No país do absurdo (com a bênção da hipocrisia)

Editorial Novo JornalPublicado 17/03/2017 14:13:00

Este editorial abre destacando palavras da Dra. Teresinha Lopes, Juíza Conselheira do Tribunal Constitucional e uma das mais destacadas juristas angolanas que há décadas defende a igualdade do género. "A propósito do Código Penal: Talvez seja importante acrescentar algumas informações relativas a esta matéria: 1. A penalização do aborto consta já do código penal em vigor, herdado do colono. (Entretanto, em Portugal, já alteraram a legislação sobre essa matéria, de acordo, aliás, com a evolução mundial).

Foto: Ampe Rogério

2. No tempo do partido único, a OMA bateu-se muito pela despenalização do aborto, chegando a elaborar alguns diplomas legais, a alterar essas disposições legais.

3. O próprio Presidente do partido e da República defendeu essa reivindicação das mulheres no encerramento de um congresso da OMA.

4. Entretanto, esses projectos "perderam-se" nas gavetas de vários ministros da Saúde e da justiça.

5. Agora, temos a igreja, vários partidos e a "nova" OMA a preferirem esconder o sol com a peneira, fingindo não saber nem ver o que se passa no país.

6. Em suma, as jovens e mulheres ricas (incluindo filhas e esposas dos deputados que aprovaram a lei) continuarão a fazer abortos (sempre que precisem de fazê-lo) nas melhores clínicas, do país e do mundo, pagos a preço de ouro; e as mulheres pobres a serem humilhadas e a morrerem em lugares infectos e indignos.

7. E viva a "democracia"!!!"

Há alguns anos que fazemos um esforço considerável, porém, cada vez mais difícil, para encontrar, nas práticas políticas do Movimento Popular de Libertação de Angola, alguns dos princípios e valores que jurou defender em várias ocasiões, "para todo o sempre". Caída a máscara - que cada vez mais mostra um caminho aparentemente sem retorno -, além de se ter tornado num refúgio de um número enorme de pessoas que toda a vida combateram o próprio Movimento, a sua essência, as suas premissas teóricas e os seus primeiros vinte, trinta anos de existência, vem demonstrando ser cada vez mais um palco de defesa de interesses de classe, uma burguesia feita à pressa, desprovida de básicos compromissos humanos, porque ignorante, inculta, populista e mal formada.

A aprovação de uma lei da interrupção voluntária da gravidez que é uma fotocópia igualzinha ao pretendido pelos sectores mais retrógrados, conservadores e desumanos da Igreja Católica - basta ler o parecer da conferência episcopal... - os quais integram prelados que na sua maioria integram a facção dos que querem a todo o custo derrubar o Papa Francisco - seria a machadada final.

De quem, apresentando-se publicamente como "socialista-democrático", vai conseguindo alcançar, na maldade e numa aventura que ultrapassa já todos os limites, o mais retrógrado e o mais obsoleto dos velhos tempos que pensávamos já enterrados da longa noite colonial, para usar um chavão de então.

Muito ao gosto dos mesmos que agora, por puro despudor, por opção de classe ou simplesmente por troca de favores com a Igreja Católica, aparecem como beato(a)s disfarçado(a)s, sabendo nós quanta falta de moral e de valores cívicos cirandam por aí, debaixo de ares aparentemente - e só aparentemente - sérios.

O desrespeito, a desconsideração, a desumanização, a coisificação e a mais descarada falta de respeito para com as Mulheres correm o risco de se tornarem oficiais, no país ajudado a criar por Deolindas e Carlotas, empurradas para o baú das memórias, preferencialmente enterradas.

PS: A decisão tomada pela ZAP (acredite quem quiser...) de retirar os canais SIC Notícias e SIC Internacional, mais do que um perfeito disparate, deixa antever um desnorte preocupante e uma absoluta incapacidade para lidar com quem não é "por nós". Na cansada lógica de que "quem não é por nós é contra nós", este acto de censura é incivilizado e atrevido, como se de facto o país não fosse de todos nós. E é um sinto ma grave de uma enorme fraqueza.

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