"Após a saída da prisão, sentia-se um frangalho, socialmente perseguido. Vivia de medos e desconfianças. Tomava antidepressivos misturados com chá de plantas angolanas. Sentia dores na zona cervical que lhe davam incómodos formigueiros nas mãos. Psicologicamente, sentia-se perturbado, como que a navegar num deserto sem luz. Caminhava pelas docas do Tejo para recuperar a saúde, a moral, e oxigenar a vontade de iniciar os estudos. Quando se apresentou à universidade já tinha perdido muitas aulas…"

Este excerto do livro da escritora luso-angolana Ana Paula de Castro conta a história de António Deus Acorda, menino negro nascido num "quimbo de Angola", que se fez homem em Portugal, para onde os pais o mandaram para estudar direito. Mas esta é também a história de muitos jovens africanos que vieram estudar para Portugal e que aqui acordaram para o facto de pertencerem a um povo colonizado. Alguns tiveram a sorte de ficar na Casa dos Estudantes do Império (CEI), instituição criada, em 1944, primeiro em Lisboa, depois em Coimbra e, finalmente, no Porto, sendo extinta em 1965. Jovens como Agostinho Neto ou Artur Pestana dos Santos, que entrou na Casa menino e ali se fez o escritor Pepetela.

Jovens que vinham com os olhos semifechados, sem consciência política e com o mundo reduzido à sua cidade natal, mas que despertaram e ganharam consciência da realidade que os cercava. Muitos foram presos, forçados ao exílio e, no "caldo" de cultura que era a Casa, começaram a cozinhar a luta pela independência dos seus países. Portugal mantinha o Império e uma sociedade amordaçada no seu vasto território. O governo de Salazar impedia a criação de universidades nas ex-colónias para controlar a formação das suas elites e trazia os estudantes africanos para a metrópole. Os jovens que chegavam eram acolhidos num espaço único para que, com maior facilidade, fossem controlados, como recordou Jorge Querido, activista cabo-verdiano e dirigente da CEI. Mas o feitiço virou- se contra o feiticeiro.

A Casa do Império voltou-se contra o império. Esta "ilha africana na avenida Duque dÁvila" tornou-se um "alfobre" de antifascistas e independentistas, que começaram a "conjugar o verdadeiro sabor da falta de respeito", nas palavras do escritor Manuel Rui Monteiro - que teve uma das intervenções mais aclamadas do dia - e que, apesar de miúdos, se atreveram a "mudar a corrente ao rio". Agostinho Neto foi um dos que por lá passaram. Primeiro pela Casa dos Estudantes do Império de Coimbra e depois pela de Lisboa, como recordou a sua viúva, Eugénio Neto, na cerimónia que marcou o arranque da grande homenagem que a União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa (UCCLA) vai prestar aos estudantes que passaram pelo CEI.

GERAÇÃO CRIADORA DE PÁTRIAS

O programa de homenagem prolonga- se até Maio de 2015. Começou com uma sessão, na Universidade de Coimbra, onde se falou sobre 'A importância da CEI na formação cultural dos seus associados', que se transformou num momento de reencontro de memórias e pessoas. E também de "prestação de honra" aos que "vieram de África e deixaram uma marca" na luta de libertação do continente e que, em Portugal, deixaram "um gene romântico" dessa "geração da utopia", criadora das "pátrias que hoje existem pelo mundo fora e que foram palco de desumanidade do ser humano", como recordou o médico português Fernando Martinho, associado da Casa desde 1960. "É preciso prestar honra a esta geração de excelência que aparece de vez em quando na história dos povos e que quando aparece muda o mundo", afirmou o actual presidente do Ateneu de Coimbra, instituição fundada em 1940 e que se associou ao CEI na luta antifascista e de libertação das ex-colónias, reforçando a importância atribuída pelo secretário- geral da UCCLA, Victor Ramalho, ao estudo deste período para que a memória não se perca.

Mas uma memória que se aproxime da realidade e não uma memória reconstruída, anotou Fernando Martinho. "Depois de mortos fomos todos bons e não é assim. Houve momentos débeis e mais escuros. É importante que essa memória não seja reescrita, mas real. Senão, qualquer dia, temos um carcereiro do Tarrafal a dizer que era da Frelimo", ilustrou.

O diplomata cabo-verdiano Luís Fonseca, que exerceu o cargo de secretário executivo da CPLP, entre 2004 e 2008, concordou com a necessidade de diferenciação, para que o passado seja conhecido com verdade e se perceba de que lado estavam as pessoas. A propósito, recordou uma história que se passou no dia em que chegou ao campo de concentração do Tarrafal, onde se encontravam detidos António Jacinto, Luandino Vieira e António Cardoso. O director do campo ordenou a um guarda que desse uma "sova2 a António Cardoso à frente dos recém-chegados, ordem que foi diligentemente cumprida.

Anos mais tarde, esse director beneficiou de uma bolsa, no mesmo despacho que atribuía uma bolsa a Amílcar Cabral, fundador do PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde). Para Fernando Martinho, o arranque desta homenagem em Coimbra tem toda a razão de ser. Lúcio Lara, que viria a ser comandante- geral das FAPLA, foi o primeiro presidente da delegação de Coimbra da CEI e Agostinho Neto era o secretário da direcção.

"Foi talvez a delegação mais aguerrida. Foi aqui que se fez, em 1950, a declaração do manifesto do povo por tuguês a exigir a independência das ex-colónias, que deu logo direito a uma ordem de encerramento", recordou o presidente do Ateneu de Coimbra, outra bolsa de resistência antifascista, onde, em 1953, Mário Pinto de Andrade deu uma conferência sobre poesia que o impressionou.

