Houve um silêncio nas hostes do MPLA em relação às "verdades inconvenientes" do militante Carlos Feijó, surpreendentemente, a reacção veio de fora. Foi Paulo Lukamba "Gato", da UNITA, quem reagiu positivamente nas redes sociais e isto terá apanhado em contramão muitos camaradas que procuraram passar ao lado dos alertas do também membro do Bureau Politico do MPLA, por sinal um dos poucos que vai deixando uns avisos à navegação.
Como não seguiu o guião da habitual encenação partidária, Carlos Feijó, levou de todos os lados com as "azias" das milícias digitais que chegaram ao extremos de o adjectivarem como "Kwacha", ou seja, a sua visão crítica estaria alinhada com uma estratégia da malta do "outro lado", neste caso, a UNITA. Fez o apelo ao combate à corrupcção, ao nepotismo, à bajulação, ao favorecimento, à ostentação e à impunidade como práticas que no seu entender corroem a confiança dos cidadãos e desgastam a credibilidade do MPLA.
Advoga maior disciplina partidária a todos os militantes do MPLA e aqui faz um apelo à um elemento fundamental para o MPLA de hoje: a unidade interna! Uma unidade que se faz com diversidade, com pluralidade de ideias e a promoção do debate nas diferentes estruturas do Partido. Um debate em que, segundo ele, "as divergências sejam tratadas com lealdade e as decisões tomadas democraticamente sejam respeitadas".
Fica também a ideia de que um partido forte não tolera a falta de lealdade, a intriga e a divisão que se alimenta fora dos órgãos próprios. O que ele disse no Cunene é que a estratégia de dividir para melhor reinar não é a mais correcta e que não traz bons resultados, que o MPLA tem de ter estruturas fortes e coesas capazes de acolher as preocupações dos seus militantes e de resolver internamente os seus problemas. Mas isso é obvio e é o que todo o militante devia ter consciência.
A questão do recuo eleitoral e os desafios para Agosto de 2027 é fundamental e não devia ser um tabu. Mais do que marchas e comícios com animação cultural, os militantes deviam olhar para a redução progressiva da votação no MPLA ao longo dos diferentes ciclos eleitorais. Ela passou de 82% em 2008 para 72% em 2012, 61% em 2017 e 51% em 2022. "Em cada ciclo eleitoral, perdemos aproximadamente dez pontos percentuais", disse Carlos Feijó, alertando para a necessidade de se inverter a tendência.
A abstenção é outro desafio para o MPLA, lembrando que em 2022 apenas 45% dos eleitores participaram na votação, ou seja, menos de metade. Isto deve ser visto como um sinal de alerta na relação entre o eleitorado e as forças políticas, principalmente por parte daquela que tem responsabilidades de governação, que é o MPLA. Os cidadãos não confiam nas forças políticas e não se sentem motivados a participar do processo democrático. Não acreditam nas instituições e não validam o discurso político. E diz mais, há menos de um ano de eleições, "já não é tempo de começar.
É tempo de concluir". É tempo de menos discurso e mais acções, onde os investimentos públicos devem reflectir-se em melhorias concretas na vida dos cidadãos. A presença permanente do MPLA nas comunidades, com contactos regulares com os cidadãos. Um partido com um discurso atractivo, apelativo e abrangente, capaz de ir buscar votos fora das suas estruturas. Uma abordagem para dentro, um discurso que devia promover o debate interno.
Mas parece que o MPLA prefere lidar internamente com discursos fora da realidade, sem objectividade e populistas. Em 2022, perdeu para a UNITA, na capital Luanda, que é a maior praça eleitoral. Hoje, mais do que comícios e espectáculos, é preciso que as lideranças expliquem aos militantes qual é a estratégia, o plano de acção para que o seu partido em Agosto de 2027 recupere Luanda. Há hoje muita "parra e pouca uva", há muito barulho e pouca acção, há muito populismo e pouca realização. Na verdade, o que o militante Carlos Feijó disse publicamente no Cunene é aquilo que todos sabem mas não querem assumir: averdadeira e principal oposição ao MPLA está mesmo dentro do MPLA!
Continua a haver uma grande desmotivação ao nível das bases e um afastamento destas em relação às lideranças. Para muitos militantes das bases, o MPLA perdeu a alma e identidade; sentem falta de um espírito de pertença e de dedicação; o Glorioso MPLA tornou-se hoje uma instituição de pequenos grupos, uma "Coisa Nossa" para um grupo restrito. O líder quer e pensa que é incontestável mas é contestado.
O MPLA tem de ter a capacidade de conquistar eleitorado fora do seu núcleo de militantes. Tem de ter um discurso mais aberto, mais objectivo e apelativo. Tem de fazer na pratica aquilo que Carlos Feijó disse: "organizar-se internamente para convencer lá fora"! Mais do que atacar os militantes que de forma livre e aberta, discutam os problemas e apresentem soluções para o Partido dentro das suas próprias estruturas; o MPLA devia aproveitar a onda e permitir que os militantes surjam com moções no IX Congresso Ordinário no próximo mês de Dezembro, um exercício de pluralidade e de promoção da democracia interna. Estarão os camaradas preparados?
