É que as manifestações com milhares de pessoas que ao longo da última semana encheram as ruas de Kiev e dezenas de outras cidades do país em apoio ao jovem, de 35 anos, ministro-estrela ucraniano, não pararam e servem agora para exigir o seu regresso ao posto.

O momento delicado que Zelensky está a viver pode escalar ainda mais visto que a própria imprensa ucraniana, toda ela alinhada numa frente de apoio à guerra com a Rússia, mas nem sempre ao lado do Presidente da República, aponta agora para um cenário novo.

Um cenário em que Mikhail Fedorov emerge como uma força política vibrante e capaz de enfrentar com sucesso o próprio Zelensky, como, de resto, as sondagens apontam, dando-lhe, nalgumas delas, até dois pontos de dianteira se as eleições fosse agora.

Mas não há previsão de que as eleições Presidenciais na Ucrânia, que já devem mais de dois anos ao calendário constitucional mas proteladas sucessivamente pelo Presidente Zelensky ao abrigo da Lei Marcial decretada em 2022, com a invasão russa.

Todavia, com as manifestações populares a intensificarem-se como está a acontecer actualmente em todo o país, o Chefe de Estado fica com duas possibilidades em cima da mesa para sair deste imbróglio.

Ou volta a nomear Fedorov para o cargo que lhe deu projecção popular inigualável, ao apostar quase todo nas tecnologias de drones para manter a guerra com a Rússia, com o objectivo de ir poupando os soldados na frente de batalha...

... o que permitiria a Fedorov acrescentar fôlego e prestígio ao seu nome, somando trunfos para uma eventual candidatura Presidencial, ao mesmo tempo que os media e nas redes sociais surgem apelos a que este avance com a criação de um partido político...

... ou Zelernsky marca eleições para breve, de forma a interromper o crescendo do seu agora ex-ministro da Defesa, mantendo alguma vantagem relativa na disputa eleitoral, apesar de as sondagens terem vindo, nos últimos meses, a expor fragilidades enquanto potencial recandidato.

Ao que tudo indica, Zelensky está a sentir a pressão porque nestes últimos dias tem vindo a anunciar que pretende manter Mikhail Fedorov no Governo, tendo-lhe oferecido o cargo de vice-primeiro-ministro para o Desenvolvimento Tecnológico, que este recusou, e agora para a Inovação Militar, que também terá sido recusado.

A justificação, segundo o Ukrainska Pravda, é que Fedorov entende que apenas os poderes inerentes ao cargo na Defesa que ocupou até agora lhe permitem desenvolve r o trabalho que julga relevante para manter a pressão sobre as forças russas que avançam no leste ucraniano.

Citado pela Suspilne News, serviço público de televisão ucraniano, Zelensky afirmou que ofereceu-lhe "várias posições no Governo", que este "se mantém na equipa", sublinhando que a Inovação Militar é um cargo importante e que permite potenciar as capacidades do jovem agora ex-ministro.

Só que Zelensky pode estar a meter o pescoço na boca do leão, porque Mikhail Fedorov agremiou relações de grande proximidade e cumplicidade com os aliados europeus e da NATO, é o link das tecnológicas norte-americanas da IA, como a Palantir, de Peter Thiel, com Kiev.

E isso pode configurar o cenário ideal para trocar Zelensky, um líder desgastado por quase cinco anos de guerra, por Fedorov, um novo e menos exposto mas vibrante personagem que agrada, como se vê pelas manifestações ininterruptas, ao povo ucraniano.

Como o Novo Jornal avançava esta semana aqui e aqui, é efectivamente o destino político de Volodymyr Zelensky que pode estar neste momento em análise entre os aliados ocidentais que são o garante da capacidade de resistência de Kiev à ofensiva russa iniciada em 2022.

Recorde-se que o Presidente tem vindo a ceder dia após dias à pressão das ruas, desde logo com a demissão do CMGFA, general Aleksandr Sirsky, visto como um adversário do ex-ministro da Defesa, embora o próprio já tenha vindo a público manifestar a sua incredulidade com a demissão, refutando mesmo que tivesse qualquer mal-entendido com Fedorov.

Em pano de fundo a esta crise em Kiev está a ideia de que Fedorov, ao introduzir os drones como método preferencial de travão aos avanços russos, de forma a poupar soldados na frente de guerra, isso terá enfurecido Sirsky porque os drones, guiados por Inteligência Artificial podem ser úteis na resistência aos russos, mas não servem para ocupar território, o que só pode ser feito com presença humana.

E isso está cada vez mais difícil para os ucranianos devido à elevada letalidade do conflito, com centenas de milhares de mortos e feridos, e à gigantesca taxa de fuga tanto das fileiras como do alistamento obrigatório no Exército, que algumas fontes sugerem ser superior a 200 mil soldados nos últimos dois anos.

E se este cenário se mantiver, com as manifestações em curso e aparentemente sem travão, com as centenas, ou mesmo milhares, de vídeos em que cidadãos são raptados nas ruas do país pelas brigadas especiais do Exército para levar jovens para as trincheiras à força, onde começam a aparecer episódios de resistência popular violenta a esses raptos, provavelmente Fedorov não será um adversário político a temer por Zelensky como terá cada vez mais poder paras exigir a realização das eleições Presidenciais que deveriam ter acontecido em Maio de 2024.