Na segunda-feira o mundo foi surpreendido com as páginas dos grandes media internacionais a darem conta de um ataque a uma base norte-americana na Jordânia, por um grupo islâmico oriundo do Iraque, e apoiado pelo Irão, onde morreram três solados e mais de três dezenas sofreram fermentos graves, o que era visto como uma linha vermelha que levaria os Estados Unidos a usar a sua forte presença militar no Médio Oriente, reforçada com dois porta-aviões deslocados para o Mediterrâneo Oriental.
Perante uma campanha eleitoral onde está em risco de ser expulso da Casa Branca pelo seu arqui-inimigo Donald Trump, o Presidente Joe Biden não pode dar sinais de fraqueza, e já veio a público dizer que sabe exactamente como vai vingar os seus militares mortos, mas também está ciente que não pode abrir uma frente de guerra aberta com o Irão, porque isso seria abrir as portas do inferno para a economia global - o Médio Oriente responde por 35% do petróleo mundial - e para o Ocidente em particular, deixando ainda margem para um confronto global devido às ligação estratégicas do Irão à Rússia e à China.
E é por causa deste cenário sério, onde está amarrado à necessidade de não mostrar fraqueza para não perder ainda mais espaço de manobra para as eleições de Novembro, onde está atrás de Trump em todas as sondagens, que Joe Biden mostrou o punho ao Irão mas, ao mesmo tempo, explicou que ainda está a ser analisado o real envolvimento de Teerão no ataque à base dos EUA na Jordânia, apesar de ser evidente que foi quem forneceu o armamento usado para o efeito.
Por outro lado, alguns analistas apontam para a falta de verosimilhança do uso de um drone no ataque à base norte-americana na Jordânia, denominada Torre 22, usada por Washington para vigiar grande parte da região sírio-iraquiana, porque, como a experiência da guerra na Ucrânia demonstra, dificilmente um destes aparelhos gera consequências desta dimensão, com vários mortos e 34 feridos, o que permite a especulação sobre outro tipo de incidente nesta unidade miliar.
O que vai fazer Joe Biden é a grande questão, porque um ataque directo ao Irão poderia trazer para a realidade algo que tem sido mantido escondido no patamar dos pesadelos, sendo o rastilho que falta para fazer explodir o barril de pólvora que é o Médio Oriente, já em combustão acelerada com a carnificina israelita na Faixa de Gaza desde 07 de Outubro, quando o Hamas protagonizou um ousado e mortífero ataque ao sul de Israel, deixando um rasto de 1200 mortos e 2 mil feridos.
Desde esse dia até hoje, já foram mortas pelas forças israelitas em Gaza 27 mil civis, destes 12 mil crianças e quase 8 mil mulheres, o que está a gerar uma vaga de indignação planetária mas com Telavive a contar com o apoio explícito dos seus aliados ocidentais, especialmente os EUA, o Reino Unido, a Alemanha e a Itália...
Perante este turbilhão de incerteza e nervos à flor da pele, com Joe Biden a prometer vingança pelos seus soldados mortos e com o Irão, através do seu embaixador nas Nações Unidas, Amir Iravani, a garantir um incisiva resposta a qualquer acto inamistoso dos EUA, ganha corpo a ideia defendida por vários analistas de que há interesses sérios em algumas alas mais radicais nos países da região, do Irão a Israel (o Governo radical de Benjamin Netanyhau está condenado a durar apenas o tempo desta guerra) , e mesmo nos EUA, em lançar o fogo ao rastilho do barril de pólvora do Médio Oriente.
Vai prevalecer o bom senso ou impor-se o radicalismo? Nos próximos dias esta questão terá resposta, mas é evidente que basta um passo em falso, um gesto imponderado, uma acção descontextualizada... para que o actual conflito em Gaza pareça brincadeira de meninos, sendo igualmente verdade que tanto em Washington como em Teerão, para já, as alas menos impulsivas parecem ter a situação sob relativo controlo.
