Algumas pessoas viam Mfuka Fuacaca Muzemba como um elemento estranho à UNITA , por não ter andado nas matas. Alguma vez sentiu isso?
Tive um mandato muito difícil e arriscado. Nunca tive um orçamento da direcção do partido. Comecei sem escritório e sem viaturas e ainda assim estou. Desde Julho do ano passado até hoje, não me deram nada para poder trabalhar. E tudo quanto fiz neste período tirei do meu bolso, desde o dinheiro necessário para a comunicação, como para o transporte. Isto tudo é um boicote às minhas actividades.
Há informações segundo as quais uma das pessoas que gostaria de ver o seu consulado apagado esteve a concorrer para o congresso da JURA?
Sabe-se que Isaías Samakuva não apoiou Mfuka Muzemba, apoiou o Didi, que é o filho do velho Samuel Chiwale. Ao não me apoiar e obviamente, tendo ganho, também não tive apoio político. O partido tem orçamento, nunca falharam as verbas cabimentadas para a organização e a JURA não tem nenhuma fonte de receita. Nunca recebemos apoio e não me podem acusar de ter compromissos com o MPLA para silenciar a JURA. Como é que, sem apoio, posso trabalhar?
Sentiu que no seio da JURA havia tribalismo?
Acho que fui mais prejudicado por ter ideias próprias. Mantive-me distante dos problemas do Abel Chivukuvuku e do Isaías Samakuva. Não me pronunciei contra o Abel, o que foi mal visto pela direcção do partido. Então, o Abel não me fez nada e eu vou preparar um grupo de jovens para o agredir? Isto não é correcto para um político, é isto que as pessoas queriam. Nunca me tinha pronunciado contra o Abel e nem por isso sou abelista, mas fui mal-entendido. Querem que arrume o Numa, não posso ter ideias próprias. Se ele está a reclamar situações justas, porque é que eu tenho de estar contra ele? São esses factores todos que estão na origem da minha suspensão.
Quando começou a sentir que uma eventual cabala estaria a acontecer no seio da JURA?
Desde o princípio do meu mandato. As pessoas recordam que, nos comités todos, fomos recebendo panfletos, em que me acusavam de ser congolês e ameaçavam-me de morte. Estas ameaças não saíam do outro lado, saíam de dentro da UNITA.
Das acusações que pesam contra si, consta uma que diz que recebeu 10 milhões de dólares norte-americanos de Bento Kangamba, através do seu assessor de imprensa, Gabriel Veloso?
Nada corresponde à verdade. Nunca assinei documento nenhum a solicitar visto para Portugal. O visto que o partido solicitou, quando viajei em 2011, não foi assinado por mim, se eles quiserem, que publiquem os documentos. Quem tem na sua posse documentos comprometedores que os publique. Eu nunca solicitei vistos para favorecer ninguém. Eu não recebi dinheiro de ninguém. Mostrem-me as provas das casas. Onde estão as casas?
Sabemos que comprou uma casa na zona do Lar do Patriota…
Não… estou a construir a minha própria casa na zona do Patriota, se quiserem posso levar-vos lá. Tenho o direito de construir a minha própria casa, vivo numa casa de renda. A Assembleia Nacional dá 140 mil USD de subsídio de instalação, com esse dinheiro vou beber? Todos os deputados receberam este valor e, para além de outros subsídios de férias. E não se esqueçam que fui membro do Conselho Nacional de Comunicação Social durante quatro anos, tive salários e subsídios. Então este salário iria meter aonde? Tinha que fazer alguma coisa e não sou nenhum burro. Tive um crédito do Banco de Poupança e Crédito e também fiz pequenos negócios.
Disseram que o Mfuca Muzemba estava na República Popular da China com pessoas ligadas ao MPLA ?
Fui à China comprar material de construção para os acabamentos da minha casa e deixei o meu irmão e um amigo, que estão à espera que a fábrica entregue o que requisitei, que são portas, mosaicos, cozinha, etc. Comprar em Angola fica muito caro. Tenho facturas para provar isto. O presidente Samakuva, o mais velho Chitumbe, o mais velho Chilingutila e tantos outros viajam e não lhes perguntam nada. O Rafael Massanga, filho de Jonas Savimbi, tem empresas que servem o partido. O Kupono, Anavita estão a fazer negócios, mas quando é o Mfuka todos querem falar.
