A greve do analfabetismo - A opinião de Amadeu Batatinha

Amadeu BatatinhaPublicado 19/04/2017 11:45:00

Um dia após a ressaca do Dia da Paz, teve início uma guerra sem armas entre os lápis e as canetas, entre o giz e os apagadores. Há anos que os professores ameaçam dar início a uma greve nacional depois de muitas reclamações e apresentação, à luz da lei, do já famoso caderno reivindicativo.

Agora, as ameaças de greve passaram à realidade e a greve convocada avançou com os grevistas sem medo de "arcar com as consequências". As consequências de um salário baixo, da falta de condições de trabalho e da ausência de actualização das suas carreiras já são tão más que mais uma "consequência" individual não belisca em nada os interesses globais dos professores. É uma espécie de pensar global e agir local.

Em resposta, foram feitas ameaças de despedimentos, de descontos salariais e outras de índole mais grave, mais utilizadas durante épocas de guerra, onde quem tinha peito tinha lei. Actualmente o peito foi-se embora com a crise e o dinheiro que já era mal distribuído agora mal chega.

Todavia, as reivindicações dos professores camuflam de uma forma geral os direitos dos alunos que têm igualmente más condições de aprendizado, quer devido à falta de materiais escolares quer devido à falta de salas de aulas condignas. Há também muito maus professores que acima de tudo "desensinam" os parcos conhecimentos dos alunos.

Se por um lado durante a greve houve escolas sem professores, por outro lado, por incrível que possa parecer, há escolas sem alunos um pouco por todo o país. Infra-estruturas que foram erguidas em tempo de vacas gordas e agora que as vaquinhas emagreceram e deram lugar aos cabritinhos, onde há mais moscas que alunos.

Se também existem professores queixosos com a situação, há outros que se aproveitam da situação para encher os bolsos, principalmente durante a época das matrículas e durante as provas. Há professores que aproveitaram o encorajamento da diversificação da economia para arranjarem actividades "extra", como por exemplo a gestão de cantinas escolares, explicações rotineiras ou mini-cursos de preparação aos exames de aptidão, caça furtiva principalmente nas áreas rurais e outras mais que dependem da capacidade imaginativa de cada um.

Enquanto os professores se queixam das suas condições, os alunos não têm como se queixar dos professores, não há mecanismos apropriados que salvaguardem os alunos, não têm direito à greve e quando arranjam coragem e conseguem fazer uma reclamação ganham logo apelidos pejorativos, e quase sempre um vermelho na pauta. Situação que pode ser resolvida, posteriormente, com um saldo adequado.

Um dia os alunos vão fazer greve, até lá vamos brincando com o futuro daqueles que serão o futuro do país.

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