Para preservar o seu estatuto secreto, os akixi (mascarados) não devem ser reconhecidos como humanos, devendo os seus portadores manter a identidade oculta. Mas só o conjunto máscara-corpo possui o significado e a função que a comunidade lhes atribui. Para além do prazer estético que suscitam, as danças de máscaras encerram camadas de significado que se revelam nos gestos, na indumentária, nos adornos, no contexto da performance e nas características de cada personagem. Esses elementos articulam-se num sistema simbólico que liga as inscrições da máscara ao vocabulário de movimentos dominado pelo bailarino, cuja descodificação permite reconhecer, na dança, um espelho da estrutura social onde se incluem relações de género e parentesco, graus de autoridade e poder ou valores éticos e morais.

É neste quadro que se situa o Mukixi wa Cihongo.

Conta a tradição que um mwata terá entregue ao sobrinho Cindalu uma máscara completa para que, dançando e cantando, percorresse povoações à procura da irmã raptada. Cindalu encontrou-a, dançaram juntos até anoitecer e fugiram voando sobre a multidão até à aldeia do tio, que se tornou, a partir desse dia, um grande soberano. Desde então, Cihongo passou a ser venerada e guardada em lugar sagrado. Ainda que lendária, esta história revela a origem simbólica de uma das máscaras mais emblemáticas da tradição cokwe.

Cihongo é um mukixi a kuhangana, isto é, uma máscara de dança. O nome é associado a uma planta medicinal homónima, cuja forma em meia-lua recorda a kapapa, adorno de cabeça feito de penas, tecido ou armação de verga, que evoca as coroas metálicas e as yipangula usadas pelos grandes monarcas e chefes tradicionais cokwe. A designação poderá também estar ligada a uma antiga dinastia de soberanos que terá existido entre os séculos XV e XX, onde se registam nomes como Ndumba II (Cihongo) e Cihongo II.
Na sociedade cokwe, o Mukixi wa Cikungu ou Mukixi wa Mwanangana, grande máscara sagrada interdita a todos (excepto ao chefe máximo e aos seus conselheiros) e que nunca dança, representa o lado austero e inatingível do poder. Cihongo, pelo contrário, representa a sua face acessível, exercendo a diplomacia através da dança perante a comunidade, com a cumplicidade de uma orquestra composta por tambores de cinco categorias: ngoma ya Xina, ngoma ya Mukundu, ngoma ya Kasasulwilo, ngoma ya Kasumbi e ngoma ya Mukupela.

A máscara facial, de resina e entrecasca batida ou de madeira, integra elementos morfológicos codificados: o queixo, em forma de disco, representa a barba, reservada a chefes e anciãos; os olhos semicerrados evocam a morte, sinal de idoneidade; os dentes pontiagudos indicam estatuto social elevado. A ponda, faixa vermelha que cai lateralmente sobre a cabeça, indica a proveniência real. Gravados no rosto estão o símbolo identitário e distintivo cingelyengelye, bem como mitelumuna, masoxi, mipila e kangongo.

O civuvu, fato de malha que cobre o corpo, apresentava tradicionalmente riscas pretas, vermelhas e brancas (tríade de cores com significados específicos nesta cultura). O seu principal distintivo é a cikapa, cinto pesado de fibras de makindu que se expande lateralmente e determina os movimentos do bailarino, exigindo força e firmeza. Os sangu, chocalhos, marcam o ritmo dos movimentos das pernas. Na mão pode ainda usar um ngezu, campainha, ou um cimbuya, pequeno machado e insígnia de poder.
Pelo seu poder simbólico e propiciatório, Cihongo surge também representado nas paredes das casas, nos sona (desenhos na areia), em cadeiras de chefe, bastões, tabaqueiras e instrumentos musicais associados à aristocracia. Manuseada pelo Nganga, a máscara pode ainda constituir um wanga maléfico, sob a forma de kaponya ka Cihongo.

Além da expressão artística, a máscara Cihongo constitui um texto vivo, interpretado à luz de uma linguagem que obedece a regras, estatutos e a um conhecimento técnico específico transmitido por mestres.
Presente na dança, na música, na escultura e na oratura, esta máscara não é apenas memória de antigas dinastias; ela continua a validar fundamentos culturais e históricos. Mas, à medida que os detentores tradicionais deste saber envelhecem e desaparecem, sem registo sistemático nem programas de transmissão, aumenta o risco de a máscara sobreviver apenas como imagem em fotografias ou museus, sem ninguém que saiba, de facto, dançá-la com legitimidade. É aqui que a questão do património se torna urgente.

A Convenção da UNESCO para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial (2003) estabelece instrumentos de salvaguarda para elementos consolidados e para aqueles em risco de desaparecer. Assenta ainda num princípio fundamental: o património deve ser reconhecido como tal pelas próprias comunidades que o criam e transmitem. Nenhuma entidade externa pode, sozinha, decidir o que constitui património de um povo.

Angola já deu passos neste sentido ao reconhecer como património cultural imaterial nacional a Kizomba e a Ciyanda, no domínio das práticas festivas (embora não se possa comparar a essência das duas), e a Marimba e o Quissanje, entre os saberes tradicionais. Todavia, estas são escolhas que se interpretam como fáceis por se tratar de manifestações popularizadas ou amplamente divulgadas e visíveis, com circulação para além dos círculos especializados. A este propósito, faz sentido perguntar: com que base de conhecimento e critérios de eleição se decide o que deve ser proposto a património?

Sobre a máscara Cihongo, o silêncio não surpreende. Trata-se de desconhecimento.

Dedico a esta máscara décadas de investigação e continuo, tanto quanto apurei, a única pessoa a tê-la estudado (e publicado) com profundidade do ponto de vista da etnocoreologia. O trabalho de campo revelou uma situação preocupante: Cihongo está em vias de extinção. Sou testemunha de a ter visto, em território geográfico cokwe, dançada de forma desvirtuada, com um cinto que não lhe corresponde e um fato degradado sinal de que, mesmo entre os que ainda a executam, se perde o rigor que a distingue.

Ao contrário de outros elementos desta cultura, partilhados com a Zâmbia e a República Democrática do Congo, Cihongo surge associado a Angola. Há relatos de que, em festividades realizadas do outro lado da fronteira, se mandavam vir de Angola estes bailarinos especialistas na sua arte.
Cihongo foi símbolo de aristocracias inteiras e intérprete de performances exclusivas. Antes que reste apenas como memória pede, para já, um lugar na lista do que o país decide salvaguardar. Pelo seu valor histórico e identitário, deverá seguir para um reconhecimento mundial como aconteceu com a máscara de dança Zaouli (Côte d"Ivoire), as máscaras Gelede (Benim, Nigéria e Togo) ou os caretos de Podense (Portugal).
Sim, Cihongo a património, já!