Hamas e Israel preparam cessar-fogo
Não parece, olhando para o que se passa em Gaza, onde a mortandade parece não ter freio, mas o Hamas e Israel, com intermediação do Qatar, do Egipto e dos EUA, parecem estar a reunir condições para mais um cessar-fogo que envolverá a libertação de alguns dos reféns levados para Gaza a 07 de Outubro pelos combatentes palestinianos e a entrada de mais ajuda humanitária nesta geografia martirizada.
Gaza é hoje um território terraplanado pelos permanentes bombardeamentos e incursões terrestres das Forças de Defesa de Israel (IDF, que já chegarem ao sul do território, onde vivem 2,3 milhões de pessoas em 365 kms2, numa faixa de 40 kms de extensão por nove de largura, deixando um vasto rasto de destruição, implodindo mais de 70 por cento dos edifícios, deixando mais de 1 milhão de pessoas a viver ao relento, sem água, comida ou medicamentos para as doenças infecciosas que galopam por entre uma população despida de qualquer protecção.
Se terminar o terror espalhado por Israel e pelo Hamas em Gaza, toda a fornalha do Médio Oriente, incluindo o perigoso duelo que está a ser travado por EUA e Irão neste território de muitas crenças para um único Deus, tenderá a arrefecer e abre-se uma clareira para pousar a sensatez que parece estar cada vez mais longe.
E é isso que está, aparentemente, a suceder no Cairo, capital do Egipto, onde por estas horas chegou o líder do Hamas, Ismail Haniyeh, para discutir com as autoridades mediadoras egípcias os termos do cessar-fogo que começou a ser desenhado em Paris, nas duas últimas semanas, na presença das secretas dos EUA, de Israel, do Egipto e pelo Governo do Qatar, que surge neste contexto a representar os interesses do Hamas e da Palestina.
Segundo a imprensa internacional, o acordo que está em cima da mesa das negociações prevê uma efectivação em três fases, que passariam por libertar os reféns civis nas mãos do Hamas, depois os militares e, por fim, a entrega dos corpos dos que morreram em cativeiro.
Por troca, Israel põe termo aos ataques a Gaza, faltando perceber se em definitivo se por um período alargado de tempo, deixa entrar a ajuda humanitária que está a fazer mais falta que nunca para os 2,3 milhões de pessoas que vivem em Gaza, e, provavelmente, definir as bases para a construção de uma solução de futuro que terá sempre de passar pela existência de dois Estados dentro do território da Palestina.
Para já, aparentemente, do lado do Hamas parece haver disponibilidade para avançar, mas em Telavive, o mais radical e extremista Governo israelita de sempre, tanto política como religiosamente, parece estar a viver um tumulto interno com várias posições, o que deixa o primeiro-ministro Benjamin Netanyhau entre duas lâminas afiadas: a pressão dos EUA para acabar com este conflito e os partidos radicais que lhe garantem o Governo e que querem continuar a guerra para fazer de Gaza um enorme colonato israelita porque dizem a isso ter historicamente direito.
As outras pressões sobre Netanyhau são igualmente contraditórias. Por um lado, tem a justiça israelita à perna assim que acabar a guerra, onde está acusado de múltiplos crimes de corrupção e peculato; por outro, em mais de três meses de uma brutal invasão a Gaza, nenhum dos objectivos inicialmente assumidos (acabar com o Hamas, libertar os reféns e fazer com que a Faixa de Gaza deixe de ser uma fonte de instabilidade para Israel) foi conseguido.
Pelo contrário, segundo vários media, incluindo israelitas, as IDF estão a perder centenas de militares todas as semanas, entre mortos e feridos, o que, mais cedo ou mais tarde, fará com que esta situação seja insustentável, havendo mesmo o risco de piorar se, como se teme, for aberta uma nova frente de guerra com o Hezbollah, na fronteira israelo-libanesa.
