Ao longo do século XIX, o nosso país foi adquirindo a sua identidade com base na integração humana dos crioulos e das novas correntes migratórias, ao abrigo da Constituição liberal de 1853, que garantiu as liberdades fundamentais: propriedade, indústria, comércio e religião a todos os habitantes do território argentino, tanto cidadãos como estrangeiros.
É nesse espírito que o Governo argentino tem vindo a implementar uma série de reformas destinadas a promover o bem-estar geral de todos os argentinos.
No domínio da política externa, procura-se promover as relações com as nações democráticas do mundo, com vista a reforçar os laços políticos, económicos e comerciais. Neste contexto, a abertura do país ao investimento estrangeiro constitui um objetivo central.
No que diz respeito às relações bilaterais, a Argentina e Angola partilham os mesmos interesses na garantia do desenvolvimento e bem-estar das nossas sociedades.
Por esta razão, além de criar e facilitar o comércio, devemos aprofundar a cooperação entre as nossas nações, tirando partido da nossa adesão a organismos regionais como o Mercosul, a SADC e a União Africana (UA) cuja antecessora, a OUA, foi fundada em 25 de maio de 1963, data em que se celebra o Dia de África.
Por este facto, reconhecemos de modo especial a actuação do Presidente João Lourenço, durante o exercício da Presidência "Pro Tempore" da UA. A sua gestão neste organismo internacional será recordada pela sua firme vocação mediadora e pelo impulso dado à resolução pacífica dos conflitos que afectam a região.
A partir da nossa Embaixada em Angola, que celebrou recentemente o seu vigésimo aniversário, procuramos construir uma agenda orientada para o fortalecimento da relação bilateral.
Um bom exemplo disso é a interacção frutífera entre ambos os países na Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul, um fórum que reúne 24 países de África e da América do Sul, e o apoio da República de Angola na busca de uma solução pacífica e definitiva para a Questão das Ilhas Malvinas no Comité Especial de Descolonização e na Quarta Comissão da ONU.
Durante este ano, esperamos realizar uma nova Reunião da Comissão Bilateral para continuar a abordar a agenda económica e de cooperação Sul-Sul num contexto favorável em que o comércio bilateral atingiu seu pico histórico em 2025.
Estamos na fase final das negociações de importantes acordos nas áreas da agricultura, saúde, transporte aéreo e marítimo, que nos permitirão reforçar as relações comerciais e turísticas.
Além disso, constatamos um interesse crescente por parte de empresas argentinas em investir e fazer negócios em Angola. Em dezembro do ano passado, o Governo angolano anunciou que um consórcio liderado pela empresa argentina Corporación América Airports (CAAP), com um historial internacional de destaque, ganhou o concurso público para a gestão do novo Aeroporto Internacional Dr. António Agostinho Neto, juntando-se assim a outras que já apostaram em Angola, como é o caso da Dulcería Nacional (Grupo Arcor), presente no país desde 2022.
No ano passado, a celebração do 50.º aniversário da Independência de Angola revelou-se propícia para reforçar os laços culturais e desportivos entre os dois povos. Tivemos a oportunidade de assistir a espectáculos de tango em Angola e de kizomba na Argentina.
Merece menção especial o jogo de futebol disputado entre as nossas selecções seniores no último 14 de novembro, no Estádio 11 de Novembro, que reflectiu a calorosa proximidade entre os nossos povos através do desporto.
A relação continuou também a fortalecer-se no âmbito da cooperação.
No domínio da agricultura, a Argentina pode contribuir com os seus conhecimentos técnicos para o desenvolvimento agrícola local através de técnicas de produção sustentáveis, como a sementeira directa. Nesse sentido, estamos à disposição do Governo angolano e dos produtores locais, a fim de ajudar na diversificação económica do país.
Outro aspecto essencial da cooperação técnica no qual temos estado a trabalhar em conjunto com universidades e instituições governamentais diz respeito à formação de capital humano, tão importante para o desenvolvimento dos nossos povos.
Esta colaboração traduziu-se na licenciatura dos primeiros graduados em recursos hídricos do Instituto Politécnico de Bié graças a um projecto que incluía essa instituição e a Universidade do Litoral do meu país.
Além disso, trabalhamos em coordenação num projecto para a inovação e o intercâmbio de boas práticas em matéria de educação com a Unidade Técnica do Programa de Formação de Profissionais da Casa Civil da Presidência angolana e a Universidade de Villa María (Córdoba, Argentina).
Por último, gostaria de salientar que o Governo argentino atribuiu, pela primeira vez, o prestigiado Prémio Leloir 2025 a um cidadão angolano, José Wanassi, pelo seu contributo para um projecto de cooperação público-privada orientado para o desenvolvimento de sistemas de produção sustentáveis em Angola com base na tecnologia e no conhecimento argentinos.
Em resumo, continuamos convictos e empenhados numa agenda positiva para ambos os povos, assente na identificação de áreas de interesse mútuo e na vontade de aprofundar as relações bilaterais, complementando as nossas capacidades e gerando oportunidades para as nossas sociedades.
*Embaixador da República da Argentina em Angola
