tido condições de acompanhar os novos tempos.

Para salvar a honra do convento, eventos como o Show do Mês, produzido pela Nova Energia, ou o Show de Gerações, da Guelvamos Produções, procuram em grande parte das suas realizações trazer artistas que, de há uns tempos para cá, se tinham afastado "forçadamente" dos palcos. Dos artistas já levados a esses eventos, constam Jacinto Tchipa, Augusto Chakaia, Robertinho, Sam Mangwana, Zé Kafala, Pedrito, São Mingas, Shiley, Clara Monteiro, entre outros.

Sobre o "desaparecimento" desses artistas, o presidente da Guelvamos é de opinião que esse "tem a ver com alguma falta de organização administrativa por parte desses artistas, por não terem um entidade que do agenciamentos dos mesmos". Guelmo Cruz afirma ainda que essa falta de organização leva a que "os órgãos de tutela não sejam encostados à parede", aliás, "estes pouco ou nada fazem a favor dos artistas que muito fizeram pela música nacional".

Para Yuri Simão, "a Lei devia protege-los". O director da Nova Energia defende que o novo formato da União Nacional dos Artistas e Compositores (UNAC) deve ajudar a proteger os direitos autorais desses artistas.

A envolvência da revolução

Os músicos Urbano de Castro, David Zé, Artur Nunes, nos idos anos 70, encantavam os seus admiradores, envolviam-nos nas canções, principalmente nas de cariz revolucionário, fruto da conjuntura política de então, desapareceram fisicamente, mas as suas obras são memoráveis, ainda são ouvidas, e até mesmo recriadas, sobretudo por artistas da nova geração.

A sonoridade característica leva o ouvinte a regressar àquela época, qual máquina do tempo dos cinemas, daí que há quem prefira ouvir o original.

O legado deixado por esses músicos influenciou a trajectória e o aparecimento de muitos outros, com realce para os agrupamentos musicais que se viriam a tornar nas grandes atracções dos centros recreativos.

Assim, a música popular urbana de Angola começa a traçar o seu percurso, fosse nos concertos ao vivo, fosse nas farras de quintal, ao mesmo tempo que servia de animação para os moradores dos musseques, alguns dos quais emblemáticos, como o Bairro Operário, Marçal e Rangel. E a consequência disso foi notória, uma nova realidade musical começava a ganhar força, iam surgindo artistas e espaços de recreação que proporcionam atractivos aos fins-de-semana.

Carlos Baptista, Zé do Pau, Toy Salgueiro, Zizi Mirandela, Sabu Guimarães e muitos outros eram vozes que brotaram daquele contexto de arte musical, mas a sua visibilidade e a consolidação da carreira só se firmaram nos anos 80. Ainda nos finais da década de 1990 era possível vê-los em diversas actuações e apresentação de obras, entretanto a pouca projecção e a desinformação por parte de quem apreciava o trabalhos desses artistas ditaram o desaparecimento dos mesmos.

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