É ainda de importância capital o que se passa no Mar Vermelho, onde os rebeldes do Iémen, Houthis, estão a lançar o caos no comércio marítimo global, com ataques diários aos navios, incluindo petroleiros, que usam o Estreito de Bab al-Mandeb, para entre ou sair do Mar Vermelho para o Mar Arábico, vindos ou seguindo para o Canal do Suez, no Egipto, que liga a vasta região asiática ao Atlântico, através do Mar Mediterrânico, e por onde passam 15% do comércio de bens mundial e mais de 12% do crude consumido em todo o mundo.
O petróleo já "arde" nos mercados
Esta situação está já a transformar de forma substantiva o negócio global do petróleo, lançando o barril para valores que já não se viam desde o início de Novembro do ano passado, integrando elementos de risco que já não se viam desde as severas crises no Médio Oriente do século passado, desde logo pela envolvente presença dos EUA na antecâmara de uma guerra com o Irão, que é um aliado geoestratégico da Rússia e da China na região.
Os mercados estavam a lidar com grande desconto o evoluir da fornalha da guerra na Faixa de Gaza para o restante Médio Oriente, região responsável por até 35% do crude consumido em todo o mundo diariamente, como se todos estivessem a assobiar para o lado à espera que o mau tempo fosse embora.
Não só o mau tempo ficou, como parece estar para ficar por muito tempo, e deixou de ser possível ignorar quando, a meio da passada semana, se verificou que os ataques em larga escala da coligação liderada pelos EUA contra as posições dos rebeldes do Iémen, os Houthis, não resultaram na diminuição evidente da capacidade deste grupo apoiado pelo Irão em atacar os navios, incluindo grandes petroleiros, de passagem pelo Estreito de Bab al-Mandeb.
E, com este ataque, com drones, da Resistência Islâmica, fazendo correr o "primeiro sangue" norte-americano desde que reemergiu com especial violência a vaga de ataques israelitas a Gaza após o 07 de Outubro, não só se demonstra a expansão do conflito como o transforma numa guerra globalizada.
Até porque, em Washington, o Presidente dos EUA já veio a terreiro garantir que vai dar a resposta adequada a este ataque à base norte-americana na Jordânia, prometendo vingar os soldados mortos e feridos, fazendo com que este conflito se intrometesse com especial acrimónia na campanha eleitoral nos Estados Unidos para as eleições de Novembro que vão ditar se Joe Biden mantém a chave no bolso ou esta vai parar às mãos do ex-Presidente Doland Trump.
Não menos importante para admitir que este episódio na base dos EUA na Jordânia pode ser ainda mais relevante que os ataques dos Houthis aos navios no Estreito de Bab al-Mandeb para a instabilidade geopolítica e militar no "barril de crude do mundo", foi a reacção de Trump, ao acusar Biden de fraqueza, afirmando que se ele ainda fosse o detentor da chave da Casa Branca não só não haveria este ataque aos soldados americanos na Jordânia, como nem sequer haveria guerra em Gaza, da mesma forma que garante que acabará com a guerra na Ucrânia em 24 horas.
Todos os analistas, com mais ou menos vigor, apontam este episódio como um elemento que marca um antes e um depois no conflito de Gaza, reacendendo o risco de um confronto mais lato, primeiro entre o Hezbollah e Israel na fronteira israelo-libanesa, e depois espalhando faíscas para as dezenas de grupos antiamericanos na Síria, Iraque, Líbano, Iémen... acabando com uma forte probabilidade de ataques directos dos EUA e de Israel ao Irão.
Um maior envolvimento dos EUA no conflito no Médio Oriente é o que mais assusta o mundo há mais de três meses, quando, depois do ataque do Hamas ao sul de Israel, Washington enviou uma forte esquadra naval, com porta-aviões, submarinos e navios de guerra, para o Mediterrâneo Oriental, com o fito de travar a entrada do Hezbollah na refrega, mas também para ter capacidade de fogo nas proximidades em caso de uma guerra de outro nível começar, envolvendo o Irão, um aliado férreo da Rússia e da China.

