Numa carta dirigida aos apoiantes que lhe "têm escrito, telefonado e manifestado a sua solidariedade" com "mensagens de apoio, encorajamento e confiança", o general Higino Carneiro promete não desistir.

"Aos que me dizem «não desista», respondo com sinceridade: eu também não desisto. Não abandonei as minhas convicções, não renunciei à defesa da minha dignidade e da minha honra e não considero terminada a responsabilidade que sinto perante aqueles que em mim confiaram", escreveu.

O político, que expressou a sua gratidão a todos quantos o apoiaram, lembrou o seu longo percurso como militante do partido no poder em Angola desde a Independência.

"Dei o melhor de mim ao MPLA, a Angola e aos angolanos. Fi-lo em diferentes circunstâncias, nos momentos de esperança e nos momentos de dificuldade, movido pela convicção de que a política deve ser, acima de tudo, um instrumento de serviço ao povo e de construção de um futuro melhor para o nosso país. Em todos eles, procurei manter o sentido do dever, a disciplina, a lealdade e o compromisso com o nosso país", lê-se na mensagem que dirigiu a cada subscritor, a cada militante que acreditou nesta iniciativa e a todos os cidadãos que lhe manifestaram solidariedade.

O general dedicou uma "palavra especial" a todos os que integram a equipa de trabalho da sua candidatura.

"O vosso trabalho, muitas vezes discreto e silencioso, merece o meu respeito e profundo agradecimento", declarou.

Aos militantes do MPLA, o candidato excluído reafirmou "uma convicção" que considera "essencial": "a divergência não deve ser confundida com inimizade, e a fidelidade a um partido não exige a renúncia ao pensamento próprio. É também este um momento em que apelo a serenidade de todos".

"A democracia interna exige que a participação dos militantes seja assegurada por regras claras, procedimentos transparentes e condições de igualdade. O respeito pelos Estatutos não se esgota na sua invocação. Exige a sua aplicação coerente, em todas as circunstâncias e perante todos os militantes", continuou, concluindo que "as divergências devem ser entendidas e discutidas no quadro das instituições partidárias, com respeito pela pluralidade de pensamento, pelo direito de participação e pela dignidade de cada camarada".

Higino Carneiro, assumindo que não pode antecipar hoje todas as decisões que o futuro poderá exigir, prometteu aos seus apoiantes que continuará "a ouvir, a reflectir e a avaliar os caminhos que se apresentam, com serenidade, consciência e respeito pelas responsabilidades" que lhe couberem.

"A política não se resume aos cargos, às decisões dos órgãos ou às circunstâncias de uma candidatura. É também uma relação de confiança, de princípios e de responsabilidade perante as pessoas", asseverou.

"Uma candidatura pode ser anulada. Uma iniciativa pode ser impedida por uma decisão. Mas nenhuma dessas circunstâncias apaga uma vida de serviço, nem dispensa a responsabilidade de enfrentar o presente com dignidade e coragem", concluiu.

Como o Novo Jornal noticiou na quarta-feira, o Comité Central do MPLA, que se reuniu sob liderança do presidente João Lourenço, com a agenda de trabalhos dominada pela decisão definitiva sobre a candidatura do general Higino Carneiro à liderança do partido, decidiu o afastamento deste militante do boletim de voto no 9º congresso ordinário electivo de 09 e 10 de Dezembro.

A decisão foi anunciada durante a tarde pelo órgão máximo entre congressos do MPLA, que ainda fez menção a um processo disciplinar ao militante Higino Carneiro.

Esta decisão histórica foi divulgada num comunicado distribuído aos jornalistas após a conclusão dos trabalhos que, ao contrário do que é hábito, não começaram com uma intervenção, transmitida em directo pelos media públicos, do presidente do MPLA, João Lourenço, que é agora o quase garantido único candidato à sua própria sucessão.

Segundo este comunicado, Higino carneiro "violou de forma consciente as normas estatutárias e do código de ética do partido",

O órgão deliberativo do MPLA decidiu ainda remeter os factos apurados à Procuradoria-geral da República por considerar existirem "fortes indícios da prática do crime de falsificação de documentos".