Com o Golfo Pérsico à beira do regresso da guerra (ver aqui), os mercados petrolíferos, energéticos, de um modo geral, começou a ruborescer e o calor fez inflamar o barril, tanto o de Brent, em Londres, como o WTI, em Nova Iorque, cujos valores, com excepção de um dia apenas, quando passou dos 113, em Maio, 04, só são comparavéis com meados de 2022, sob o efeito da guerra na Ucrânia e as sanções ao crude e gás russos que se adensavam.
As preocupações com o que pode acontecer no Golfo Pérsico, onde uma consequência imediata de qualquer ataque dos EUA, de Israel ou, o mais provável, da coligação que começou a guerra a 28 de Fevereiro, israelo-americana, é a reacção iraniana contra a infra-estrutura energética dos aliados destes dois países na região.
E não são aliados de pequena monta, porque os EUA usaram as suas bases na Arábia Saudita, no Kuwait ou no Bahrein e EAU, para atacar o Irão em Junho de 2025 e agora, em 2026, ou Israel contou com o apoio de Abu Dhabi, e o Irão já advertiu que os primeiros mísseis da resposta a qualquer ataque serão armas para gerar o caos nos mercados globais de energia.
No entanto, esta subida consistente com as notícias que chegam de Washington e Telavive ou de Teerão, e persistentes no tempo, insuflada pela última comunicação do Departamento de Estado dos EUA, que ordenou a saída dos diplomatas e suas famílias do Médio Oriente, com apenas a excepção dos considerados essenciais.
Alguns analistas, como Jeffrey Currie, especialista em mercados energéticos, num podcast "Mario Nawfall" recente, afirmava categoricamente que os actuais valores mostrados pelos gráficos referentes aos "futuros" não fazem qualquer sentido, porque a realidade é outra e essa mede-se pelos mais de 150 USD pagos por barril de entrega imediata.
Entre os analistas menos mainstream é hoje claro que em breve, mesmo que ocorram novidades extraordinárias nos campos de batalha da Ucrânia/Rússia ou do Médio Oriente, o valor médio dos futuros e da entrega imediata encontrará uma equilíbrio, sendo que esse será mais próximo do máximo na entrega imediata que no mais facilmente manipulável dos futuros a três meses.
Outro elemento que está a ser mantido afastado do básico para definir preços é a questão dos ataques a petroleiros no Estreito de Ormuz, com cerca de uma dezena atacado nos últimos dias sem que isso, estranhamente, não esteja a ser considerado neste sobe e desce.
Este é o cenário que trouxe, esta manhã de quinta-feira, 22, perto das 11:20, hora de Luanda, o barril de Brent para os 112,3 USD, somando mais 2,95% que na sessão anterior, e com tendência para continuar esta escalada que está directamente ligada á escalada na guerra no Golfo Pérsico, onde a ameaça de um regresso dos ataques israelo-americanos ao Irão é o que mais mexe nos gráficos.
Angola a fazer contas...
O actual cenário internacional tende claramente a manter os preços acima do valor estimado pelo Governo angolano para o OGE 2026, 61 USD, que compara com os actuais 112 USD, no caso do Brent, cerca de 52 USD acima desse valor.
Angola é, por isso, um dos países mais atentos a estas oscilações devido à sua conhecida dependência das receitas petrolíferas, e a importância que estas têm para lidar com a grave crise económica que atravessa, especialmente nas dimensões inflacionista e cambial.
Isto, porque o crude ainda responde por cerca de 90% das exportações angolanas, 35% do PIB nacional e 60% das receitas fiscais do país, o que faz deste sector não apenas importante mas estratégico para o Executivo.
O Governo deposita esperança, no curto e médio prazo, de conseguir o objectivo de aumentar a produção nacional, uma das razões por que abandonou a OPEP em 2023, actualmente abaixo de 1 mbpd, gerando mais receita no sector de forma a, como, por exemplo, está a ser feito há anos em países como a Arábia Saudita ou os EAU, usar o dinheiro do petróleo para libertar a economia nacional da dependência do... petróleo.
O aumento da produção nacional, cujo potencial cresceu significativamente já este ano, não está a ser travada por falta de potencial, porque as reservas estimadas são de nove mil milhões de barris e já foi superior a 1,8 mbpd há pouco mais de uma década, o problema é claramente o desinvestimento das majors a operar no país.
Aliás, o Governo de João Lourenço tem ainda como motivo de preocupação uma continuada e prevista redução da produção de petróleo, que se estima que seja na ordem dos 20% na próxima década, estando actualmente â beira de 1 milhão de barris por dia (mbpd), muito longe do seu máximo histórico de 1,8 mbpd em 2008
Por detrás desta quebra, entre outros factores, o desinvestimento em toda a extensão do sector, deste a pesquisa à manutenção, quando se sabe que o offshore nacional, com os campos a funcionar, está em declínio há vários anos devido ao seu envelhecimento, ou seja, devido à sua perda de crude para extrair e as multinacionais não estão a demonstrar o interesse das últimas décadas em apostar no país.
A questão da urgente transição energética, devido às alterações climáticas, com os combustíveis fosseis a serem os maus da fita, é outro factor que está a esfumar a importância do sector petrolífero em Angola.
