"Vou votar pra quê só?! No bairro tudo falta..."

Carlitoz de KambambePublicado 08/05/2017 15:43:00

Ao saber da marcação da data das eleições para 23 de Agosto de 2017, lembrei-me de uma situação ocorrida nas últimas eleições. Próximo a um dos locais de voto, estava uma senhora a vender quitutes (magoga, jinguba torrada, bombó frito e assado, banana pão assada, kitaba, micate, pilinha, pipoca, kissangua, sumo de mukua, gasosa e água), o dia todo.

Foto: Quintiliano dos Santos

No fim do dia, o responsável do posto pergunta-lhe se não entraria para votar, visto que estavam quase a encerrar as votações. A senhora responde: "Vou votar pra quê só?".

O jovem, surpreso com a resposta, insiste: "Mas a senhora sabe que o seu voto é importante, tal como de todos os outros, significam a escolha de quem irá governar o nosso país".

A senhora, sempre serena e a atender os clientes, retruca: "Mô filho, falaste bem, mas sabes que isso não é verdade! Estas só a te mentir através de quê? Os meus filhos, uns lutam para estudar, quem estudou luta para trabalhar e quem trabalha luta para comer. Assim é certo? No bairro tudo falta, luz, água, escola, hospital, polícia, bombeiro, sítio para tratar bilhete, campo para os miúdos jogarem e as crianças brincarem, estrada boa, saneamento básico, autocarro, não há recolha de lixo...mas os mosquitos continuam a nos fazer companhia, as doenças também, junto com os bandidos. Quando chove tudo vai com a chuva, ficamos sem nada, já pedimos outro sítio, mas até hoje nada, os que foram realojados moram duas famílias na mesma casa, com muitas dificuldades. Cada vez que oiço na radio nomeação, são sempre os mesmos nomes, as bolsas de estudo são sempre para as mesmas famílias, a não ser que tenhas cunha, os empregos bons também tem cunha. O engarrafamento continua em todo o lado, as gasosas que agora chamam micha também continuam. Mô filho, qual é a motivação para votar!? Das vezes que votei não vi nem senti melhoria, continuo à rasca, assim como os meus vizinhos e parentes, até o meu marido, que é do partido desde o maqui, está triste. Assim me fala ainda, vou votar ou vou vender para conseguir algo para matar o bicho da fome lá em casa, comprar os cadernos, medicamentos, bidon de água, vela e candeeiro, pagar para as crianças estudarem!?"

Após a resposta, o jovem, sem reacção, pediu apenas jinguba de 200, bombó de 150 e banana de 150, recebeu, agradeceu e voltou para o seu local de trabalho pensativo, murcho, perdeu a energia que trazia!

(Leia este texto de opinião na íntegra na edição 481 do Novo Jornal, também disponível por assinatura digital, que pode pagar no Multicaixa)

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