Para (não) ficar tudo igual: Esperava-se que a saída de JES liderasse um processo de retirada dos chamados mais velhos

Ismael MateusPublicado 12/03/2017 11:18:00

O anúncio de retirada do presidente José Eduardo dos Santos deveria inaugurar um período de transição política mas também geracional. Do ponto de vista político era expectável que determinados comportamentos, e até políticas, fossem abandonadas.

Foto: Quintiliano dos Santos

A transição política acarreta uma mudança de estilo de governação. Neste caso, uma das medidas imediatas seria a criação da alta instância contra a corrupção que foi aprovada há mais de 20 anos pela Assembleia Nacional mas nunca vingou por conta das políticas que agora necessitam de ser derrubadas.

Mais do que criar instituições, é necessário mudar de práticas e de maneiras de gerir o país. É preciso fazer um corte com o passado, potenciando principalmente figuras sérias que não estejam ligadas à endémica corrupção do país.

Esperava-se que a saída de JES liderasse um processo de retirada dos chamados mais velhos, mas nada disso está a acontecer. Em encontros privados, muitos deles justificavam a permanência com a ideia de que isso desagradaria o chefe. Hoje, ultrapassados pelo chefe, não se dão conta de que o chefe já praticamente saiu e o tal argumento que usavam entrou numa profunda derrocada.

A transição geracional que sempre defendemos não é etária e por isso não defendemos o afastamento de pessoas com mais de 70 anos pelos simples facto de serem setentões. A transição geracional refere-se principalmente a pessoas que, no parlamento, nas forças armadas, no governo central e provincial ou na presidência da república, estão há muitos anos nos cargos e quase todas não têm mais para oferecer ao país.

Deveriam voluntariamente ir para casa. Cabe aos novos dirigentes do MPLA ter coragem para lhes propor uma saída dialogada, convencê-los de que existe um espaço fora da vida política activa. Um papel importante deve ser exercido pelas suas famílias que devem aconselhar esses mais velhos a saírem pelo próprio pé.

As famílias devem exercer um papel central evitando que os seus entes queridos façam a figura dos mais velhos babões a dormir nos debates da Assembleia ou nas outras reuniões e preparando uma saída honrosa.

A indicação de João Lourenço e Bornito de Sousa tem o mérito de fazer renascer uma certa esperança de que possamos ter um país normal.

A saída de JES é unicamente o ponto de partida pelo que agora, é necessário que globalmente se mostrem sinais de mudança, diríamos profunda mudança, em matéria de transição política. Essa tem de ser uma das principais tarefas dos futuros dirigentes do país, nomeadamente a gestão da transição seja geracional seja politica por via do diálogo. É preciso oferecer garantias a esses mais velhos de que saindo pelo próprio pé continuarão a ser tratados com dignidade, o que na verdade é o que os mantém.

(Leia este artigo de opinião na íntegra na edição n.º473, nas bancas, e também disponível por assinatura digital, que pode pagar no MultiCaixa)

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