Com efeito, embora o momento alto desta ida à Lunda Sul, a experiência verdadeiramente profunda do Papa em Angola, seja a "santa missa" na "esplanada de Saurimo", na sua caminhada apostólica passará também pelo lar de idosos de Muangueje, no município da capital provincial.
Onde entre as dezenas de "mais velhos" estão muitas vítimas do obscurantismo que ainda reina no país, acusados de feitiçaria, grande parte das vezes pela própria família, como a isso se referiam ontem, quando o Papa seguia para a Muxima, comentadores angolanos nas televisões nacionais.
E é aquele lar, gerido pela igreja Católica, que serve de refúgio de inúmeros idosos que, de outra forma, estariam votados ao abandono, ao sofrimento e à morte prematura, sendo, como se sabe, Angola um país em que todos os anos várias pessoas, quase sempre mais velhos, são assassinadas acusadas de feitiçaria.
A Igreja Católica tem, em permanência, as suas atenções focadas neste fenómeno criminoso e esta ida do líder dos católicos, que são a maioria da população angolana, não surge por acaso, onde se espera que deixe uma mensagem dura para aqueles que praticam estas barbaridades terceiro mundistas e próprias de países subdesenvolvidos.
Mas Leão XIV não deixará, como se espera, e tem sido seu timbre, desde logo pelas frases que proferiu desde que chegou a Angola, no Sábado, 18, criticando com afinco a "lógica extractivista" que condena tantos países africanos ao subdesenvolvimento e sofrimento, onde naturalmente a extracção de diamantes pode encaixar, mesmo que o Governo de Luanda procure investir neste sector para desenvolver as províncias do leste angolano.
E assim deverá ser porque na sua primeira intervenção pública em Angola (ver links em baixo), totalmente em português, depois de ter estado com o Presidente da República em encontro privado no Palácio da Cidade Alta, Leão XIV destacou a necessidade de Angola se defender da lógica extractivista que tanto sofrimento e morte provoca.
Ao mesmo tempo, dirigindo-se aos mais jovens, afirmou que estes podem e devem assumir a responsabilidade de construir "um projecto de esperança, um país livre de escravidões impostas por elites com muito dinheiro e falsas alegrias".
Também na Muxima, aos milhares de fiéis que o esperavam, Leão XIV pediu que seguissem o exemplo de Maria, de "Mamã Muxima": "Uma mãe ama os seus filhos, por mais que sejam diferentes. Também nós devemos lutar para que todas as crianças tenham o que comer, para que todos os doentes possam ter cuidados de saúde e os idosos dignidade nos seus últimos anos. Sejamos agentes de justiça e portadores de paz para construir um mundo melhor, onde não haja fome, nem guerra, nem desonestidade".
"É o amor que deve triunfar, não a guerra", voltou a clamar o Papa, que depois rezou perante a imagem de "Mamã Muxima".
A estadia do chefe da Igreja Católica, que representa mais de 1,4 mil milhões de pessoas em todo o mundo, em Saurimo, a terra por excelência das pedras que brilham mais que todas as outras, onde estão as maiores e mais importantes minas de diamantes de Angola e do mundo, será curta, mas tem tudo para ser o desvio nesta caminhada apostólica mais "luminosa".
O Papa vai estar na Lunda Sul entre as 09:30, hora prevista para aterrar no Aeroporto Deolinda Rodrigues, e as 13:45, horário previsto de saída do seu avião rumo à capital, Luanda, onde encerrará o dia com um encontro com os bispos, e outros religiosos na Paróquia da Nossa Senhora de Fátima.
Na terça-feira, sem outra agenda, Leão XIV seguirá às 08:45 da Nunciatura Apostólica, no nº 123 da Rua Martin Luther King, no Maculusso, em Luanda, para o aeroporto 4 de Fevereiro, com destino a Malabo, na Guiné Equatorial, com o avião a meter as rodas no ar, segundo a agenda oficial, às 09:15.