Qual é a sua relação com o empresário Bento Kangamba?
Não tenho relações próximas com Bento Kangamba. Gabriel Veloso foi jornalista da Rádio Ecclésia e começou a entrevistar-me há muito tempo, nos tempos em que eu era presidente da associação dos estudantes universitários, no programa Luanda Escolar. Nós conhecemo-nos bem e por ser assessor de Bento Kangamba deixa de ser meu amigo? Acredito que não posso desfazer-me da minha amizade com ele por ser assessor de Kangamba e muitos no partido são amigos de militantes do MPLA e ninguém diz nada.
Sentiu muita solidariedade dos membros da Comissão Política da UNITA?
Sim, senti muita solidariedade dos quadros do partido. Muitos membros reprovaram totalmente os trabalhos da comissão de inquérito. Aliás, quem não deve não teme. Eu conheço-me suficientemente bem para hoje saber exercer a minha cidadania, tal como fiz, partilhei um assunto que se tornou público. Se isto fosse verdade, a UNITA não me daria nem dois dias, eu já estaria na rua. Esta situação desenrola-se há mais de seis meses e não conseguiram provar nada.
Começou com 13 acusações e no fim do inquérito acabou por ser indiciado por duas acusações.
Este inquérito visou duas coisas: afastar Mfuka Muzemba do próximo congresso da JURA e do congresso do partido para 2015, e todos sabem que vou apoiar o deputado Camalata Numa. O problema é que se eu ganho o congresso da JURA de 2014 isso vai influenciar o voto dos militantes jovens para apoiar o deputado Numa, aqui não há outra história. Eu estou a pagar por ter ideias próprias. Quem no MPLA vai dar 10 milhões de USD. Eu, com esse valor, teria mesmo tempo de estar na UNITA? Estaria nos Estados Unidos da América e a fazer a minha vida.
As pessoas estavam à espera que anunciasse a sua saída da UNITA . A que se deve esta finta?
Não…. Ninguém me aconselhou a deixar a UNITA. Sempre soube o que quero. Eu sei o quero, não fui aconselhado por ninguém. Eu mantive a minha postura. Eu acompanhei a história do Abel no partido. Acompanhei a história dos Gatos e outros. Porque tenho de agir diferente? O problema é que as pessoas não nos conhecem o suficiente e querem depois julgar-nos mal. As pessoas esperavam que eu criasse uma ruptura e anunciasse que ia para o MPLA. Eu não vou para o MPLA, vou lá fazer o quê? Eu não li o processo de que sou acusado e nem participei na reunião de sexta- -feira, dia 6. Votaram no comité permanente militantes que não são membros deste órgão.
Pode citar nomes de pessoas que não são membros do comité permanente e que votaram contra si?
Posso sim, são os casos do Soba Mário Katapi, a Henda Santos, Maurilio Luiele, nenhum deles é membro do comité permanente, mas votaram.
Passou agora a militante de base. Sente-se frustrado por isso? Qual será o seu contributo?
Nesta altura estou para recorrer e se o partido não reparar a decisão vou cumprir os dois anos de suspensão. Mas não estou frustrado, nem estarei fora da política activa e vou passar a ter intervenções no parlamento.
Qual era a sua relação com a sua adjunta, Anavita Ngolo, antes desta crispação?
Não tenho problemas com ninguém. Eu sinto que a Anavita já ambicionava esta função e ela contribuiu para isto. Basta ver que, tão logo, recebemos o convite para ir ao encontro do Presidente da República viram qual foi a guerra causada por ela. Se não fosse o presidente Samakuva a ouvir- -me eu não iria, mas explodia naquela altura. Assim que ela assumiu o cargo, foram-lhe criadas todas as condições que eu nunca tive. Estou na liderança há dois anos, não realizo o comité nacional, que é o órgão que se reúne nos intervalos dos congressos, porque o partido não me deu orçamento e ela já tem dinheiro para isto.
