Nas duas províncias foram afectadas 51.275 pessoas, 9.511 casas inundadas, 607 casas desabadas, bem como 23 escolas, cinco centros de saúde, 56 postes eléctricos danificados e o deslize de 35 ravinas.
Os administradores municipais foram os primeiros a dar à cara e a ir ao "teatro das operações", depois foram os governadores a tomarem conta da situação. Na segunda-feira, o Presidente João Lourenço manifestou profunda preocupação com os estragos provocados pelas chuvas, expressando condolências com as famílias enlutadas e garantiu máximo empenho do Executivo no apoio às pessoas afectadas, segundo informação divulgada pela imprensa.
As chuvas são o "fiscal" que revela todas fragilidades estruturais e estratégicas. Chama-se a comunicação social, fazem-se visitas aos sinistrados, levam-se palavras de conforto e de solidariedade mas não se leva muito mais, porque pouco ou nada tem para se dar. Criam-se comissões técnicas e também multisectoriais mas não há muito para além disso.
Em Benguela, estas chuvas "ressuscitaram" os fantasmas de 11 de Março de 2015, quando as chuvas fizeram perto de cem mortos e deixaram desalojadas mais de trezentas famílias. Foi nesta altura que dizeram obras emergenciais e se falou do Plano Director de Macrodrenagem Urbana de Benguela. Nem mesmo programa integrado, avaliado em 415 milhões de euros teve como prioridade trabalhos nas valas de drenagem. O transbordo do rio Cavaco em consequência das chuvas e que provocam o desalojamento de várias famílias. "Quando chove, a cidade desaba", dizem os populares de Benguela. Há muito que se vem alertando mas não se dá cavaco à situação do rio Cavaco. Nem o Executivo que no caso de Benguela, precisamente onze anos depois quase nada foi feito, com a excepção de diferentes comissões técnicas que são sempre criadas depois de surgir uma catástrofe, nem as populações que continuam a construir em zona de risco e sem consciência colectiva dos riscos e dos perigos, contribuindo para um crescimento acelerado e desordenado das cidades. As acções acabam sendo pontuais como operações de sucção em residências inundadas e ruas alargadas, apoio alimentar, fornecimento de água potável, saneamento básico e distribuição de vestuário e outros bens às populações afectadas.
Não se tiraram lições de Março de 2015, não há acções e planos concretos. Há prioridades invertidas e estratégias que andam desalinhadas. Sem preparo, sem prevenção, sem planeamento e sem estratégia, as chuvas nas nossas cidades serão sempre sinónimo de caos, mortes e prejuízos. Mas como isso tudo e ainda assim as prioridades é a de gastar quase duzentos milhões de dólares para fazer uma estrada para o Mussulo ou uma espécie de passarele das estrelas mundiais. Continuamos a ter a estratégia da cigarra que fica a "farrar" no Verão e depois sofre no Inverno, no nosso caso, é que quase nada se faz durante o período do Cacimbo e quando chega a época chuvosa se vai atrás do prejuízo. Em Benguela foi preciso esta tragédia para se confirmar que em onze anos nada foi feito, nem um único plano de macrodrenagem no rio Cavaco e os resultados trágicos aí estão. Ninguém dá "cavaco " às chuvas.