ESCOLA DE LIBERTADORES

Eugénia Neto, a primeira conferencista do painel moderado pela jornalista Diana Andringa, recordou a CEI como um "centro académico na formação" da "escola de libertadores", da qual Agostinho Neto fez parte. Na CEI de Coimbra, Neto encontrou um ambiente que fez despertar a sua consciência e que aprofundou as suas convicções africanistas. Integrado na geração literária de poetas da década de 40, o jovem estudante de medicina encontrou na poesia uma das suas formas de expressão, funda clandestinamente, com Amílcar Cabral, Mário Pinto de Andrade, Marcelino dos Santos e Francisco José Tenreiro, o Centro de Estudos Africanos e integra o grupo "Vamos Descobrir Angola", que dá origem ao movimento dos intelectuais de Angola.

"Não estou idealizando uma nova arte cultural, estou a fazer uma arte africana", disse então Agostinho Neto, citado pela sua viúva. Eugénia recorda que na CEI o seu marido e os estudantes das ex-colónias, inspirados pelas lutas independentistas que já se travavam noutros países africanos, discutiam os problemas dos seus países, de Portugal e do mundo. Mais tarde, Neto aderiu ao MUD (Movimento de Unidade Democrática, ligado ao PCP) e, por isso, esteve preso durante dois anos. A detenção de Neto teve eco no mundo. Vários escritores da Academia Francesa pediram a sua libertação.

Igual gesto teve um grupo de escritores ingleses, numa carta publicada na revista Times. Pires Laranjeira, professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, doutorado em Literaturas Africanas, referiu-se ao CEI como um "espaço de liberdade multicultural, onde se cruzaram tendências ideológicas muito diferentes" e onde muitos escritores tiveram oportunidade de publicar, mas que não se circunscreveu a temas relacionados com a independência. Já em 1948, a Casa publicou um documento do Movimento Feminista da Índia.

A CEI foi também a Casa dos brasileiros - como Fernando Mourão e José Maria Nunes Pereira - e de autores portugueses - como Eduardo Medeiros, Alfredo Margarido e Victor Evaristo. Uma "espécie de esponja" que absorveu as lutas do continente africano, a luta contra o nazismo, o movimento cultural afro-americano Black Renaissance e o pan-africanismo. Manuel Alegre sublinhou também o carácter heterogéneo da CEI, depois de se insurgir contra a ideia expressa por Diana Andringa de que foram as lutas independentistas que conduziram ao 25 de Abril, que derrubou o regime fascista, e não o contrário.

"Foi a luta de cada povo que nos levou ao 25 de Abril. Foi a conjugação, a solidariedade e a interligação que levou à liberdade e esse espírito estava presente na Casa", afirmou o poeta português, lembrando que foi uma luta comum, embora os objectivos fossem diferentes. "Estivemos juntos nas mesmas cadeias, tivemos os mesmos exílios. Não éramos carreiristas, queríamos o bem dos nossos povos", acrescentou.

UM ESPÍRITO, NÃO UM SÍTIO

Para Manuel Alegre, a Casa não era um sítio. "Era um espírito, uma cultura, uma afectividade", que começou pela cultura. Foram os poetas que, pela primeira vez, "expressaram esse sentimento de independência e liberdade". Não é por acaso que todos os primeiros presidentes dos países africanos libertados foram poetas, assinalou Alegre, que dividiu a luta dos africanistas em três momentos. O primeiro correspondeu à negritude, movimento de escritores negros francófonos de Aimé Césaire e Léopold Senghor, de recusa da assimilação.

O segundo momento, de Mário Pinto de Andrade, marcado pela particularização, altura em que Agostinho Neto disse Vamos ser nós mesmos, frase que já traduz "todo um programa político", como sublinhou Alegre. E um terceiro momento, que é o da luta armada, que também contou com os intelectuais, os poetas e os cantores. O moçambicano Óscar Monteiro, o último vice-presidente da CEI de Coimbra, lembrou a desproporção de meios e de homens entre os estudantes africanos e os agentes da PIDE.

A mesma desproporção contida no pedido feito pelo moderador da mesa, o jornalista David Borges, para "comprimir em 10 minutos 50 anos de companheirismo". O ex-ministro da Presidência de Samora Machel concordou que havia um movimento já organizado de poetas, que lutava clandestinamente pelas independências, e que a Casa era o seu "braço legal". Era um movimento artístico, "sem divisões por raça e sem ódios", que virou movimento político e que fez a "coaptação dos corações pela via da cultura".

"A poesia era uma arma exclusiva. A PIDE não nos podia combater com poemas. Foi essa arma proporcional que nos permitiu ganhar", resumiu. Monteiro deixou um desafio para que se reúnam todos os documentos e escritos feitos na Casa para integrarem o espólio da futura biblioteca da Associação dos Antigos Estudantes da CEI. Num gesto que serve de exemplo, deixou ficar algumas cartas e publicações que tinha em seu poder quando a CEI de Coimbra foi encerrada, em 1964.

"Naquele movimento, que era de elite, havia também um movimento mais vasto que pensava no povo. É preciso resgatar esse sentido político, de servir o povo", concluiu, lançando a deixa para outro apelo, que dá continuidade ao espírito da Casa: "O que nos une a todos foi vivermos essa época poeticamente. É preciso identificar todas as necessidades de cada país de novo". Ruy Mingas fez-se representar pela filha mais nova. Numa mensagem lida por Nayma, o compositor lembrou que foi na CEI que começou a sua consciência e a sua carreira como músico. E foi também na Casa que o albergou durante cinco anos que conheceu a sua mulher e mãe dos seus filhos.